17h51 - quinta, 19/09/2019

A água e as nossas casas


Fernando Almeida
Quando eu era menino Portugal era um país rico em água. Nessa época corriam bicas em todas as encostas, e por vezes os bois lavravam enterrados até à barriga na própria terra que iam voltar. Nesse tempo o outono começava mesmo em setembro, às vezes logo no início, e se as trovoadas apanhassem a lua nova cumpria-se infalivelmente o ditado: "lua nova de setembro trovejada, sete meses é molhada". Nos invernos eu desesperava para ir brincar para a rua, preso semanas a fio em casa por causa da chuva que nunca parava de cair.
Pouco a pouco começou a chover menos. A princípio até sabia bem ter verões mais longos e invernos que nos poupavam ao uso de guarda-chuva e gabardina. Antes do final do século houve até invernos amenos e secos em que os mais amigos de praia já iam em março até aos areais apanhar banhos de sol. Era agradável, sobretudo para os urbanos, sempre alheados da realidade dos agricultores, e com a água garantida nas torneiras, mesmo sem saber de onde vem. Aquele "bom tempo" sabia bem. Mas os outros, os que viviam da terra e viam os poços e furos a secar, começavam a andar assustados…
Sem que se soubesse, era o princípio daquilo que se veio a chamar de "alterações climáticas", consequência direta do "aquecimento global". Mas volta, não volta, sempre vinha um ano menos seco, e renovava-se a esperança que a falta de chuva não fosse mais que algo de episódico e casual. No passado também se conheciam anos (e períodos de vários anos) secos, e havia mesmo quem garantisse que tudo não passava da ocorrência de ciclos naturais a que o comportamento humano era completamente alheio.
Agora já ninguém ignora (exceto alguns "trampistas" pouco assisados) que o clima está a mudar em todo o mundo, que essa mudança é responsabilidade nossa, e que terá em alguns casos consequências absolutamente dramáticas. Hoje essa realidade já provoca muitos milhões de "refugiados climáticos", embora as notícias que nos dão a conhecer todos os dias quase os ignorem totalmente, e é certo que esse número vai crescer exponencialmente. Por todo o lado as pessoas começaram a ficar receosas, e todos esperam que pelo menos a região em que vivem não seja muito severamente castigada.
A adaptação a essas mudanças do clima está em curso com preparação de medidas para os cenários que se conseguem desde já prever. Sabe-se que vão aumentar os episódios de tempestades, de vagas de calor, e se calhar de frio, que o nível do mar vai subir (muito mais depressa que o que se pensava). No sul de Portugal uma das consequências das alterações climáticas que mais impacto terá sobre as nossas vidas é precisamente a ocorrência de secas, previsivelmente cada vez mais severas, muito provavelmente cada vez mais prolongadas. Por isso vale a pena pensar em pequenas coisas que podemos mudar no nosso dia-a-dia de forma a minimizar os problemas que decorrerão das secas.
Sabemos que a maior parte da água de que dispomos é gasta pela agricultura, e é no tipo de culturas e nos métodos de rega que se joga o essencial da gestão da água, mas o uso urbano também tem a sua responsabilidade, tanto mais que tem maiores exigências no que respeita à qualidade da água. Captamos a água num furo ou numa barragem, depois disso é filtrada, clareada, desinfetada até que seja capaz de beber. Mas só bebemos uma pequeníssima parte da que é tratada. Uma parte significativa é logo perdida em roturas (alguns estudos dizem que se perdem 30% da água tratada antes de chegar a nossas casas), mas a que chega até nós também é muitas vezes desperdiçada. Captamos a água, tratamo-la até ser límpida e capaz de ser bebida, e… deitamo-la sanita abaixo! Fará algum sentido?
Há povos que já encontraram soluções para este desperdício. Por exemplo, no Japão é normal que a água usada nos lavatórios corra para os autoclismos, o que sendo uma ideia muito simples é também uma solução inteligente e racional que permite a reutilização e a poupança de água. Mas há mais. Em países onde nem sequer há falta de água, como a Bélgica, é normal as casas terem um depósito que recebe a água dos telhados e que depois é usada para os autoclismos, regas, lavagens exteriores e outros usos que não exijam água capaz de ser bebida. Estes são apenas dois exemplos simples de soluções para reduzir o consumo de água sem perder qualidade de vida e até poupar algum dinheiro. Como se estima que cerca de 30% da água que gastamos em casa se vai precisamente nas descargas de autoclismo, medidas tão simples como estas poderiam representar enormes poupanças em água.
Deixo por isso a pergunta que me parece óbvia: temos cada vez menos água e sabemos que teremos secas cada vez mais prolongadas e graves. Quando começamos a tomar medidas? Quando será que por exemplo quem projeta construções (sejam habitações, escritórios, armazéns, ou fábricas, ou outros edifícios) começa a introduzir estes princípios básicos da utilização racional dos recursos nos projetos que elabora? E porque não se começa a pensar em regulamentar estas questões? Fica o desafio para quem tenha responsabilidades na matéria.

O autor utiliza o
novo Acordo Ortográfico



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Data: 27/03/2020
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