11h41 - sexta, 15/02/2019

"Rio Mira vai cheio" (II)


António Martins Quaresma
Engrossado por alguns barrancos e ribeiras, como a de Guilherme, que vem dos lados de Santana da Serra, o rio Mira entra no concelho de Odemira para logo ser represado, um pouco a montante da aldeia de Santa Clara-a-Velha, por uma barragem construída há 50 anos (foi inaugurada em 11 de Maio de 1969).
A edificação da barragem de Santa Clara fez parte de um ambicioso programa de hidráulica agrícola, com origem nos pressupostos de uma corrente, que já foi designada por "neofisiocrata", chegada ao poder durante o Estado Novo, programa concretizado por uma elite de técnicos disponível. Embora desse continuidade à doutrina de autarcia então vigente, este programa procurou superar uma primeira fase de protecção à agricultura trigueira, cujo epítome foi a campanha do trigo de 1929-1934, e conviveu com um novo conceito, de desenvolvimento industrial, de que era considerada subsidiária. Incluída no Plano de Rega do Alentejo de 1957 (era então director-geral dos Serviços Hidráulicos o eng.º Manuel Rafael Amaro da Costa, natural do concelho de Odemira), foi concretizada durante o II Plano de Fomento, numa fase tardia, em que a economia começava a trilhar novos caminhos (III e IV Planos de Fomento).
Num ambiente político eivado do "culto da personalidade", a barragem foi baptizada inicialmente com o nome do então presidente do conselho de ministros, Marcelo Caetano, e ornada com uma citação reverencial de Salazar, inscrita na pedra de um padrão alusivo.
Obra de grande envergadura, o sistema de rega do Mira, que inclui a barragem e a rede de distribuição da água, é hoje, mais provavelmente do que à época da construção, uma infra-estrutura de grande valor, enquanto reserva estratégica de água disponível. Conduzida, por gravidade, em direcção ao litoral, como um segundo rio Mira, a sua água vai irrigar as actuais explorações agrícolas da "Charneca", e, cada vez mais, é utilizada no abastecimento urbano. A administração do projecto está cometida à Associação dos Beneficiários do Mira, que também tem a seu cargo a pequena barragem de Corte Brique.
Numa área economicamente deprimida e abandonada pela antiga população rural (v. a povoação de Montalto), a barragem suscita esperanças de se constituir em pólo de desenvolvimento turístico da área onde se implanta. Essa valência foi, desde o início, contemplada com uma unidade hoteleira, da rede nacional de pousadas, e hoje é representada por mais algumas unidades. O certo é que o grande lago artificial, com bom potencial para o lazer, atrai visitantes e praticantes de actividades desportivas.
Retomando o curso do Mira, debilitado pelo represamento, observam-se, entre a barragem e a aldeia, as ruínas de uma ponte oitocentista (ca. 1820), de fina alvenaria em arenito avermelhado da zona de Silves, cujos pilares os repentes mediterrânicos do Mira torceram até ao final desmoronamento. Fez parte de um esforço, iniciado ainda no século XVIII, de melhorar as vias de comunicação. Foi, em 2004, objecto de uma intervenção pelo IPPAR.
A seguir, surge o casario de Santa Clara, povoação que a barragem libertou das temíveis cheias de antigamente, enfim, quase pois, em alturas de fortes precipitações, como em 1997, o próprio barranco do Calvário ou dos Martunhos, que corre perto da frontaria da igreja, pode originar inundações.
Nas proximidades de Sabóia, aldeia que lhe fica na margem esquerda, a cerca de 1,5 Km, afluem diversas ribeiras, como as de Telhares e Tramagueira (geologicamente, um fosso pertencente a um alinhamento de graben) e a de Luzianes. O topónimo Sabóia, que uma narrativa fantasiosa procurou explicar com a presença de um colono proveniente da Saboia alpina, relaciona-se, presumivelmente, com a realidade aquática, entroncando em antigo substracto linguístico. No sítio da Foz de Sabóia, onde o ribeiro do Ameixial se junta ao Mira, sucedem acontecimentos lendários, como o do "cágado de ouro", que, um pouco como a mitológica barca de Caronte, transportava passageiros, afogando os que não tivessem o coração puro.
Até às proximidades da vila de Odemira, o rio Mira é geralmente designado por ribeira de Odemira ou ribeira de Mira. É o Mira doce. Ele meandra entre cerros, recebendo as águas de uma rede de pequenos afluentes. Em algumas herdades ribeirinhas a anterior cultura de cereais foi substituída por novos usos.
Em parte deste troço, pouco depois da aldeia de Sabóia até próximo de Portela da Fonte Santa, a estrada para Boavista dos Pinheiros corre paralelamente, e o automobilista pode observar o alinhamento verde da galeria ripícola que marca o seu curso. Na margem contrária, a direita, ainda é notado um velho caminho – a antiga estrada de Odemira a Sabóia – com as suas passagens a vau, pois discorria numa margem ou na outra, conforme mais se adequava.
Quase à chegada à vila de Odemira, o regime hidrológico do Mira muda. Na cercania da herdade de Saquenibaque, onde existe, hoje, uma empresa de turismo hípico, a influência das marés começa a fazer-se sentir. Um pouco mais a jusante, um antigo vau, o Porto Molho, perto da foz da ribeira da Tamanqueira, era usado em baixa-mar para passagem de carretas, muitas delas com cargas destinadas a embarque no Porto do Peguinho. Por ele, em 1573, atravessou, com água pela barriga da montada, o rei D. Sebastião, na altura em viagem pelo Sul.
No próximo texto, será tratado o "rio mestre de água salgada", que, de Odemira a Milfontes, se contorce entre cerros e sapais.



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