12h51 - quinta, 17/10/2019

Migrantes


Fernando Almeida
Haverá quase trinta anos, ouvi um velho num jardim de Odemira referir-se à chegada de estrangeiros, sobretudo alemães e holandeses, o que nesse tempo preocupava muito boa gente. Dizia ele que "os que chegam compram caro, se não forem boa gente, acabam por se ir embora e vender barato. Se forem boa gente, vão-se dar bem connosco e vão cá ficar, o que é bom porque vão ser nossos amigos". Pura sabedoria.
Ainda antes disso e bem longe daqui, andavam em grupos os portugueses, quantas vezes pelas avenidas iluminadas da grande cidade de Paris, olhando gulosamente para montras coloridas e brilhantes, cheias de produtos que não iam comprar. Tudo era tão diferente da realidade que conheciam das aldeias onde tinham nascido. A língua, a princípio totalmente incompreensível, o modo de fazer, de vestir, de comer, de beber, de pensar, de olhar…
Para um transmontano, beirão ou alentejano chegado a Paris nos Anos 60 do século passado tudo era ao mesmo tempo fascinante e intimidatório: estava claramente a jogar fora de casa, das suas serras e campos, e por isso remetido para o papel do estrangeiro olhado pelos nacionais com desconfiança. Estava destinado aos empregos que os franceses não queriam, na construção civil, na agricultura, na recolha de lixo, e em outros trabalhos fundamentais à sociedade, mas mal considerados, e remetia-se ao seu pequeno mundo dos bidonville, onde preferia passar despercebido enquanto ganhava o dinheiro bastante para poder alugar um apartamento modesto nos arredores e mandar vir a família de Portugal.
Olhava com espanto e inveja para as montras, mas fascinava-se também com as gentes, sempre bem arranjadas, onde as mulheres sem buço, sem lenço na cabeça, de minissaia e modos ousados (sobretudo para quem vinha das brenhas dominadas pela moral salazarista), eram uma tentação irresistível. É claro que aos olhares gulosos se seguiam os piropos nacionais tão em uso na época. As francesas sentiam-se ameaçadas, apesar de efetivamente pouco terem a temer daquela boa gente que não queria mais que conseguir uma vida decente e um futuro melhor para os filhos.
Os franceses precisavam deles, mas por outo lado sentiam-se como que invadidos por aqueles homens, o mais das vezes morenos e de modos quase medievais. Alguns, mais extremistas ou nacionalistas, temiam a "contaminação da raça", e apregoavam a necessidade de expulsar os imigrantes da França. Houve violência ocasional contra os portugueses.
Com o tempo saíram das barracas infestadas de ratos e baratas que ocupavam inicialmente, aprenderam a língua, alugaram casa, chamaram a mulher e os filhos, fizeram amigos entre os colegas e vizinhos franceses e integraram-se na sociedade. Muitos deles e dos seus filhos são hoje gente de sucesso no mundo da política e das empresas, e um tanto por todos os setores da vida e da sociedade francesa. Alguns ainda por lá, ou de volta para as nossas aldeias, fazem a integração inteligente do melhor dos dois mundos, juntando em si e entre os que lhe são próximos o pastel de nata e o croissant.
Não restam dúvidas que os franceses ganharam com as vagas de emigrantes portugueses, mas para mim é igualmente seguro que Portugal também ganhou muito pela abertura das nossas mentalidades e práticas, e no geral pela mudança na forma de ver o mundo. As mulheres portuguesas já não usam lenço na cabeça e também já se arranjam sem vergonha de ser bonitas e atraentes e sem receio da crítica social…
Mas a integração às vezes é um caminho difícil, pela incompreensão mútua e pelas invejas. Em certa fase os franceses não gostavam de trabalhar para um empresário português e também não gostavam de os ver "bem na vida", como se fosse crime um português conseguir melhorar a sua vida, ter um bom negócio, uma boa casa, um bom carro, mandar os filhos para a universidade…
Mas acho que é assim sempre que a migração acontece e uma comunidade estrangeira chega de rompante a uma região onde antes só viviam os netos dos que já lá tinham nascido: primeiro estranha-se, por vezes mesmo teme-se, sobretudo pelo medo do desconhecido, mas depois vem o conhecimento, a aceitação mútua, mesmo a amizade, e por fim os casamentos e dissolução dos que chegam entre os que já lá estavam.
Nós, portugueses, que enxameamos de gente os quatro cantos do mundo, sabemos isso muito bem. Todos nós temos ainda familiares ou amigos algures, num outro país, quantas vezes num outro continente. Nós temos especial obrigação de perceber este fenómeno da mistura de gentes e da fusão das suas culturas, sabendo que no final é enriquecedor para todos. Também devemos saber que quanto melhor recebermos os que vêm para junto de nós, mais depressa conseguimos transformar um estranho num amigo. E essa é a atitude mais inteligente e sábia que podemos ter.

O autor utiliza o
novo Acordo Ortográfico



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