16h19 - quinta, 15/11/2018

Da toponímia urbana e da fatuidade humana


António Martins Quaresma
1. Há uns anos, quando o Município de Odemira decidiu organizar a nomenclatura das artérias urbanas, a Assembleia de Freguesia de Milfontes pediu-me que integrasse a "comissão de toponímia" desta freguesia. Dela faziam ainda parte o presidente da Junta de Freguesia e um deputado da mesma Assembleia. Juntou-se, mais, um segundo membro da Assembleia, pelo que a comissão ficou constituída por quatro pessoas. O trabalho, elaborado com base num regulamento, está, há muito, concluído, faltando apenas os números "de polícia", para acabar com a anterior confusão. Por isso, e por outras razões, terminei a minha (co)missão toponímica. Na despedida, tenho de reconhecer que fiquei a conhecer melhor o mundo, ou, pelo menos, a Milfontes versão século XXI. Levo dois casos ao conhecimento do leitor, um com certa graça, o outro sem graça nenhuma.

2. Alguns dos nomes foram propostos pelos habitantes, antes e durante o trabalho da comissão, que geralmente os acolheu. Foi o caso da rua onde moro, que passou a chamar-se Beco de Santo António, não por lá morar qualquer António, como alguns vivaços, daqueles a quem ninguém engana, julgarão, mas porque um residente, que se chama Fernando (como o de Bulhões), devoto deste santo, assim propôs à comissão. Os becos contíguos acabaram por levar os nomes dos restantes "santos solsticiais".
O mesmo morador já tinha colocado um painel de azulejos alusivo, na parede junto à entrada de sua casa, (assinado por F.la Sant'Ana, Xénia, em Lisboa, com data de 1993), onde presta homenagem ao santo que, em variante belicosa, faz tremer o demónio. Declama, em versos de fino recorte literário, de grande densidade poética, de ardente nacionalismo e de rigoroso cálculo matemático – tudo isto numa simples quadra: "Por duas razões ou três / Treme de vós o demónio / Por serdes Português / E porque sois Santo António".

3. Um caso especial fez atrasar o processo. Residentes de um bairro opuseram-se, frontalmente, a nomes propostos pela comissão de toponímia para algumas das ruas. Tratava-se, na falta de denominação tradicional, de nomes de países de língua portuguesa, que os críticos repudiaram, com apurados fundamentos, nomeadamente: "porque não estamos em África" e "porque não é um bairro de lata". Aceitavam nomes como "Alemanha", mas nunca "Angola" ou "Cabo Verde". Entende-se: é muito mais requintado e compatível com a craveira – social e, certamente, étnica – de alguns dos residentes do distinto aglomerado urbano.
Dizem-me que, à última hora, o poder autárquico cedeu, o que só lhe fica bem, e houve a feliz decisão de atribuir nomes de escritores a essas bonitas artérias, de acordo, decerto, com a erudição dos inconformados, cada um deles, presumo, autêntico devorador de bibliotecas de Alexandria.
É verdade que os residentes de ruas com os mesmos nomes, em aldeolas como Beja, Lisboa e Gaia (entre outras), não viram nisto qualquer óbice, mas só pode ter sido porque além de lhes faltar subtileza, são de estirpe pouco apurada.



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