07h00 - sexta, 29/03/2019

Gente da Barragem:
Luís & Filipa

Gente da Barragem: Luís & Filipa

Luís Mangas, 42 anos, gere um negócio de venda e restauro de objectos antigos em Lisboa (a "Muito Muito", uma vintage store na LX Factory em Alcântara), e divide o seu tempo entre a loja e a recuperação da casa nova em Santa Clara-a-Velha. Filipa Mangas, 37 anos, foi fisioterapeuta num hospital em Lisboa durante 14 anos, com especializações na área vascular, no cancro da mama e na área da pediatria. Estão casados há 12 anos, têm três filhos menores (Manuel, Francisco e Joaquim), que frequentam a escola primária de Sabóia. Em Julho de 2018 mudaram-se de armas e bagagens para uma casa, ao pé da barragem de Santa Clara-a-Velha.
Para ir a sua casa vai-se pela estrada em direção à barragem de Santa Clara, mas na última curva, à esquerda, segue-se em frente por uma estrada de terra, anda-se um bocado e vira-se novamente sempre a descer por uma estrada que lhes passa ao lado e que termina na porta de uma outra habitação mais afastada.
A propriedade tem um portão de madeira rústico, antigo, como se tivesse sido o guardião desde sempre. A casa é verde oliva escura, cor de sombra dirá Luís mais tarde, integra-se melhor na paisagem e privilegia o enquadramento da casa na natureza. Na entrada para a casa há um jardim em progresso. Vê-se a luta com as raízes de árvores e a moldagem do espaço de entrada a um ideal de beleza e conforto. Vasos com experiências de plantas ao lado de uma garagem para carros de criança, e bancos de jardim restaurados compõem este primeiro contacto. O olhar é contudo desviado para o lago mais abaixo, com os contornos sinuosos dos cerros a emoldurar aquela placidez do lago com as ilhas que parecem flutuar no silêncio de uma só cor.
A casa é constituída por dois pisos, tem um alpendre onde cadeiras estrategicamente colocadas antecipam em si o privilégio daquela vista. Uma mesa comprida em madeira maciça antevê a ideia de um espaço aberto a amigos e a refeições em aprazíveis tardes e noites prolongadas. Há um jovial e bom gosto na utilização dos diferentes materiais que criam este espaço completamente aberto para o panorama que se desenrola à sua frente. Foi sentados nesta mesa do alpendre que conversamos. De dentro de casa o ruído alegre de crianças em correria.

A HISTÓRIA
Filipa: A nossa história? Nós conhecemos através de amigos comuns, e curiosamente tudo começou com um chapéu de cowboy.
Luís: Eu explico… Na altura, mais jovens, vivíamos no mesmo bairro em Lisboa, na Lapa, contudo nunca nos tínhamos cruzado. Eu era director de casting de uma empresa e precisei de repente, para uma produção, de um chapéu de cowboy. Telefonei a uma amiga que sabia que tinha um, e ela, agente do destino, disse-me que a Filipa tinha um igual e que estava mais próxima de mim e por isso seria mais rápido para mim consegui-lo. Telefonei à Filipa a perguntar se me poderia emprestar o chapéu, fui buscá-lo e a partir do momento que percebemos que havia esta proximidade geográfica, começamos a ver-nos mais, depois a namorar, casamos e o resto é a nossa historia.

