18h35 - sexta, 24/03/2017

A(s) fonte(s) do rio Sado


António Martins Quaresma
Recentemente estive envolvido, com dois amigos, João Carlos Garcia e Jorge Vilhena, todos curiosos dos íntimos segredos do território transtagano, na tentativa de solução dum problema geo-hidrográfico: o local do nascimento do rio Sado. Hoje em dia o assunto não é propriamente relevante, em termos da cultura geral do cidadão, sequer das preocupações da Geografia. E, no entanto, trata-se de um persistente enigma, que nenhuma Melanie Belamie dos media lusos, tão diligentes em busca de "aves raras", buscou esclarecer. É claro que os clichés que vão na cabeça das Melanies pertencem a uma outra cultura, mais fashionable, onde este tipo de problemas não encaixa; por isso não devemos esperar muito delas, das Melanies.
Assim como, em 1856, Richard Burton e John Speke partiram em busca da fonte do rio Nilo, partimos nós, atrasados 150 anos, em demanda da do rio Sado. Não usámos canoas, nem cavalos, muito menos calcorreámos florestas e montanhas; não nos expusemos a contrair a malária, nem febre-amarela; e não nos arriscámos a ser comidos por leões esfaimados. Apenas metemos uns litros de gasóleo no Peugeot, agarrámos na máquina fotográfica e em algumas cartas geográficas, e, embalados, abalámos.
Perante um quadro pouco claro, em que a multiplicidade de ribeiras, como se fossem os 20 dedos de uma mão, confluem indistintamente para formar um rio que só engrossa, como é seu dever, para jusante de Alvalade, bem cedo a viagem se transformou numa feira de bairrismos, cada um de nós a puxar a fonte do Sado para a sua terra, ou pelo menos para próximo dela, numa atitude muito pouco científica. Já não era a motivação imperial dos exploradores de antanho, mas o comezinho e mesquinho "puxar a brasa à sua sardinha", que, vendo bem, também os imperialistas, a outra escala e com interesses mais substanciais, faziam. Procurámos, ainda, um "Dr. Livingston", que, estimulado por um "I presume", nos prestasse, com convicção, clara informação, sobre este naco de sertão, mas em vão, ou não se tratasse do velho e misterioso Sádão.
Quis a sorte que, numa paragem em Corte Malhão, houvesse tempo de saborear uma linguiça conservada em banha, com vinho tinto, de marca, pois, apesar do espírito de aventura dos participantes, alguém não se quis aventurar no da região. Esse momento foi apaziguador das acirradas posições e permitiu mesmo alguma negociação, que conduziu a um acordo provisório.
Afinal o rio Sado é um desses rios ecuménicos, em volta do qual todos se podem sentar e confraternizar, tirando, cada um conforme a sua sensibilidade, o bocado que mais aprecia. Como a linguiça em banha de porco. Se ele nasce no Vale d'Isca, ou no Monte do Cerro, ou noutro sítio qualquer, não sei, mas que o concelho de Odemira tem dele uma fatia, disso não tenho dúvidas. Quando se trata de rios, Odemira não se limita a assenhorear-se de boa parte do Mira, não se fica sequer por conter em si destilações hidronímicas (e outras), ele havia de agarrar, aproveitando a confusão, algumas das ribeiras que vão encorpar o sadino rio.



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