16h35 - quinta, 05/07/2018

A praia e o lazer


António Martins Quaresma
"A certa altura do ano, começava o mês de Agosto. E pronto: assistia-se a uma mudança do sentimento geral [...] A população só desejava ir-se embora quanto antes: e assim, à força de encher comboios e de engarrafar auto-estradas, pelo dia 15 todos tinham partido. Excepto um. Marcovaldo era o único habitante a não deixar a cidade."

Italo Calvino, "Marcovaldo", 1963

A imagem da cidade que, no Verão, se esvazia de habitantes que partem para férias é muito do século XX, mais concretamente do período pós-guerra. A extraordinária migração sazonal de gente em busca de destinos turísticos da moda faz parte parte das sociedades hodiernas, mas este é um fenómeno recente na sua história. Efectivamente, o mar, principal objecto dessa demanda, foi, com os seus perigos e fastasmas, para gerações passadas, um "topos do medo".
É verdade que os "banhos santos", em especial o "banho do 29", a 29 de Agosto, dia do martírio de São João Baptista (o santo associado ao valor purificador das águas), traziam, anualmente, os camponeses ao litoral, frequentemente com os seus rebanhos. Mas tratava-se de uma celebração cristã, uma remota e indefinida noção de sacralidade da água do mar, uma crença no valor profilático desta, estendido a pessoas e animais, que se concretizava num momento festivo e libertador, algo orgíaco, finalizado com um banho ritual.
Ainda na primeira metade do século XX, a praia associou-se à regeneração periódica do corpo e do espírito, à libertação da densidade e da positividade do quotidiano, aos rituais em volta do corpo. Depois da II Guerra, a frequência da praia alargou-se socialmente, numa população cada vez mais urbana e num quadro de progressiva industrialização e terciarização da sociedade e do tecido económico, em que o direito a férias pagas se difundiu. A periódica migração turística, baseada no pressuposto do direito ao lazer, mitificada por uma cultura de consumo e favorecida pela revolução nos transportes, converteu-se em necessidade que, crê-se, permite contrabalançar o stresse do quotidiano.
No dealbar do século XXI, as mudanças verificadas à escala global conduziram a um novo paradigma do lazer. Ele não eliminou o reconhecimento social dos seus benefícios na saúde e no bem-estar, mas aliou-os a outras lógicas consumistas e estéticas.
O anterior paradigma do lazer, enquanto tempo socialmente autónomo, com finalidade própria e eminentemente funcional, cede perante um novo modelo em que se assume como um "tempo central, integrado, híbrido e simbólico". Afirma-se, pois, como um tempo singular e essencialmente estruturante da vida social.
O impacto das grandes transformações verificadas na sociedade portuguesa, nas últimas três décadas do século XX, atingiu o Litoral Alentejano, de forma avassaladora. Em 2007, o Plano Estratégico Nacional de Turismo citava o Pólo do Litoral Alentejano como um dos novos destinos de alta qualidade: as suas praias, exaltadas pelos media, a paisagem, os valores naturais e culturais, tudo contribui para essa valorização. E se a crise económica e os novos hábitos de viver o lazer introduziram alterações de forma, isso não modificou a posição do Litoral Alentejano no quadro do turismo nacional.

Bibliografia:
CORBIN, Alain. "Le Territoire du Vide. L' Occident el le desir du rivage (1750-1840)". Paris: Flammarion, 2010.
RAUCH, André. "Les vacances et la nature revisitée (1830-1939)". In Alain CORBIN. "L'Avènement des loisirs 1850-1960". Paris: Aubier, 1995.
ROJEK, Chris. "Leisure Theory: Principles and Practice". Nova Iorque: Palgrave – Macmillan, 2005.



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