07h00 - sexta, 12/04/2019

Gente da Barragem:
Rita & Ricardo

Gente da Barragem: Rita & Ricardo

Há na barragem de Santa Clara dois pequenos barcos à vela, na zona do centro náutico, ancorados à espera das pessoas que hão-de chegar ao deck de acostagem e neles entrar, soltar as velas e, como num sonho de criança, simplesmente navegar. Foi assim que conheci a Rita e o Ricardo. Primeiro os barcos, depois os seus proprietários.
Rita Norberto tem 34 anos e é bióloga. Formou-se nos Açores, onde estudou, viveu e trabalhou durante 12 anos. Deu aulas na universidade, fez investigação, trabalhou num centro de educação ambiental e foi skipper num barco de whalewatching, entre outras coisas.
Ricardo Vaz é arquitecto e tem 48 anos. Estudou em Lisboa, formou-se em arquitectura e exerceu a profissão quase durante 20 anos. Fez uma pausa para ser professor de vela. São de Lisboa, mas vivem em Luzianes-Gare.

A MUDANÇA
Rita: Decidimos vir para o campo um dia. Viemos de férias para aqui e decidimos começar a procurar um espaço para nós. Procurámos terrenos aqui à volta, mas acabámos por nos decidir por um monte em Luzianes que tinha as condições que procurávamos e que na altura pudemos aceitar. Há muito que tínhamos este desejo de vir. Por várias razões: tínhamos estado fora de Lisboa a trabalhar dois anos como skippers num barco à vela no Pacífico e começámos a pensar em voltar a terra, ter um pedaço de terra firme que pudéssemos dizer que era nosso, construir algo para nós, viver numa comunidade.
Ricardo: Não foi uma necessidade premente vir para aqui. Podíamos ter continuado a viver o resto das nossas vidas no mar, há quem o faça e seja feliz.
Rita: Embora a experiência estivesse a ser muito boa, outras questões começaram a preocupar-nos. A ligação à terra por exemplo. Queríamos ser auto-suficientes, produzir a nossa própria comida, deixar de ser apenas consumidores, viver esta ligação à natureza de uma forma mais intensa. Produzires a tua própria comida já é uma riqueza em si.
Ricardo: O meu ponto era que, no barco, o ambiente era confortável e conhecíamos outros casais que viviam as mesmas experiências. Mas a determinada altura o exótico torna-se vulgar, ouves as pessoas dizer que estão fartas dos peixes coloridos e já não sentes a mesma coisa, parece que começa tornar-se fútil esta coisa de andar aqui de ilha em ilha. Foi uma experiência inesquecível, que modificou as nossas vidas e que acho que toda a gente deveria ter. Mas para nós tornou-se uma rotina que deixou de fazer sentido a certa altura.
Rita: Sim esse tempo passou rapidamente, e na verdade acabávamos sempre por ter um contacto um pouco superficial com as comunidades locais, nunca ficávamos o tempo suficiente para estabelecer uma ligação mais profunda. As pessoas eram sempre maravilhosas e começámos a sentir isto, que são eles que produzem e nós consumimos. Não estávamos tempo suficiente para dar algo em troca. Qual é afinal a nossa contribuição para a sociedade? Pensámos que seguir essa linha era suficientemente motivador para nós.
Ricardo: Estávamos do outro lado do mundo, mas atentos. Como é que podemos contribuir? Não é uma questão fácil, se te puseres a pensar nisso. Queres contribuir de uma forma positiva e não sabes bem como… As coisas às vezes não estão preparadas para aquilo que queres dar, o processo não é leve, pelo menos para nós.
Rita: De alguma forma isto já vem de antes, em Lisboa. O ritmo da cidade, a desconexão aparente de tudo, correr ao ritmo de outros e não respeitar o teu próprio.

