12h07 - quinta, 16/01/2020

A escola que temos... e a que precisamos!


Fernando Almeida
Já tenho pensado, e julgo que não me engano: o futuro dos alunos do ensino secundário depende mais de saber quantas vezes o Carlos da Maia se encontrou com a Maria Eduarda, que de saber o que temos que mudar no nosso quotidiano para lutar eficazmente pela sustentabilidade da nossa vida no planeta. Qual será o jovem interessado no Cogito ergo sum de Descartes, ou melhor, quem estará no século XXI preocupado com a demonstração da existência de Deus e com a tentativa de doutrinar os demais dessa verdade? Quem está interessado em aprender à força e sob pena de graves inconvenientes para o futuro, aquilo que efetivamente lhe não interessa e provavelmente nunca lhe fará falta?
Quem fala dos encontros pecaminosos das personagens de um romance (que por muito genial que possa ser, não passa de um romance), ou fala do pensamento de um importante matemático do século XVII, fala de centenas de coisinhas efetivamente pouco importantes quando comparadas com os grandes problemas que temos pela frente e com todo o conhecimento necessário para os enfrentar. É como se a escola quisesse verter para os nossos jovens as ideologias, as preocupações e conhecimentos de um tempo que já passou, para mais, usando muitas vezes métodos que estão a anos-luz dos vídeos que os alunos vêm constantemente na Internet.
E é assim que, frequentemente, tanto alunos como professores têm que dar resposta a um sistema mais organizado para classificar e seriar que para ensinar a aprender, mais preocupado com a competição que com a cooperação, mais virado para o passado que para o futuro. Depois admiram-se que os alunos sejam desinteressados, que estejam mais atentos ao telemóvel que à maçadora e desinteressante explicação que o professor, quantas vezes a contragosto, lhes tenta enfiar "goela abaixo", para que eles vomitem tudo direitinho nos testes ou nos exames.
E sabem eles, alunos, e sabem também os seus professores, e sabem os dirigentes que constroem as políticas educativas, e sabem os comentadores televisivos que tentam moldar a nossa opinião, e sabemos todos nós, afinal, que quase nada daquilo que é decorado para as provas escritas fica para o futuro; quase nada é integrado num corpo de conhecimentos coerente e organizado que cada indivíduo deve ter consigo como mais-valia para a sua vida; que quase nada do pouco que fica será útil para um mundo em acelerada, constante e quase imprevisível mutação. O mesmo é dizer que apenas uma pequena parte dos muitos milhares de horas em que os alunos estiveram nas salas de aula terão realmente importância.
Dirão os mais conservadores que a isso que se chama "cultura", mas eu digo antes que esse conhecimento teve a sua justificação em outros tempos, fundamentalmente como forma de diferenciação social: quem sabia aquelas coisas, que embora muitas vezes não servissem para nada, tinha um falar diferente, estatuto mais elevado, acima das gentes comuns, e nem que fosse apenas por isso, valia a pena o esforço. Mas hoje, com a democratização da escola, com a generalização das universidades, com a difusão do linguajar padrão, com o acesso facilitado à informação, as coisas estão a mudar. Melhor, já mudaram.
Tal como acontece nos países que vão adiante nesta estrada que estamos a percorrer, mesmo para encontrar emprego cada vez menos se pergunta quais os diplomas que a pessoa tem e cada vez mais se procura perceber o que a pessoa é capaz de fazer. Pois é, o mundo está a mudar muito depressa, mas a escola muda muito devagar.
Experimentem métodos ativos de aprendizagem, experimentem falar de temas realmente importantes para o futuro, experimentem dar a possibilidade aos alunos de descobrir, de inventar, de produzir conhecimento com utilidade, e verão como eles se interessam, como eles querem aprender, como eles produzem conhecimento e ganham capacidades.
Mas parece que somos uma gente conservadora por natureza. Queremos que os nossos filhos aprendam toda a casta de inutilidades que nós próprios fomos obrigados a aprender e da qual às vezes nos orgulhamos. Eu, já as nossas possessões na Índia se tinham perdido há anos, ainda tinha que decorar as estações e apeadeiros da linha de caminho-de-ferro de Goa, tal como as de Angola, e os rios e afluentes das colónias… E há quem ache que assim mesmo é bem, e que os nossos alunos de hoje devem ser como os meninos das madraças, capazes de dizer de cor todos os versículos do livro sagrado.
Há países que não se desenvolvem apenas porque as pessoas, velhas de idade ou principalmente velhas de cabeça, gostam de viver no passado.

O autor utiliza o novo
Acordo Ortográfico



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