15h14 - quinta, 12/12/2019

O rei vai nu...


Fernando Almeida
Num reino distante, como sempre acontece nas histórias, havia um rei muito vaidoso mas muito pouco sábio. Uns comerciantes aldrabões fizeram-no acreditar que tinham um tecido que por magia só os inteligentes conseguiam ver, mas que os estúpidos não viam. Se o rei usasse esse tecido nas suas roupas poderia facilmente perceber quem era inteligente, porque esses haviam de apreciar os seus fatos. Como nem o rei nem ninguém na corte via o tal fato, mas também ninguém queria passar por burro, todos diziam que os tecidos eram lindíssimos, e que o rei andava magnífico. Um dia, num desfile público, uma criança, na sua ingenuidade, exclamou alto e bom som: "O rei vai nu!", e todos a secundaram dizendo que realmente o rei ia nu. Os aldrabões já tinham fugido com o dinheiro dos fatos vendidos ao tolo do rei, e tanto este como toda a corte e todos os demais que tinham fingido ver fatos que não existiam, perceberam que afinal uma criança inocente era mais sábia que todos eles juntos.
O mar está a ficar esgotado, os vertebrados a desaparecer nos quatro cantos da Terra, os polinizadores em extinção acelerada, a camada de ozono degradada, o clima a entrar em caos, e nós, indiferentes, como se nada víssemos ou soubéssemos, continuamos nas nossas vidinhas rotineiras, achando que tudo vai magnificamente bem, como os outros fingiam não ver que o rei ia realmente nu.
Desta vez não foi um menino, mas antes uma menina, e não disse nada que nós não soubéssemos há muitos anos: estamos a destruir o planeta, numa total indiferença por nós mesmos, pelos nossos, por todos os jovens de hoje e por todos os outros que estão ainda por nascer. Possivelmente foi por ter tido consciência disto que a menina se tornou tão persistente, tão obstinada, e fez da causa do futuro da Terra a razão da sua vida. Mas nós olhamos e não vemos, ou melhor, fingimos que não vemos, como o viciado que a cada dia que passa sente que a saúde mais se degrada, mas escravo do seu vício, é incapaz de mudar. Também nós, viciados no consumo, num modo de vida docemente inebriante, temos sido incapazes de alterar as nossas rotinas, e deixamos os dias e os anos passar, sem coragem nem determinação para mudar o que sabemos que tem que ser mudado.
Há também, como nos viciados mais empedernidos, os que tentam negar a dependência do vício, ou negam o próprio vício como problema. Dizem que afinal as coisas nem sequer estão assim tão mal, que o mar tem ainda muito peixe, que os animais e plantas não se estão a extinguir, ou que é apenas em pequena escala, coisa normal, que as mudanças no clima resultam de causas naturais, que é mesmo assim, que o clima sempre foi inconstante, e que portanto temos é que continuar na nossa vidinha de todos os dias, vendo a novela e o futebol, e sobretudo consumindo cada vez mais, que nada temos a fazer.
Entre estes há muitos dos que não fazem nem nunca fizeram nada para proteger o planeta, e antes se comportam de modo predatório e egoísta num desprezo total pelo futuro da humanidade e da vida na Terra. São os primeiros a vir a terreiro criticar a menina sueca que colocou sem medo o dedo na ferida dizendo que tínhamos que pensar e mudar. Dizem eles que a menina tem "Síndrome de Asperger" (como quem diz que a sua teimosia é uma doença e não tem uma causa válida), que anda de barco porque gosta de velejar, e portanto não é mais que uma "menina rica e mimada", que não sabe o que diz e que nem sequer cumpre o seu dever mais básico, que é de ir à escola… E tudo serve para denegrir quem afinal, como a criança da história, diz apenas o que todos sabemos e temos medo de assumir.
Podem todos, de uns para os outros fingir. Fingir que não vêm que o para-brisas do carro já quase não tem insetos mortos quando chegam de uma viagem longa; podem fingir que é normal que seja difícil criar comida nos campos sem que a química seja utilizada; podem continuar a fingir que se pode pescar mais milhares de milhares de toneladas todos os anos, dizendo que há muita gente a viver da pesca e que nada se pode fazer em contrário; podem continuar a fingir que já é impossível viver sem plásticos; podem continuar a fingir que pensam que as alterações do clima são uma ficção, e não uma realidade que já se sente bem; podem continuar a fingir que é normal que o consumo desnecessário e compulsivo seja a base da nossa economia; podem continuar a fingir que não estão a ver que andando neste caminho nos estamos a dirigir para mudanças irreversíveis que nos conduzirão a um caos inevitável.
Mas um dia, quando tentarem voltar atrás e perceberem que já não é possível evitar o pior, vão lembrar-se da menina que na sua inocência lúcida e persistente nos avisou a todos que era hora de mudar.

O autor utiliza o novo
Acordo Ortográfico



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