A VELA
Ricardo: O trabalho em atelier de arquitectura começou a tornar-se muito desgastante, trabalhava-se fins-de-semana, sempre com deadlines a cumprir. E se queres ser muito bom naquilo que fazes acabas por só fazer aquilo, obsessivamente, deixas de ter tempo para na realidade viver. E então apareceu a vela, talvez como escape, mas que de repente me pôs a pensar: afinal! Primeiro comecei a dividir o tempo entre a vela e a arquitectura, depois comecei a dar aulas de vela e passado algum tempo fiz uma pausa na arquitectura e passei só a dar aulas de vela numa escola em Belém.
Rita: Entretanto tinha-me conhecido...
Ricardo: Conhecemo-nos num evento de vela, a Rita também tinha aulas na mesma escola, e descobrimos que tínhamos uma grande afinidade e apaixonámo-nos. Pode-se dizer que o nosso destino estava traçado!
Rita: Tinha voltado dos Açores, tinha aulas nessa escola de vela, comecei a fazer eventos com eles e já vivíamos juntos há um ano quando surgiu esta oportunidade de fazer trabalho num barco no Mediterrâneo, onde estivemos dois verões como equipa. Começámos a pensar que se calhar poderíamos fazer isso de forma mais permanente. Acabámos por ir trabalhar para um catamaran de 57 pés e depois concorremos para uma posição num de 80 pés, no Pacífico, onde estivemos esses dois anos de que falámos.

O ALENTEJO
Rita: Quando nos mudámos para o Alentejo trazíamos um ideal também de viver de uma forma mais monástica, refiro-me a viver da terra, sem a preocupação constante do dinheiro, pensar de forma diferente. Mas ao fim de quatro anos aqui começámos também a aceitar que a realidade é uma coisa diferente do que aquilo que às vezes pensamos. Durante este tempo temos de ir fazer os eventos em Lisboa para conseguirmos estar depois aqui. Então começámos a transferir este desejo também para cá, porque é aqui que queremos viver. Concorremos ao programa "Odemira Empreende" para a compra destes dois barcos. São dois raqueros de cinco metros, concorremos com duas propostas diferentes. Na nossa perspectiva podem preencher uma certa lacuna de oferta de experiências às pessoas, combater a interioridade, neste sentido de sub-desenvolvimento tão protelado e, por outro lado, contribuir em parceria com outros agentes turísticos da região para o aumento da oferta qualitativa.
Ricardo: Agora olhamos para o futuro, queremos estar aqui enquanto estivermos bem. Continuamos em simultâneo a reconstruir o nosso monte. É em taipa e isso é muito bom e está de acordo com a nossa filosofia de vida. Temos os materiais na própria terra à nossa disposição. Temos pedra, talisca que podes utilizar.

A BARRAGEM
Rita: Esta morfologia da barragem é muito parecida com Lastovo, na Croácia, onde tínhamos passado à saída do Mediterrâneo e, de repente, ao começar a olhar para estes recantos e a ver a paisagem a desdobrar-se, cada vez mais bonita, começámos a falar no imenso potencial, e deste plano de água gigante, e de uma característica fundamental, é que tem vento, ao contrário por exemplo do Alqueva. Acreditamos que isto aqui até se poderia tornar, com os devidos apoios do Turismo e da autarquia, num pólo de vela, até poderia ser o melhor em águas interiores.

A INTEGRAÇÃO
Ricardo: Sobre a nossa integração nesta comunidade sempre cada vez mais alargada, o tempo que já aqui passámos também já nos modificou. Tratamos as pessoas de igual para igual, vizinhos, amigos. Apresentamos propostas para melhorar a nossa freguesia, estamos agora a apostar nesta proposta da vela. É progressivo. Ao mesmo tempo gostamos de manter o nosso espaço, na nossa privacidade.
Rita: Às vezes é complicado. Ouves dizer: 'tu aqui serás sempre um estrangeiro'. Mas o que pensamos é que isso não é um problema nosso, mas de quem pensa assim. Eu considero que estou no meu país e onde quer que esteja faço sempre por dar o melhor para também tornar este lugar num sítio mais apetecível e bonito, não só para nós como também para os outros. Não acho que o Alentejo seja só dos alentejanos da mesma forma que Lisboa não é só dos lisboetas. É mundo e este pertence a todos. Aqui vivemos a paisagem, mas também vivemos a nossa história, as nossas tradições. E não há palmeiral numa ilha exótica no mundo que possa substituir esta sensação de pertença que precisamos. Para nós Portugal é o melhor sítio do mundo para se viver!

Parceria "Jornal Sudoeste" & Asscociação ZUT!
Texto: Hélio Mateus | Foto: Endar Can


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