A MUDANÇA
Filipa: Estamos aqui desde 5 de Julho de 2108.
Luís: Antes já vínhamos para Santa Clara, eu sempre gostei do campo e da relação com a natureza, de alguma forma já existia em mim este desejo de um dia ter um lugar assim como este para mim. A Filipa é que me trouxe cá um dia.
Filipa: Eu já tinha cá a casa dos meus pais, ele é que se apaixonou por Santa Clara. Vinha para cá desde miúda passar férias com os meus irmãos e primos. A história dessa casa é engraçada. O meu avô era cirurgião geral e fazia muito serviço cá em baixo (Alentejo), o meu pai também trabalhou cá, o meu tio, todos se envolveram aqui no Alentejo profissionalmente. Um dia o meu avô, de alguma forma, salvou a vida de um senhor e este, em forma de agradecimento, ofereceu-lhe um terreno também aqui perto da barragem onde o meu avô construiu a casa, que se tornaria a casa de férias da família. Quando começámos a namorar trouxe cá o Luís um dia e deu-se o contágio. Eu já tinha o bichinho de Santa Clara e ele apanhou-o, forte. Logo na altura já só me falava nisto. Um dia era bom que tivéssemos um lugar nosso aqui ao pé da barragem, dizia ele constantemente. Digamos que estar aqui hoje foi bastante premeditado.
Luís: Sim, gostei muito desse tempo! Ficávamos nessa casa do teu avô, vivíamos o lago da barragem ou frequentávamos as praias. Trazíamos amigos, cuidávamos dos jardins, cozinhávamos. Às tantas vínhamos de Verão e de Inverno, sempre que podíamos! Aquele tempo de férias!
Filipa: Nessa altura vivíamos na Bica em Lisboa, e por altura do nascimento do Joaquim, há dois anos, vim para cá passar a licença de maternidade e conhecemos os arrendatários desta casa, que eram alemães. Em conversa um dia referiram que o dono da casa, também alemão, pretendia vender a casa, e eles, que estavam a pensar regressar à Alemanha, sugeriram-nos se não estaríamos interessados em comprá-la. O Luís, claro, entrou logo em modo cinematográfico, que este sítio era espectacular e que devíamos ir falar logo com ele antes que mais algum comprador aparecesse. E lá fomos! Fiquei com os miúdos cá fora e o Luís foi conversar com ele e, de repente, sai ele sorridente e diz: Acho que já fiz asneira, acho que vamos comprar esta casa. E pronto assim começou a aventura!
Luís: Não foi quando saímos daqui que eu disse isso. Não te lembras? Eu saí daqui e disse que lhe ia enviar um e-mail e foi o que fiz. Depois, quando ele respondeu, é que percebi que tínhamos uma hipótese, porque na altura, quando o conhecemos e ele disse qual era o valor pretendido, era completamente impossível para nós. Achávamos que era fantástico viver no campo, mas muitas dúvidas cresceram dessa possibilidade em aberto. É todo um conjunto de mudanças que era preciso aceitar, não era só o dinheiro. Mudares o teu trabalho, a forma e rotina, vender uma casa para comprar outra, e será que depois vale a pena? E as crianças irão gostar? E a Filipa vai gostar? Eu queria muito, mas foi preciso muita ponderação para darmos este passo. Parecia tudo muito difícil de repente. Não era só sair da zona de conforto, mas de todos os confortos. Mas decidimos e enviei o e-mail com uma proposta assim muito abaixo do que ele pedia, desculpando-me pela ousadia de um valor tão diferente do que ele pedia, mas justificando que provavelmente era o que conseguiríamos com um empréstimo bancário, que era só o que podíamos. De alguma maneira aquilo fez sentido para ele, porque rapidamente recebi a resposta a convidar-nos a ir ao Algarve ter com ele para discutir a proposta, que tinha estado a pensar no assunto e que queria falar connosco. E deve ter gostado de nós porque acenou com um papelinho com o valor e… era o que eu tinha oferecido!
Filipa: Depois foi a mudança. Esperamos pelo princípio das férias escolares e viemos logo para cá. Ao princípio nem mexemos muito na casa, estivemos só a vivenciá-la e a ajudar os miúdos a adaptar-se a esta nova vida, neste ambiente, que embora já habituados das férias anteriores a este ambiente mais perto da natureza, contudo esta agora ia ser a sua nova casa o que era muito diferente. Depois de começarem a frequentar a Escola Primária de Sabóia, passámos a ter mais tempo para nos dedicarmos ao restauro da casa e transformá-la à nossa imagem. Decidimos que as crianças deveriam frequentar essa escola e não a de Santa Clara porque já lá andam três primos deles. E além disso preferimos que as crianças estejam num grupo mais alargado de crianças do que isoladas na mesma companhia durante anos.
Luís: Ou seja, começámos com algumas obras essenciais. Recuperar os anexos da casa para aproveitar aquele espaços, a pintar, a fazer massa, a cortar árvores, a arranjar o terreno, enfim, a cuidar de um sítio que já não era cuidado há muito tempo. Em alguns fins-de-semana vinha muitas vezes sozinho, trazia a carrinha cheia de coisas, e fomos fazendo a mudança assim aos poucos. Os amigos vinham às vezes e ajudavam na reparação ou construção de alguma coisa. Depois tenho esta paixão por objectos e se tu olhares bem vês que todos eles são recuperados, têm tempo inscrito neles. Não é só uma questão de moda, porque agora já gosto do móvel da minha avó. Não, se é bonito ou feio é irrelevante, o importante para mim era ser o móvel da minha avó e olha que até não é muito bonito, mas encontrei uma forma de o enquadrar dentro da sala. Está um espectáculo e dali ninguém o tira e vê: foi sempre o móvel da minha avó. Ou seja esta casa e estes objectos estão interligados pela mesma forma de olhar e estar no mundo. Em consciência, para a reutilização, menos desperdício. Aplicamos isso no nosso dia-a-dia, na nossa horta, nas opções que estamos sempre a tomar. É um ideal, esta ideia da reutilização, se pensarmos aplicada ao próprio património talvez ajudasse a corrigir algumas assimetrias que existem. Porquê tantas casas desabitadas? Porquê tantos montes abandonados? Porquê a falta enorme de espaços culturais? Talvez devesse haver uma política de reconversão de espaços, estimuladora de empregos, que favorecesse aquilo que, por exemplo, Santa Clara tem para dar, um potencial turístico enorme e que teima em não desenvolver e que parece sempre dependente da iniciativa de privados que mais do que serem estimulados ou apoiados são, parece-me um pouco, vistos como disruptivos de uma normatividade implantada nos hábitos mais conservadores. Parecem ter desistido de uma política de fixação das populações, estimulando apenas os que já não pensam partir. Não viemos para aqui para nos isolarmos, viemos para alterar as nossas vidas, construir aqui o nosso sonho, darmos o melhor dos mundos aos nossos filhos. Estamos a aprender com a comunidade, mas mantemos o nosso olhar crítico sobre as situações que nos parecem que poderiam ser melhoradas para beneficio de todos e não só o nosso.
Filipa: A horta, por exemplo, foi uma forma de nos aproximarmos pela aprendizagem, com a própria comunidade de Santa Clara. Cada vez que alguém vinha trabalhar aqui na casa acabava sempre por nos explicar uma série de coisas. E agora já comemos umas cenourinhas e umas alfaces maravilhosas da nossa horta.
Luís: Sim, durante o Verão fomos pensando como seria o Outono e o Inverno aqui e, claro, pensando que coisas podíamos plantar. Tínhamos medronheiros e nem sabíamos. E quando vimos que toda a gente andava a apanhar, fizemos o mesmo. Vamos aprendendo assim. A terra tem muito para dar. As pessoas explicam os segredos das suas culturas, os porquês que para nós não são óbvios e que têm a ver com uma experiência de vida à qual somos alheios, mas que estamos sedentos de absorver. Distinguir as melhores sementes, os processos de plantar e cuidados, etc., é todo um admirável mundo novo que todos os dias nos surpreende. Pôr aquilo na terra, vê-la crescer e depois poderes cuidar daquilo que vai ser a tua comida é uma forma muito diferente daquilo em que crescemos.
Filipa: Mesmo estas coisas da terra, as pessoas partilham imenso. Às vezes aparecem aqui com tomates, com ovos...
Luís: É curioso ver como esta troca de excedentes serve para reforçar laços de vizinhos, de familiares, de amigos.

