16h54 - quinta, 27/02/2020

A ermida da Cela


António Martins Quaresma
Situada em plena Serra do Cercal, ainda na freguesia de Vila Nova de Milfontes, em lugar aprazível (coordenadas 37o 46' 09.65'' N; 8o 42' 39.85'' O), a ermida da Cela, cuja invocação variou entre Nossa Senhora e Santo António, constituiu, para a população das redondezas, em particular a de Milfontes, um motivo de atração festivo-religiosa. Os acessos, a partir de Milfontes, fazem-se através da estrada do Cercal, voltando, à direita, no sétimo quilómetro, por caminho de terra, na direcção do monte da Alpendurada, depois da Cela de Baixo, e daí, por caminho de pé-posto, até à elevação onde a ermida se encontra, que exige uma fácil prática de escalada; ou então, voltando na curva do Soudo, por caminho de terra até ao monte da Cela do Meio, junto de cujo portão o carro deve ser deixado, e, contornando esta propriedade, chega-se, a pé, à ermida.
Até à década de 1950 o povo acorria à ermida, mormente em determinadas datas, fazendo passeios – muitas vezes em burricada – em que a componente recreativa e social estava muito presente (ver foto de burricada, datada de 1926). As alumiadas, as vigílias e os bailes, em particular no 1º de Maio, faziam, igualmente, parte de algumas práticas da religiosidade popular, eivadas de reminiscências pagãs, que a ermida concitava. Nunca foi, porém, um santuário de multidões, mas apenas de pequenos grupos de pessoas, aliás de acordo com a demografia regional.
A história da ermida remonta ao século XVI, embora possivelmente se tivesse erguido sobre um mais antigo santuário, e liga-se à figura de um frade franciscano, de seu nome Bernardino, aqui refugiado da vivência do mundo, como era corrente no fenómeno do eremitanismo. Ele morreu quando, chamado a Lisboa pelo seu Provincial, a caravela em que seguia naufragou na barra do rio Mira. Segundo a narrativa da sua morte, transmitida por escritores de feitos e casos religiosos, Frei Bernardino terá predito o naufrágio ao embarcar e, logo depois, as águas transportaram o seu corpo, esteiro acima, até à proximidade da sua cela, onde foi encontrado, com as mãos cruzadas sobre o peito e o breviário enxuto na bolsa. O facto, considerado milagroso, levou a população a erguer uma ermida no lugar da sua cela, devotada, nos primeiros tempos, a São Bernardino de Sena, santo italiano muito em voga, que tinha o nome do nosso eremita.
Deixando o antigo relato imbuído de maravilhoso, vemos, hoje, que o edifício se encontra em ruínas, com a alvenaria de xisto e barro à vista. É ainda bem legível a sua estrutura composta: nave e capela-mor rectangulares, separadas por arco triunfal; e pequena sacristia, também rectangular, adossada à capela-mor, segundo determina a regra, do lado da Epistola. A fachada obedece ao modelo dito "em bico", o mais usual nas singelas ermidas rurais, e apresenta, à esquerda de quem entra, vestígios de uma sineira; da cobertura do corpo principal, em duas águas, resta apenas o sector correspondente à capela-mor.
Na pedra da verga do portal é visível uma inscrição, gravada pela mão de alguém sem domínio da escrita, com a data, aparentemente, de 1704, evocando um momento em que recebeu obras de monta. No interior da capela-mor, perduram vestígios de pinturas murais, testemunhos das beneficiações levadas a cabo por finais do seculo XVIII.
A ermida está registada em nome da Paróquia, mas subsiste alguma confusão pois um particular reclama a sua propriedade. Tudo resulta, parece, de um lapso aquando dos registos efectuados no tempo da I República, lapso que, no entanto, foi resolvido, mais tarde, pelo Estado a favor da Igreja. Em todo o caso, urge resolver a questão do registo predial.
Nos últimos anos, a ermida da Cela tem continuado a sofrer o efeito da passagem do tempo, com a agravante de ter sido alvo de "caçadores de tesouros", que, naturalmente não encontraram qualquer tesouro, mas, esburacando o pavimento, acentuaram os riscos para a "saúde" do pequeno edifício. Um grupo de amigos da ermida, conduzido pelo autor destas linhas, levou a cabo, há alguns anos, o escoramento dos vãos, que acusavam sinais de estarem a ceder.
O "destino" desta ermida é exemplar: com a transformação da sociedade, com o abandono das antigas práticas religiosas e festivas, com o próprio esquecimento da sua existência, o pequeno templo quedou-se abandonado, embora se encontre em lugar aprazível e constitua um interessante pedaço de património cultural. Nem o aproveitamento turístico, possivelmente a solução para a sua manutenção e o seu uso, foi até hoje equacionada. Este é, portanto, um "dossier" que, apesar de tudo, continua em aberto.

O autor utiliza o novo
Acordo Ortográfico



Outros artigos de António Martins Quaresma

COMENTÁRIOS

* O endereço de email não será publicado

07h00 - terça, 29/09/2020
ABC de Santo André
na 1ª divisão nacional
de basquetebol
A equipa do Atlético Basquete Clube (ABC) de Santo André? venceu no domingo, 27, os Salesianos do Estoril por 75-60, garantindo a subida ao campeonato nacional da 1ª divisão da modalidade.
07h00 - terça, 29/09/2020
Alcácer do Sal
mantém IMI mais baixo
do distrito de Setúbal
A Câmara de Alcácer do Sal vai manter em 2021 a taxa de Imposto Municipal sobre Imóveis (IMI) nos 0,3% para os prédios urbanos, naquele que é o valor mais baixo praticado pelas autarquias em todo o distrito de Setúbal.
07h00 - terça, 29/09/2020
Odemira aprova moção sobre
transportes escolares no concelho
A Assembleia Municipal de Odemira aprovou na sexta-feira, 25, por unanimidade uma moção, apresentada pelos eleitos do PS, onde manifesta as suas preocupações relativamente ao transporte escolar no concelho no presente ano escolar de 2020-2021.
07h00 - segunda, 28/09/2020
Assembleia Municipal
de Odemira aprova
moção sobre água
Os eleitos da Assembleia Municipal de Odemira defendem que a Câmara de Odemira, "em articulação com os restantes municípios do país, deverá desenvolver de imediato esforços junto de quem de direito para que os municípios portugueses onde existam barragens de água para abastecimento público, regadio e outros fins devam fazer parte integrante dos órgãos de decisão de planeamento e gestão das respectivas bacias hidrográficas".
07h00 - segunda, 28/09/2020
Praia de Milfontes
eliminado da Taça
A formação do Praia de Milfontes disse adeus à edição de 2020-2021 da Taça de Portugal, após ter sido eliminada neste domingo, 27 de Setembro, na casa do Mineiro Aljustrelense.

Data: 18/09/2020
Edição n.º:

Contactos - Publicidade - Estatuto Editorial