16h32 - quinta, 16/11/2017

Grande Maurício


António Martins Quaresma
O recente falecimento de Joaquim Maurício da Conceição Rosa, que, entre outras coisas, foi presidente da Junta de Freguesia de Vale de Santiago, é um marco no decurso do desaparecimento de uma geração que, no concelho de Odemira, interpretou a passagem para a Democracia, sequente à queda do regime salazarista.
Era um homem de bom trato, com quem mantive longas conversas e com quem aprendi muito, em especial sobre a realidade rural do interior do concelho. Posso dizer que entre nós se desenvolveu uma boa amizade.
Realizou trabalho político, enquanto presidente de uma das freguesias do concelho, Vale de Santiago, onde ainda persistia a memória de antigas lutas pelo direito ao pão e de uma experiência de comunidade anarquista. Sempre achei admirável que ele, empenhado na Reforma Agrária, mantivesse boas relações com a família Brito Pais, proprietária fundiária, atingida pelas expropriações. A política, para ele, era uma questão de princípios e não de guerrilhas pessoais.
Não consigo deixar de comparar o que se vê nas várias escalas da acção política com o que acabei de escrever. Quando, no plano nacional, partidos políticos (ou pessoas de partidos políticos) utilizam acontecimentos dramáticos, como os incêndios ou as epidemias, para um repugnante jogo partidário, com a colaboração de media de serviço, emergem figuras genuínas, como o Joaquim Maurício, aliás apenas conhecidas à escala local. Efectivamente, o que é passível de divulgação, mormente pela grande comunicação social, nunca é genuíno; é sempre produzido e artificial.
Para aligeirar o discurso, duas histórias familiares, que ele me contou, decerto recebidas de seu pai (que ainda conheci), um homem com preocupações literárias. Uma delas refere-se à peça de teatro "Triste Viuvinha", de D. João da Câmara, editada pela primeira vez em 1897, muito popular no início do século XX. Ela trata de uma jovem viúva, que se sacrifica em nome da memória do falecido marido. Segundo Joaquim Maurício, o autor da obra, engenheiro dos caminhos de ferro, ter-se-ia inspirado na história pessoal de seus avós, ouvida quando trabalhava na construção da linha férrea que passava pela região, e a "viuvinha" seria, afinal, a sua avó Rosa, naturalmente retratada, por D. João da Câmara, com liberdade de ficcionista.
Outra história que ele gostava de contar tinha como protagonista o seu avô, Jacinto Pereira Rosa, fervoroso republicano, que ajudado por um maquinista dos comboios, decidiu, após a implantação da República, picar a pedra de armas existente na frontaria do edifício da antiga Câmara de Garvão (então escola), por a considerar incompatível com a nova situação política. Criticado pelo governador civil de Beja, do Partido Unionista, que o admoestou por ele ter destruído uma obra tão antiga, o avô do Maurício respondeu que também a monarquia era antiga e tinha sido, muito felizmente, deitada abaixo. Face à lógica da resposta, o governador civil embatocou. Hoje, continuamos a ver a pedra de armas picada, na parede da Junta de Freguesia de Garvão, e lamentamos um pouco o seu arrebatamento, próprio dos tempos que então corriam.
Joaquim Maurício deixou-nos. No fundo, foi um pedaço da vida de todos nós, os que éramos seus amigos, que se extinguiu.



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