16h48 - quinta, 05/09/2019

A data da fundação da Misericórdia de Odemira


António Martins Quaresma
Está a Santa Casa da Misericórdia de Odemira, importante instituição de solidariedade social do concelho de Odemira, a celebrar o 450.º aniversário, enquanto, de alguma forma, herdeira da antiga organização com o mesmo nome, fundada no século XVI. Nas contas de quem decidiu, a antiga Misericórdia foi fundada em 1569, data extraída, conforme informação do provedor, de um livro existente no seu arquivo histórico, concretamente o primeiro Livro de Eleiçoins.
A data de 1569 figura, efectivamente, na encadernação do livro, mas – muito importante – há que ler e analisar o que este contém e não apenas o que está na capa. Na realidade, a irmandade instituiu-se, como expressamente vem referido no dito livro, no dia 15 de Agosto de 1570, data em que, também, está lançado o primeiro assento.
Portanto, a data do início efectivo da Misericórdia é o dia de Santa Maria, ou Santa Maria de Agosto, de 1570. O momento foi solene e contou com a presença do próprio conde de Odemira, D. Sancho de Noronha, que foi seu primeiro irmão e uma espécie de primeiro provedor "honorário", personalidade que, poucos anos depois, pereceria em Alcácer Quibir, com o rei D. Sebastião.
É possível que 1569 tenha sido o ano em que se desenrolou a fase final do processo da sua constituição. Aliás, a irmandade já havia sido "pensada" alguns anos antes, pelo que se depreende do registo da aquisição, em 1557, de umas casas para aí se edi?car a respectiva sede. Mas, nem em 1557, nem em 1569, a Misericórdia foi erigida.
Teria sido mais proveitoso se os decisores da comemoração tivessem consultado, por exemplo, o volume IV de Portugaliae Monumenta Misericordiarum (2005, p. 303), um dos volumes da grande obra sobre misericórdias, da autoria de José Pedro Paiva e Ana Barreto Xavier, produzida pelo Centro de Estudos de História Religiosa, da Universidade Católica Portuguesa, e publicada pela União das Misericórdias Portuguesas.
Acrescente-se, entre parênteses, que o pequeno arquivo histórico da Misericórdia, além da preciosa informação que permite obter, possui alguns livros encadernados com folhas de pergaminho reaproveitadas, que ostentam, também elas, imagens de valor histórico e artístico.
A Misericórdia de Odemira foi criada tardiamente, no quadro do movimento fundacional destas instituições, em Portugal, surgindo já com as conclusões do concílio de Trento em vigor, ou seja, o Portugal da Contra-Reforma, que influenciou grandemente as misericórdias nos aspectos sociais e religiosos.
Embora sendo associações de leigos, sob protecção régia, as misericórdias ligavam-se intimamente à Igreja Católica, até porque, nesse tempo, era inconcebível a existência de qualquer agremiação sem dimensão religiosa que obviamente só podia ser a preconizada pela Igreja de Roma.
Nos primeiros anos funcionou nas instalações da Confraria do Espírito Santo (capela e hospital), no Castelo, confraria de origem medieval que assimilou, até que a sua nova "casa", isto é, a igreja, teve condições de a receber, em 1576.
Uma nota ainda, talvez exemplar, que se destina muito menos a falar de mim e muito mais das pequenas histórias que geralmente ficam em silêncio. O citado livro de "eleiçoins" é o documento mais antigo, dos existentes no arquivo da Misericórdia e conheceu nas últimas décadas algumas vicissitudes. Em 1990, tive conhecimento que um antigo provedor guardara no seu "monte" alguns dos livros da Santa Casa, ao contrário do que me dissera anos antes (que "uns comunistas os tinham queimado"). Falei com ele e, face à minha insistência, um dia trouxe os livros, que, naturalmente, patenteavam uma pouco saudável coexistência com ratos. Disse-me: "Tome, ofereço-lhos já que tem tanto interesse neles". E entregou-me quatro livros: o aludido livro de eleições (1569-1618), dois livros de receita e despesa (1615-1637 e 1721-1728) e mais outro de óbitos do hospital (1803-1844). Soube, mais tarde, que andava, pelo menos, mais um extraviado, que, suponho, terá também sido entregue.
Tive-os cerca de duas semanas em casa para os arejar e limpar, que bem precisavam, e fiz as sua entrega à Santa Casa, a legítima proprietária, em 12 de Novembro de 1990. O final feliz deu-se com o provedor José Ventura da Cruz Pereira, um homem de cultura, que mandou restaurar alguns dos livros antigos, entre os quais o que aqui já várias vezes mencionei.
Voltando, para finalizar em em tom mais ligeiro, ao aniversário decidido pela Mesa da Santa Casa da Misericórdia, para este ano de 2019, não posso dar-lhe os parabéns, pois, Papa Francisco dixit, parabéns antecipados dão azar. Ou, então, talvez se possa parafresear Ary dos Santos, quando escreveu que "O Natal é quando o homem quiser".

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