09h45 - quinta, 22/12/2016

O Natal


António Martins Quaresma
Ao aproximar-se o 25 de Dezembro, a minha neta Joana escreveu uma carta ao Pai Natal, com residência conhecida na Lapónia. Vai entregá-la ao cuidado da estação dos CTT, de Milfontes, que se responsabilizou, prometeram-lhe, por fazê-la chegar ao destinatário.
Como é sabido o Pai Natal é uma figura lendária, que, por altura do Natal, traz presentes às crianças, especialmente àquelas que se portam bem. É bem conhecida a sua figura rotunda, de longa barba branca, de casacão e barrete vermelhos, muitas vezes representada num trenó puxado por renas. Como também é comumente conhecido, o Pai Natal, inspirado na lenda de São Nicolau, é uma tradição natalícia originária da Europa do Norte, de onde passou aos Estados Unidos da América e a outros países. O próprio casacão vermelho é uma invenção de marcas americanas de água mineral e de refrigerantes.
O avô da Joana ainda conheceu o tempo em que o Natal era sobretudo figurado pelo presépio, um cenário representativo do nascimento de Cristo. Era uma tradição medieval difundida na Europa, que se inculcou nos hábitos de muitas famílias portuguesas. Tinha o estábulo, a Sagrada Família, os Reis Magos, a estrela, os pastores, bem como outras figuras, mais ou menos anacrónicas, que a imaginação popular agregou à paisagem.
O próprio pai da Joana, embora o Pai Natal já tivesse entrado no hábito dos portugueses, também conheceu o presépio, que aliás, juntamente com o tio da Joana, durante anos ajudou a confeccionar. Era a altura em que se ia ao "Bosque" buscar musgo e azevinho, para o efeito. As peças do presépio, em cerâmica colorida, tinham sido compradas de propósito e serviram Dezembro após Dezembro.
Nos tempos que correm, o Pai Natal (e a Árvore de Natal) afirmou-se de forma patente. Ainda continuam a fazer-se presépios, mas, dir-se-ia, institucionalmente, pois enquanto tradição familiar praticamente extinguiu-se. No mundo global em que vivemos, a cultura dominante – anglo-saxónica, mercantilizada e imbuída da "lei" do espectáculo – impõe-se avassaladoramente, sobretudo em sociedades de pouco "músculo" cultural, como a nossa. Sob a pressão dos órgão de comunicação, em especial da televisão, e da escola, que interpretam e assumem, reverentes, os pacotes "culturais" recebidos sobretudo através dos media internacionais, em poucos anos os portugueses mudaram os seus costumes.
A hegemonia cultural – alguém já falou em "imperialismo cultural" –, sempre unidirecional, é uma forma de domínio, embora, no plano que estamos a observar, uma forma "benigna", consentida e mesmo desejada. Não é de espantar a importação de elementos culturais estranhos, pois isso sempre aconteceu; ela é, afinal, vulgar, resulte ou não da submissão de uma cultura por outra, e, ademais, é natural que uma cultura não fique imóvel no tempo, como que "fechada numa redoma".
Neste quadro percebe-se que as crianças deste País escrevam ao Pai Natal, cujo exótico imaginário de neve, trenós e renas contém apelativos elementos de um mundo de fantasia. Porém, sobretudo na escola, o fomento acrítico de "pais-natal", "halloweenes" e "sanvalentins" afigura-se contraditório com a sua missão de fomentar a capacidade de entendimento do mundo.



Outros artigos de António Martins Quaresma

COMENTÁRIOS

* O endereço de email não será publicado
00h00 - domingo, 20/08/2017
CM Sines conclui obras
no bairro 1º de Maio
Estão concluídas as obras da primeira fase da reabilitação do espaço público do Bairro 1º de Maio, na cidade de Sines, promovidas pela autarquia local e avaliadas em cerca de 158 mil euros.
00h00 - domingo, 20/08/2017
Aldeia do Pico vai ter
Centro Comunitário
A Aldeia do Pico, no concelho de Grândola, vai ter um novo Centro Comunitário, obra da Câmara Municipal da "vila morena" que está avaliada em cerca de 270 mil euros.
00h00 - sábado, 19/08/2017
STAL assina ACEEP
com CM Santiago do Cacém
A Câmara de Santiago do Cacém e o Sindicato dos Trabalhadores da Administração Local (STAL) assinaram na passada semana a alteração ao Acordo Colectivo de Entidade Empregadora Pública (ACEEP).
00h00 - sábado, 19/08/2017
Aldeia da Comporta
vai ter nova ETAR
Já foi publicado em Diário da República o concurso público da empreitada de concepção e construção da nova Estação de Tratamento de Águas Residuais (ETAR) da Comporta, o concelho de Alcácer do Sal.
00h00 - sábado, 19/08/2017
Arte urbana para
ver em Grândola
O filantropo António Inácio da Cruz, falecido em 1955, foi homenageado pela Câmara de Grândola através de uma obra de arte urbana concebida pelo conceituado Samina.

Data: 11/08/2017
Edição n.º:
Contactos - Publicidade - Estatuto Editorial