12h31 - quinta, 04/07/2019

Memórias da Restauração


António Martins Quaresma
Em 1 de Dezembro de 1640, na sequência de tumultos populares (1637-39), em várias cidades e vilas portuguesas, deu-se a revolta de parte da nobreza de Portugal, que visava recuperar a independência do reino, face a Espanha. A estes acontecimentos não foi alheia a crise, nomeadamente económica, por que passava o império. Outros domínios espanhóis, como a Catalunha e os Países Baixos, conheciam também, então, revoltas e instabilidade. A ruptura com a dinastia dos Habsburgo espanhóis, em 1640, conduziu a uma guerra, entre Portugal e Espanha, que durou até 1668, ano em que, com a mediação do rei de Inglaterra, se fez a paz.
As novas autoridades portuguesas levaram a cabo um vasto programa para consolidar a independência, em que se incluía a defesa da fronteira, com uma sólida linha de fortificações abaluartadas, e uma vasta acção diplomática que intentava o reconhecimento internacional da nova dinastia.
Para a aceitação papal do "Portugal restaurado" (1), o rei D. João IV enviou a Roma um embaixador extraordinário, D. Miguel de Portugal, bispo de Lamego, nascido em Évora, cidade onde foi inquisidor, que era homem de cerca de 40 anos de idade.
Na cidade pontifícia, encontrou alguns aliados, como o embaixador de França (este país também se opunha aos Habsburgos), mas igualmente adversários, sobretudo porque Espanha tinha grande influência, reforçada pelo domínio espanhol sobre o vizinho Reino de Nápoles, que ocupava todo o Sul da Itália.
D. Miguel chegou a Roma, em finais de Outubro de 1641. Na mesma altura, Espanha enviou também um embaixador extraordinário, o Marquês de Los Vélez. E logo se iniciou uma série de intrigas e provocações, que levaram o embaixador espanhol, crente na superioridade das forças de que dispunha, a procurar prender ou mesmo matar o embaixador português, buscando uma ocasião para o efeito.
Em 20 de Agosto de 1642, estando o embaixador português de visita ao embaixador de França, um espião trouxe a notícia de que o marquês de Los Vélez tinha aprontado carruagens e gente de armas, para tentar fazer-lhe uma espera.
Em resposta, D. Miguel preparou-se para a refrega, não obstante o embaixador de França tentar dissuadi-lo, pela grande desproporção de forças. Teimando D. Miguel, o embaixador francês cedeu-lhes homens da sua Casa, que, com mais alguns portugueses e catalães que se lhe juntaram, faziam o número de 60.
Encontraram-se os dois grupos numa curva da Rua de Santa Maria In Via. Gritam os espanhóis que os portugueses fizessem alto. Respondem estes que fizessem alto os espanhóis. E, prontamente, saltam todos das carruagens, armados de clavinas e pistolas, abrindo fogo, de que caem logo mortos, quatro, do lado português e oito, da parte espanhola, além de muitos feridos. Descarregadas as armas de fogo, passam às espadas.
Surpreendidos pelo ímpeto de portugueses e franceses, os espanhóis dispersam. O próprio embaixador de Los Vélez esgueira-se pela parte de baixo da carruagem, perdido o chapéu e de capa descomposta, refugiando-se na loja de um tintureiro, e passando daí à casa do cardeal Albornoz. Entretanto, D. Miguel, de clavina em punho, saltara também da sua "carroça" e encorajava os seus homens. A estampa francesa desse acontecimento mostra-o de espada, e não de clavina, na mão (letra E).
O acontecimento causou grande alarme na cidade, tendo, o cardeal D. António Barberini, carmelengo da Santa Sé, saltado para o cavalo e distribuído homens de armas do Estado pontifício pelas diversas ruas da cidade, para evitarem mais confrontos. Entretanto, foram retirados mortos e feridos do local da confrontação, mas a carruagem do embaixador de Espanha, despedaçada, ficou dois dias sem que ninguém a viesse buscar.
De cabeça perdida, o embaixador espanhol sai de Roma. Mas o português, apesar de ter ficado na cidade mais alguns meses, não conseguiria uma audiência com o Papa. Este incidente anunciou, dir-se-ia alegoricamente, que a guerra tomaria, mais do que a diplomacia, um papel decisivo na contenda que opôs as duas nações ibéricas.

(1) Título da obra do Conde da Ericeira, de onde foi extraído o relato aqui exposto



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Data: 03/07/2020
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