09h57 - quinta, 13/10/2016

Os fortes do Pessegueiro


António Martins Quaresma
Entre o património cultural edificado existente na costa alentejana, destacam-se os dois fortes do Pessegueiro, um no interior da ilha, o outro na costa em frente. Curiosamente, o povo chama-lhe (chamava-lhe) forte da "ilha de fora" e forte da "ilha de dentro", sendo o primeiro o que se encontra na ilha e o segundo na costa.
Este pedaço de costa tem uma longa história, atestada por sítios arqueológicos que remontam ao Neolítico. A própria ilha mostra vestígios da época romana, de quando aqui existiu um porto dedicado à pesca e a preparados piscícolas que eram enviados para outros lugares do Império, talvez mesmo para Roma. O nome "Pessegueiro" remontará ao latim Piscarium, que deu em português, por exemplo, "pesqueiro", de que "Pessegueiro" é uma corruptela.
Voltemos aos fortes. Em finais do século XVI, a Coroa decidiu construir no canal entre a ilha e a terra firme um porto oceânico. Um projecto ambicioso, onde trabalharam os engenheiros italianos Filipe Terzi e Alexandre Massai, que se gorou, nomeadamente devido às dificuldades técnicas.
Com o assédio dos corsários de várias origens, particularmente ingleses, em guerra com a Espanha e por consequência com Portugal (estava-se na União Ibérica), houve que fortificar o lugar. Na costa foi edificada uma bateria e na ilha um fortim abaluartado. Porém, com o abandono da obra portuária também a fortificação foi esquecida. Mais tarde, cerca de 1680, face à obstinação com que os corsários magrebinos frequentavam a costa, foi decidida a edificação de novo forte sobre os restos da antiga bateria da época filipina. Do traço do engenheiro João Rodrigues Mouro, após trabalho de reconhecimento do local pelo engenheiro D. Diogo Pardo de Osório, iniciou-se a sua construção, que estava praticamente concluída em 1685.
O forte, com dois baluartes para o lado de nascente, e uma bateria sobre o mar, acabou por ser, na segunda metade do século XIX, entregue à Guarda Fiscal, em cuja posse se manteve até meados do século XX. Depois disso, ficou desocupado.
Na passagem para o presente século, o forte precisava urgentemente de obras, sob pena de sofrer irremediáveis avarias. Após uma campanha pública, em que diversos órgãos de comunicação agitaram o assunto, foram-lhe feitas obras, há dez anos, nem sempre, parece-me, seguindo as melhores práticas do restauro. Terminados os trabalhos o forte foi fechado.
Qual é a situação presente? O que é necessário fazer?
1.º - Na ilha, onde o excesso de gaivotas não só acabou com a biodiversidade, mas também está a prejudicar os monumentos existentes, o arruinado fortim parece estar a precisar de consolidação, evitando-se assim novas derrocadas. De forma ponderada, claro, para não ser "pior a emenda que o soneto".
2.º - Quanto ao forte da costa, com capacidade de reutilização, está expectante. Até agora nem o Município, nem qualquer outra entidade estatal se mostraram interessados na reutilização do edifício, mas existem particulares empenhados em contratar com o Estado a sua cedência.
Mantê-lo fechado, sem utilidade para ninguém, à espera da próxima ruína, é uma situação injustificável. Afigura-se, até, absurdo que, numa região turística como é o Litoral Alentejano, este estado de coisas se mantenha. Em consequência, parece aceitável que se as instâncias estatais não estão interessadas numa solução ou não são capazes de a promoverem, que o façam os privados.
Porém, qualquer decisão sobre o forte deverá sujeitar-se, é compreensível, a duas condicionantes rigorosas: respeito pelo valor histórico e arquitectónico do edifício e manutenção da abertura ao público com um programa cultural. Estas condicionantes não podem deixar de ser, neste momento, a exigência de todos os que se preocupam com o património do Litoral Alentejano.



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Data: 05/01/2018
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