12h29 - quinta, 23/05/2019

O nosso património


Fernando Almeida
O termo "património" provém do latim, de patrimon um, e refere-se ao conjunto de bens que pertencem a uma pessoa, instituição, região, ou mesmo a toda a humanidade. Assim, quando se fala de património tanto se pode estar a falar dos bens de uma pessoa singular, como das características culturais de uma comunidade. Pode também falar-se de diversos tipos de património, no que toca às suas características: pode falar-se de património natural, cultural, edificado, musical, etc., etc....
Como é sabido há hoje uma preocupação cada vez maior com a defesa do património no geral, e com proteção do património natural em particular. Por isso se desenvolveu legislação a nível mundial (acordos sobre alterações climáticas, oceanos, etc.) a nível europeu (variadas diretivas ambientais, Rede Natura 2000, etc.) e nacional (toda a legislação de ordenamento do território e proteção dos recursos naturais), que visa a proteção do ambiente em que vivemos.
Para além de todas as políticas e atividades de proteção da natureza que existem para a generalidade do país, existem ainda espaços com um estatuto especial onde esse cuidado deve ser ainda mais significativo: são as "áreas protegidas". As nossas áreas protegidas são espaços diferenciados que desempenham um papel muito importante no processo mais geral de proteção da natureza. Podem ser de vários tipos e desempenham também funções diferentes. Contudo não se deve pensar que a proteção destes pedaços do nosso território dispensa os cuidados que temos que ter com cada palmo do nosso país…
A nível nacional e mundial, cada vez mais a qualidade do ambiente é valorizada. Se é verdade que o crescimento da economia vai continuando a marcar a agenda da política e da comunicação social, não é menos verdade que a proteção do ambiente, a qualidade de vida das pessoas e temas como as alterações climáticas, a perda de biodiversidade, os plásticos, ou os oceanos, vão tendo espaço crescente nas preocupações das sociedades modernas. E a busca de um ambiente saudável e equilibrado começa também a pesar nas escolhas que os europeus fazem. A esse respeito basta ver a quantidade de pessoas que têm vindo residir em Portugal em busca de um ambiente melhor, e também dos turistas que nos visitam em boa parte para poder usufruir e conhecer essa mesma realidade.
Também a qualidade do ambiente de uma região ou país, ou pelo menos a imagem que ela tem aos olhos dos estrangeiros, valoriza outros produtos de exportação: se uma região é vista como poluída e ambientalmente degradada, os seus produtos (particularmente os que vêm da agricultura) são desvalorizados. O oposto acontece com as áreas que têm um bom ambiente e uma imagem de pureza ambiental. Em parte o sucesso recente da nossa agricultura nos mercados internacionais prende-se com esta realidade.
Muito mais importante que a forma como os outros nos vêm, o que pensam de nós, ou como valorizam os nossos produtos, é a qualidade de vida que um bom ambiente nos proporciona. Um ambiente degradado, com atmosfera poluída, com águas contaminadas, com desequilíbrios na vida selvagem, não gera saúde e bem-estar nos residentes, criando pelo contrário doenças e distúrbios físicos e psicológicos de vária ordem, e isso é suficiente para que tenhamos a obrigação de cuidar da natureza como a nossa casa que realmente é. É por isso bom que haja o cuidado de compatibilizar o desenvolvimento das atividades económicas em geral e da agricultura em particular, que queremos bem-sucedida e próspera, com a qualidade do ambiente, que queremos que se não degrade.
Talvez seja por se ter cada vez mais consciência da necessidade de criar riqueza mas não descurar a proteção da natureza, que hoje é a própria sociedade civil que vai tomando em mãos a responsabilidade de proteger a Terra em que vivemos, e sucedem-se a ações de limpeza de praias, de plantação de árvores, etc.. Afinal os graves problemas de ambiente que temos que enfrentar não se resolvem sem a colaboração de todos, e por isso todas as ajudas contam.
Nesta nova e imprescindível mudança de comportamento face à degradação do ambiente encontram-se também atitudes mais inteligentes, em que o litígio e a competição vão dando lugar à cooperação e entendimento. A tarefa de recuperar o que se tem vindo a estragar no planeta é colossal e ao lado de instituições públicas e dos cidadãos individuais, podemos ver associações e empresas. Afinal, mesmo assim, todos juntos, não seremos demais.
Há uma última, mas não menor chamada de atenção que se deve fazer sobre esta matéria: a natureza, a Terra em que vivemos, foi-nos deixada pelos nossos avós para que aqui possamos viver com qualidade, ser felizes, e eventualmente ter os nossos próprios filhos e netos. Por isso, de algum modo podemos ver a nossa Terra como um espaço que herdamos, que nos pertence por direito, e com o qual podemos fazer o que bem nos apetecer. Penso que pelo contrário a terra que pisamos, a região ou o país em que habitamos, ou mesmo a Terra em que vivemos, deve ser sobretudo vista como algo que nos foi emprestado pelos nossos netos, algo que não é nosso, mas que apenas podemos usar sem destruir, garantindo sempre a sua sustentabilidade e que temos a obrigação de a deixar aos nossos descendentes pelo menos em tão bom estado como a recebemos dos nossos antepassados. Será que estamos a conseguir isso?

O autor utiliza o
Novo Acordo Ortográfico



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