16h08 - quarta, 23/03/2016

Tabernas, tascas, vendas e botequins


António Martins Quaresma
Nada foge à acção do tempo. As palavras também. Evoluem na forma, carregam-se de novos sentidos, mudam de residência, morrem, enfim possuem história. Sem ir muito longe, em busca da etimologia, vejamos algumas palavras e sua história mais recente, exemplificadas no Litoral Alentejano.
"Taberna", ou "taverna" como consta no conhecido dicionário de Morais e Silva (ed. de 1813), é, segundo este autor, "casa onde se vende por miúdo o vinho, azeite e alguma cousa de comer". Quanto a "venda", surge com o mesmo significado. Já "tasca" e "botequim" não estão contemplados no dicionário, mas aparecem palavras como "tasquinhar", forma popular de "comer", e "botica" enquanto "loge onde está a fazenda a vender", "casa de jogo" ou "casa onde se vendem remedios e drogas medicináes".
Taberna e venda acabaram por ganhar sobretudo o sentido de estabelecimento onde se vendia vinho a retalho e onde ele era consumido. Nela se podia também comer, geralmente sob a forma de petisco. Tasca ou tasco e botequim e sua variante botequinho, designações, reconheça-se, sem grande tradição por estes lados, também assumiram a função de estabelecimento onde se vendia comida e vinho. Em qualquer dos casos, eram lugares socialmente modestos, frequentados pelas classes populares, e, como é corrente, assumiram um sentido frequentemente depreciativo.
A taberna passou a andar associada à ideia de consumo desregrado de álcool e até ao alcoolismo, onde uma clientela masculina perdia o seu tempo, portanto ligada à ideia de lugar pouco recomendável, de embriaguez e frequentemente de desordens. O aparecimento dos cafés, dos clubes e das sociedades, onde a convivência social era mais distinta, sublinhou esse estigma das tabernas.
Hoje, face às mudanças da vida, as velhas tabernas/vendas, as tascas e outros estabelecimentos congéneres praticamente extinguiram-se. No entanto, ressurgiram as designações, agora aplicadas a restaurantes, muitas vezes de referência, frequentados por quem tem dinheiro. No Litoral Alentejano, o restaurante de maior nomeada ostenta a designação de "tasca" e ocorrem algumas "tabernas" que muito pouco têm a ver com a antiga realidade por elas designada.
A conotação vexatória desvaneceu-se, erodida pelo tempo, e os nomes foram recuperados num ambiente em que os conceitos de tipicismo e de tradição se associam a genuinidade, face à insípida padronização dos espaços e das ementas, que caracteriza boa parte da oferta gastronómica das áreas turísticas. Em boa medida, as antigas designações servem agora realidades diferentes, emprestando-lhe um capital simbólico que lhes confere uma imagem social tida como positiva.



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