18h06 - sexta, 16/09/2016

Havia um pessegueiro na ilha!


António Martins Quaresma
1. No século XIX, emerge, na política portuguesa, a figura do "cacique". Ele era um notável local, ligado a um partido político, com capacidade para arregimentar votos que garantissem a vitória nas eleições; em contrapartida, o cacique movia-se na instância partidária, conseguindo favores do poder político para os seus partidários e obras para a região. Era o patrono que mediava as relações entre o centro e a periferia, replicando social e psicologicamente as práticas religiosas. Com o Estado Novo, centralizador e uni-partidário, o cacique tradicional perdeu espaço, mas não desapareceu de todo. No concelho de Odemira, por exemplo, até já em plena democracia, encontramos, aqui e ali, uma figura incontornável da vida local, a cujo controlo não fogem sequer os representantes de áreas ideológicas diferentes da sua.
Creio que ainda remanesce, na sociedade local, a predisposição simplificadora e simplória para se aceitar a existência de figuras providenciais, às vezes habilidosamente impostas, que movem montanhas e a quem se devem todas as bênçãos recebidas.

2. Já lá vão uns anos, em 1987, Rui Veloso editou um disco, de que fazia parte uma cantiga, de assinalável êxito, intitulada Porto Covo, em cuja letra Carlos T meteu um "pessegueiro na ilha" e "um vizir de Odemira, que, por amor, morreu novo". Enfim, liberdades poéticas: nunca houve qualquer pessegueiro na ilha, que o solo e o ar marítimo não admitiam, nem a figura de um "vizir" se ajustou, alguma vez, à realidade histórica de Odemira.
Correu depois, entre o vulgo, que o aumento da afluência turística e o sequente crescimento da povoação de Porto Covo se deveram à promoção obtida por via da cantiga de Rui Veloso. A própria Junta de Freguesia, reconhecida, atribuiu o nome do cantor a uma das ruas do lugar.
Eu permito-me, acompanhado de outros, considerar a coisa de forma diferente: não foi Rui Veloso que deu fama a Porto Covo, foi a fama de Porto Covo que aliciou Rui Veloso a cantá-la. Na realidade, toda a costa alentejana tinha então começado a estar na moda, em termos turísticos, e Porto Covo, Milfontes, Almograve e Zambujeira, dotadas de praias há muito tempo concorridas, viram a procura aumentar consideravelmente, inclusive por muitos turistas nortenhos.
Claro que, a certa altura, a canção do cantor portuense constituiu uma assinalável publicidade turística, mas, não tenha o leitor a menor dúvida de que, com Rui Veloso ou sem ele, o destino turístico de Porto Covo estava traçado. Factores de ordem económica e social, às escalas nacional e internacional, que criaram o actual movimento turístico, e naturalmente a atractividade deste pedaço de costa estão na base do êxito de Porto Covo.
O mesmo tipo de evolução conheceram Milfontes e Zambujeira, e nenhum bardo as exaltou em versos mais ou menos inspirados. Ressalvo: no caso de Milfontes, há já umas décadas largas, o Trio Odemira chamou-lhe "Princesa do Alentejo", mas hoje ninguém, naturalmente, se lembra de dizer que o futuro turístico desta terra se deveu a tal elogio, muito repetido então na rádio portuguesa.
A busca de explicações fáceis para fenómenos complexos é muito frequente: elas são simples e não exigem grande esforço de observação da realidade. E quando essas explicações apresentam uma componente mediática, estão criadas as condições para que as mentes fiquem obnubiladas por completo.
Muitos dos "agradecidos" agentes locais, geralmente assanhados defensores da excelência das suas terras, acabam por desvalorizar a capacidade intrínseca destas, ao atribuírem, ademais com pouco discernimento, a pessoas ou factos avulsos os seus sucessos.



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