12h36 - quinta, 15/06/2017

Espaços


António Martins Quaresma
É um exercício aliciante a descoberta da evolução de um determinado espaço, urbano ou não, com utilização de fotografia antiga. Vou fazê-lo, sumariamente, em relação ao Rossio, de Vila Nova de Milfontes.
Como todos os rossios, o de Milfontes começou por ser uma área de transição entre o espaço urbano e o rural. Absorvido pelo crescimento da vila, já na segunda metade do século XIX, tornou-se um dos largos desta, retendo da antiga função o nome de Rossio. Na década de 1930 batizaram-no de Largo Marechal Carmona, mas o nome original, que nunca desaparecera entre os moradores, foi recuperado depois de 1974.
No início do século XX, a inclusão no tecido urbano estava concluída, mas o Rossio ainda era periférico, em termos espaciais e funcionais. Na fotografia da fig. 1, tirada há mais de 100 anos, vê-se um espaço aberto ladeado de casas térreas, mas de presença desigual, mostrando uma certa hierarquia, verificável na fenestração, na existência, ou não, de porta de serviço, na composição das cimalhas, na própria altura. Ao fundo, em frente, uma pequena casa térrea, que seria substituída por uma de 1.º andar, por volta de 1940, onde se instalaria a estação do correio, que antes tinha funcionado noutras ruas da vila.
O piso não é calcetado, tendo apenas estreitos passeios empedrados rente às casas, passeios cuja utilidade incluía a protecção das paredes, parte delas de taipa, contra o efeito da água da chuva que escorria dos telhados. Ao fundo do lado esquerdo, vê-se o bocal de um poço, contruído algumas dezenas de anos antes, ainda no século XIX. Fornecia água para animais e para lavagens, mas não para beber. Para este fim, existiam outros poços em largos da vila e até em quintais de moradores: um deles encontrava-se atrás do fotógrafo, na outra extremidade do Rossio. De resto, repare-se em alguns pormenores, como as chaminés.
Como ainda não tinha adquirido a centralidade, que viria a ter depois, no interior da vila, mas possuindo largueza suficiente, ali se realizavam algumas actividades, como, por vezes, as populares touradas, de que também existem imagens fotográficas.
Na década de 1940, o Rossio converteu-se no principal centro da vida da vila: o piso foi calcetado (Fig. 2) e recebeu alguns serviços e equipamentos, vindos de outros lugares da vila, como o correio e o mercado (Fig. 3, de cerca de 1960), este proveniente da antiga Praça, perto do castelo. Com o início de abastecimento de água à vila, em 1952, foi dotado de um chafariz em marmorite, com duas torneiras, colocado sobre a placa de betão armado que cobriu o poço. A Casa do Povo, com o seu posto médico e até com um posto de Registo Civil, também veio para o Rossio (no lugar, onde é hoje o edifício da Junta de Freguesia). Três estabelecimentos comerciais, o Talho Cabecinha, a venda do Tónica Cabecinha e uma padaria, contribuíam para o seu movimento.
Nas décadas de 1970 e 1980, anos de crescimento da vila, embora tivesse acolhido as instalações da Junta de Freguesia, o Rossio perdeu o correio, o mercado, a Casa do Povo, além das casas comerciais antes indicadas; a própria organização do espaço quedou-se algo indefinida, entre "largo" e "rua". Ganhou, é verdade, alguns novos estabelecimentos de cafeteria e restauração.
Com os trabalhos de requalificação urbana (Polis), em curso, o Rossio foi intervencionado, com claras vantagens relativamente à situação anterior. Além disso, a recente aquisição de cercas na área do Poço Novo, pela Câmara Municipal, destinadas, nomeadamente, a resolver problemas de estacionamento, irá gerar um novo acesso quase directo ao Rossio e à baixa da vila, criando ainda uma alternativa, bem pensada, de ligação rápida a esta parte de Milfontes.



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