16h46 - quinta, 10/05/2018

La Lys


António Martins Quaresma
Passado, em 9 de Abril, um século sobre a batalha de La Lys, esta foi amplamente lembrada em Portugal: o próprio Presidente da República português deslocou-se, com o Presidente francês, ao cemitério de Richebourg, para homenagear os soldados portugueses mortos.
Vou falar um pouco sobre o assunto, não enquanto "professor e historiador", como sou apresentado nestas crónicas, mas como simples observador, com idade para ter frequentado uma escola em que a batalha de La Lys, um completofracasso militar, era mitificada como um eloquente momento de sacrifício e heroísmo do soldado português. Além disso, em criança, ouvi alguns relatos do meu avô materno (através de minha avó, pois o meu avô morreu cedo), que foi, em 1915, mobilizado para África, onde já decorriam confrontos com os alemães, e mal regressou, embarcou, em Agosto de 1917, para a França, onde a guerra se feria, violenta, entre os principais exércitos europeus e se preparava a entrada dos Estados Unidos.
Como a maioria dos soldados portugueses, a sua motivação para combater numa guerra que não entendia era nula. Ao que parece, a primeira coisa que fez, ao chegar a França, foi procurar escapar a ser enviado para a frente. Prática comum. Escapar e voltar para a vida que deixara em Portugal era o seu único objectivo. No fundo, ele integrava um corpo expedicionário desmotivado, mal treinado e frequentemente mal comandado, sem a mínima possibilidade de se poder bater com uma tropa moderna e altamente eficaz como a alemã.
Em todas as guerras, os países precisam dos seus heróis. Em Portugal, o grande herói da I Guerra Mundial, e concretamente da batalha de La Lys, foi o conhecido soldado "Milhões", que recebeu a maior condecoração nacional, a Ordem Militar da Torre e Espada. Numa entrevista ao velho herói (disponível na Internet, em: https://www.youtube.com/watch?v=NLapXBWGUKw), "Milhões" menciona um curioso episódio em que soldados alemães atacam vestidos com fardas portuguesas, facto completamente inusual e verdadeiramente inadmissível, decerto fruto da sua imaginação no alucinante e caótico ambiente do campo de batalha. Não admiraria que o nosso herói tivesse acabado por fazer algum do trabalho dos alemães, isto é, tivesse disparado a metralhadora sobre os próprios compatriotas, num exemplo de "fogo amigo" de que hoje, por vezes, se fala.
Estreou há dias, nos cinemas, um filme com o título "Soldado Milhões", de Gonçalo Galvão Teles e Jorge Paixão da Costa, que não vi, mas, dizem-me, trata essa dualidade do homem comum que as circunstâncias, militares e políticas, transformam em herói oficial. Porém, tratando-se de ficção histórica, possivelmente não abre uma janela nova para a compreensão deste período da história portuguesa e europeia.
Alguma produção historiográfica recente sobre a presença de Portugal na I Guerra Mundial, tema persistente no imaginário português, tem permitido um maior conhecimento sobre as questões militares, económicas e sociais, entre outras, que envolveram essa participação no conflito, ultrapassando-se a fase da mitificação e da utilização nacionalista. Conhecimento que é, afinal,o único caminho para se entender não só essa participação, mas ainda muito do que Portugal então era (e ainda é?).



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