A ROTINA
Luís: Já temos uma rotina. Levar os miúdos à escola, com tempo, para ainda brincar lá um pouco com eles antes das aulas, não gostamos dessa ideia de largar as crianças. Depois há sempre imensa coisa para fazer aqui. A casa continua em execução, sempre alguma coisa para fazer. Na parte de cima temos os quartos, o nosso e o dos miúdos, que é de auto- construção. São eles que vão acrescentado ou dizendo o que querem, está sempre em mutação, mas ajuda a dar-lhes um conforto personalizado e mantém-lhes a criatividade activa e funcional para o seu mundo de crianças. Faço a gestão da empresa um pouco a partir daqui, mas que me obriga a estar sempre em contacto com a equipa que trabalha comigo, tomar decisões portanto, constantemente.
Filipa: A minha área não me permite para já desenvolver por aqui a minha actividade. Vou acompanhando apenas uma doente que não é de cá, sou eu que me desloco. Pensamos no futuro introduzir neste espaço alguma relação de serviços da minha área, com um lazer mais ligado à saúde.

O FUTURO
Luís: Acreditamos, como já tinha dito, que Santa Clara pode e deveria ser um oásis aqui no interior. Ainda estamos aqui há pouco tempo, estamos a tentar perceber como poderíamos fazer parte dessa mudança. Mas com esta localização que temos, com esta vista e a dois passos da água, pensamos que temos todas as possibilidades de criar aqui um espaço de alojamento, aliás mais específico, de acolhimento, por exemplo, que permita um usufruo desta paisagem e a prática de desportos no lago por exemplo. É um local ideal para criarmos uma relação com esta ideia de agro-turismo: como visitar a horta de um vizinho, trazer um cabaz de produtos e serem confeccionados pelos nossos visitantes e convidar esses donos dessas hortas a virem provar o que outras pessoas fazem com esses produtos, diferentes das suas maneiras de cozinhar por exemplo. Era algo que nos daria muito prazer essa ideia de recombinação de culturas. Temos ainda de trabalhar nesta ideia de criar este espaço turístico. Já temos o nome, só falta o resto. E, por outro lado, construir também uma possibilidade de a comunidade se integrar nele, quer pela criação de postos de trabalho quer pelo seu próprio usufruo de actividades que possamos proporcionar.
Filipa: Agora ainda me estou a adaptar um pouco a esta nova situação, mas profissionalmente gostaria de poder desenvolvê-la aqui. Precisamos de criar primeiro as condições ideais para esse fim e depois implantá-las. Este tempo andei a experimentar a aprender a trabalhar na casa, aprendi a fazer coisas que nunca tinha pensado fazer. Usei lixas, pintei, fiz massa, sei lá que mais, tudo parece perfeitamente normal depois de perceber como se faz, mesmo que seja a primeira vez que o faço. Mas dá um grande prazer trabalhar na construção de um lar que imaginamos.

Texto: Hélio Mateus | Associação ZUT!
Parceria "Jornal Sudoeste"/ Associação ZUT! no âmbito dos 50 anos da Barragem de Santa Clara


COMENTÁRIOS

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Data: 10/05/2019
Edição n.º: