09h43 - quinta, 26/01/2017

Cristóvão Colombo


António Martins Quaresma
1. Por finais do século XV, no quadro das explorações marítimas de portugueses e espanhóis, um homem, Cristóvão Colombo, pretendeu chegar à Índia navegando para oeste. Teoricamente tinha razão: sendo a Terra redonda uma rota determinada para poente iria, mais tarde ou mais cedo, topar a Índia. O que Colombo e os Reis Católicos, a quem ele prestou o serviço, não sabiam é que existia um continente de permeio, a que viria chamar-se América. O erro de Colombo foi secundarizado pelas extraordinárias consequências futuras das suas viagens a esse novo continente, até mesmo pelo facto de aí se ter erguido a maior potência económica e militar do século XX e inícios do XXI.
Homem entre dois países que, no século XVI, disputavam a vanguarda da expansão marítima europeia – Portugal e Espanha –, a sua figura foi polémica desde o início. Polémicos também alguns dados da sua biografia, entre os quais o lugar do seu nascimento, geralmente atribuído à cidade italiana de Génova.
Hoje em dia, só na Península Ibérica, olhando ao que já foi publicado, existem, pelo menos, meia-dúzia de lugares onde Colombo (ou Colon) "nasceu". Em Espanha, há um Colombo galego, um catalão, um andaluz, um castelhano, um estremenho… Em Portugal também há Colombos para diversos gostos: em 1927, foi publicada uma obra do escritor Patrocínio Ribeiro, que defendia a tese de que Colombo nasceu em Colos, na Herdade de Columbais, nome que acusa, mas ele não reparou, traslação erudita.
Foi, porém, pela pena enérgica de Mascarenhas Barreto que a tese do Colombo português alcançou maior projecção: para este autor, Colombo definitivamente não era genovês, mas português, de Cuba, a vila alentejana onde os autarcas, tocados por esta bênção, ergueram uma estátua ao grande descobridor. Recentemente falecido, Barreto deixou continuadores.
Uma característica de todos os autores que se têm dedicado a defender a nacionalidade de Colombo: nenhum deles é historiador "de ofício". E naturalmente têm sido alvo de fortes críticas: Luís de Albuquerque, historiador da Universidade de Coimbra, e Vasco Graça Moura, escritor e intelectual de relevo, entre outros, desancaram fortemente as suas asserções.

2. Nas mãos de voluntariosos e ideologicamente muito firmes colombistas estão outras questões ligadas ao navegador. Hoje há quem meta, de novo, o concelho de Odemira "ao barulho" nesta saga. Não que suspeitem estar por aqui o sítio onde soaram os primeiros vagidos do grande nauta, pois já reservaram essa glória para a crente vila de Cuba. O que destinaram a Odemira é coisa mais comezinha, conquanto nada fácil de executar: Colombo, aliás, Colon, ao concluir à sua 2.ª viagem à América, em 1496, teria entrado com os seus navios na barra do Mira e ido, rio acima, volta após volta, até à vila de Odemira, ou, concedem, talvez ficado por Milfontes.
De facto, uma passagem do livro História del Almirante das Índias, de Fernando Colombo, seu filho, descreve uma tempestade que, segundo os pilotos, teria empurrado os navios até às latitudes da Galiza e do Canal da Mancha, cálculo contrariado pelo almirante que acreditava estarem perto do Cabo de São Vicente. Na realidade, pouco depois, "llegaron à vista de Odimira, que está entre Lisboa i el Cabo de San Vicente", mostrando como, contra a opinião dos seus pilotos, o competente Colombo estava (quase) certo. Claro que Odemira aqui significa a costa de Odemira e não a vila de Odemira, e depreender outra coisa deste episódio é pura fantasia.
Há alguns dias, na linha descobridora de Colombo, um par destes colombistas descobriu que Milfontes era um lugar excelente para, através de uma bela placa inscrita, dar a conhecer, a nativo e a turista, a entrada de Colombo no Mira, bem como os seus próprios nomes, anunciados como descobridores das origens familiares de Colombo. E quando a sua iniciativa foi escusada, por quem de direito, descobrimos que ficaram muito zangados.
No caso presente, a questão não é só, portanto, uma "interpretação" anacrónica da passagem dum livro ou uma incapacidade de ler o texto no seu contexto; a questão é a existência de uma arrogância e até uma agenda pessoal, que nada têm a ver com história.



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Data: 20/10/2017
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