10h13 - quinta, 05/05/2016

Entre Tiririca e el-Rei


António Martins Quaresma
1. Em casa onde há pão…
Estamos de olhos postos no Brasil. É hoje uma grande economia, mas com vulnerabilidades que a fizeram repercutir gravemente os problemas que ocorrem a uma escala mais geral. As melhorias sócio-económicas obtidas pelo povo brasileiro, com o PT de Lula da Silva, estão agora em causa. E não há como uma crise económica desta natureza para fazer emergir a instabilidade social.
Quem viu a votação dos deputados na noite de 17 para 18 de Abril sobre o impeachment de Dilma Roussef não pôde deixar de verificar o grau de crispação existente, bem como a escassa formação democrática da "classe política" em presença. Chocante o discurso corrente entre os vencedores, com frequente invocação de Deus e da família, como se fosse um slogan, e até o elogio da ditadura militar.
Parece evidente que o argumento da corrupção está a ser um instrumento de luta política, com os mais corruptos a gritarem contra a corrupção. E funciona, pois, em certas condições, a irracionalidade colhe mais adeptos do que a racionalidade.

2. A República
Em Outubro de 2010, comemorou-se em Odemira e São Teotónio o centenário da instauração da República em Portugal, nomeadamente com homenagens a republicanos locais, participação da banda filarmónica de Odemira, edição de uma medalha comemorativa e intervenções de historiadores. Já lá vai quase meia-dúzia de anos.
No entanto, só agora me apercebi de que num site dedicado aos estudos de genealogia – geneall.net – surgiram comentários, a propósito duma notícia enviada de São Teotónio, zurzindo a mencionada comemoração. É tarde, mas como a publicação se mantém na net, justifica-se uma nota.
Segundo alguns dos "confrades" opinantes, tal jornada comemorativa pecava de várias formas: que não se sabia que República era (1ª, 2ª ou 3ª); que a República implantada em 1910 desrespeitara direitos humanos; que as comemorações iam ser pagas por alguém, isto é, pelos alemães (?!); etc. Conheço o trabalho inestimável de alguns genealogistas, sou até amigo de alguns, e sei que a maioria não perfilha a abstrusa arguição. Aliás, houve quem o declarasse durante a discussão, em volta da referida notícia.
Sabe-se que a República de 1910, apertada por uma forte crise económica e muitas vezes servida por agentes pouco republicanos, trilhou alguns caminhos bem discutíveis e até censuráveis; e que a República que se lhe seguiu, o Estado Novo, foi aquilo que se viu. Mas o que tem isto a ver com a efeméride em causa?
Não está a revolução do 5 de Outubro na génese do regime político em que vivemos? Não se conta Odemira entre os concelhos onde foi eleita uma câmara republicana, antes de 1910? Não foi São Teotónio o principal foco das ideias republicanas neste concelho?
De resto, a componente de investigação histórica, aduzida pelas comunicações dos historiadores, que lançou luz sobre o período nos planos regional e local, mostra que a efeméride não pretendeu "branquear" quaisquer mal¬feitorias cometidas há um século, mas antes criar e divulgar conhecimento. Ademais, sem peso para o erário público, pois estou em condições de afiançar ao anónimo genealogista que disso se lembrou (é moda, entre alguma "escol"!) que não houve por aqui dinheiro de "alemães", nem de contribuintes portugueses.
Enfim, talvez o ardor monárquico manifestado, aliás reivindicado, pelos citados "confrades" da geneall.net lhes tenha feito perder o discernimento, isto é, a capacidade de usar a razão. Como outros ardores a muitos dos prosélitos do impeachment, no lado de lá do Atlântico.



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Data: 05/01/2018
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