12h53 - quarta, 28/03/2018

As elites


António Martins Quaresma
Há alguns dias, na visita guiada efectuada ao moinho de vento dos Moinhos Juntos, em Odemira, foi citado um pormenor da sua história, referente à segunda metade do século XIX, altura em que pertencia à Albergaria da Barca, instituição local que detinha a administração da barca da passagem do rio. Comparou-se um período em que era foreiro o próprio moleiro e outro em que o foreiro era um notável desta vila, verificando-se que, no primeiro caso, o foro foi sempre pago a tempo e horas, enquanto no segundo a dívida se acumulou durante anos sem nunca ser paga.
Diversos exemplos de história local mostram membros das elites económico-sociais, em diversas situações, ostentando comportamentos eticamente criticáveis. Dir-se-ia que os hábitos comportamentais vigentes entre as elites, ou parte delas, se inseriam numa "cultura" de desigualdade, em que uma noção de superioridade e de impunidade favorecia os desmandos. Nesta perspectiva, alguém socialmente relevante não tinha rebuço em cometer actos ilegítimos, o que era mais arriscado para quem não possuía o mesmo estatuto social.
A posição social, normalmente ligada à riqueza, mas também a outros factores aleatórios e especiosos, como a "pureza de sangue" (não ter sangue judeu, negro ou mouro), conduzia, no Antigo Regime (grosso modo, o período que abrange os séculos XVI a XVIII), a cargos onde o exercício do poder lhes era conferido. Dizia um antigo provérbio alentejano, citado pelo historiador inglês Charles Boxer: "Quem não está na câmara está na misericórdia", elencando os principais espaços de poder destas elites provinciais. Poder que, exercido em nome de nobres causas, se convertia, muitas vezes, em forma de apropriação ilícita de bens e direitos
Deixando o registo histórico, verificamos que nos nossos dias, tempo de Facebook e de outras formas de, desenfreadamente, publicar opinião, é usual o discurso acusador contra os "políticos", tidos por corruptos, a propósito e a despropósito. Suspeito, porém, que muitos desses denunciantes é gente pouco fiável, e eu não gostaria de os ver em lugares públicos de decisão; aliás, afirmar que todos os políticos são corruptos é a melhor forma de encobrir os que verdadeiramente o são.
Tenho presente o caso de um dirigente de uma instituição, cujos dividendos são, por determinação estatutária, regularmente distribuídos, sob a forma de subvenções, o qual manobra os fundos a seu bel-prazer, segundo critérios de amiguismo e outros bem mais sinuosos. Esta manifestação de escassa estatura ética e de provincianismo pacóvio passa geralmente incólume a acusações, pelo menos públicas, quer porque as coisas decorrem na esfera privada, quer porque, em todo o caso, há distribuição, frequentemente estratégica.
O exercício discricionário do poder é susceptível de ocorrer em qualquer lugar ou circunstância, mas pode não ser possível, ou cómodo, a quem conhece os factos, vir a terreiro "chamar os bois pelos nomes". O que não é admissível é generalizar a um grupo os pecados de um dos seus membros, porque a regra mais adequada só pode ser a de que nem sempre "a ocasião faz o ladrão".



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