12h40 - quinta, 09/04/2020

Um velho emigrante e o nosso futuro!


Fernando Almeida
Num dia já distante e num sítio também muito distante, um velho, a propósito da sua própria saída para a emigração, disse-me: "A vida traz-nos o que calha, umas vezes coisas boas, outras vezes coisas ruins, mas a gente é que faz o que quer com o que a vida nos traz". Acho que aquela foi a resposta que ele deu ao fatalismo tradicional da nossa cultura, caldeado com a sua natureza independente e ousada. A vida tinha-lhe trazido dificuldades e problemas aparentemente insuperáveis, mas ele não se deixou vencer e fintou-a com uma fuga audaz para França. É assim. Há homens que se dão por vencidos ainda antes da contenda, mas há outros que procuram até ao limite soluções para sobreviver e seguir jornada.
Volta não volta, lembro-me daquele homem que fintou o destino que o queria aprisionado na miséria de outros tempos. E lembro-me mais dele, e de outros como ele que tenho conhecido, quando a vida me traz coisas desagradáveis. Já percebi que há uma certa arte de transformar em positivo o que de negativo nos surge pela frente, ou melhor, aguentar o que de negativo temos que sofrer, sem que isso nos tire a força e a vontade de "dar a volta por cima". Como se costuma dizer também, quando se fecha uma porta, normalmente abre-se uma janela. Mas há quem fique tão desesperado com o fecho da porta, que nem consegue ver a nova janela que se abriu…
Tudo isto se prende com a situação de pandemia que vivemos hoje e com os impactos seguramente negativos que a acompanham. Podemos encarar a situação com o velho fatalismo lusitano (diga-se que é mais um mito urbano que uma realidade cultural do nosso povo rural), ou aguentar a situação e suas consequências e dela tirar o melhor partido que se conseguir.
De facto, como quase tudo na vida, esta crise global de saúde tem consequências negativas, mas também tem consequências positivas. Sobre as negativas não é necessário falar, porque delas já se tem falado até à exaustão, valendo mais a pena falar do que de bom esta crise sanitária – mas também económica, social e mesmo de modelo civilizacional – nos pode deixar.
Quem esteja a cumprir com critério o isolamento social que nos é recomendado, já terá observado certamente que passou a gastar menos em bens não essenciais ou mesmo supérfluos, simplesmente porque não há condições para os adquirir. E, em abono da verdade se diga, não perdeu nada de especial por isso… Também muitos de nós passamos a consumir menos combustíveis, o que em alguns casos é uma poupança substancial. Ao mesmo tempo percebeu-se que a solução de "teletrabalho" pode ser absolutamente satisfatória em termos de produtividade e que pode mesmo resolver de forma absolutamente inesperada os problemas da distância: quantas reuniões passaram a ser feitas através de plataformas de videoconferência, evitando deslocações para encontros presenciais (com elevados custos económicos e ambientais) que agora vemos bem que eram completamente dispensáveis. Também por certo se virá a constatar que até os alunos podem aprender eficazmente fora da sala de aula desde que devidamente orientados, e que portanto bem podiam ter horários letivos mais reduzidos sem que daí viesse algum mal ao mundo.
Neste contexto sou levado a pensar que o nosso modo de vida, muito centrado no máximo trabalho/máximo rendimento/máximo consumo, que tem sido a base do modelo económico em que vivemos, e que de resto tem custos elevadíssimos na degradação do ambiente (e mesmo da relação social e até familiar), terá mais cedo ou mais tarde que ser substituído por algo diferente, mais amigo do ambiente e da qualidade de vida das pessoas. Embora de momento a pandemia em que vivemos nos faça esquecer essa realidade, esse modelo de vida está a criar uma indisfarçável crise ambiental que poderá vir a ter proporções bíblicas. Mas se não estou errado, tanto os que se têm oposto ao nosso modelo económico e social tradicional, como muitos que o têm fomentado e dele têm tirado o melhor partido, já perceberam que algo de estrutural tem que mudar na nossa forma de viver, sob pena de a crise ambiental se tornar incontrolável e desencadear também, por arrastamento uma crise geral de sistema.
Quem deite os olhos para o horizonte e veja para lá da poeira levantada por esta crise do Covid-19, verá que, por muito perturbadora que esta crise de saúde possa ser, ela provavelmente será pouco mais que um pequeno abalo premonitório de um grande sismo que um dia poderá vir em resultado do caos ambiental que estamos a criar.
Por isso volto ao meu velho emigrante que da fraqueza fez força para dar solução ao que parecia insolúvel. Se como ele, nós, que já vimos que podemos viver com menos bens, que já vimos que podemos adotar novos modelos de trabalho e até de estudo, que já vimos que a felicidade se pode encontrar mais facilmente na melhoria das relações entre as pessoas que no consumo desenfreado, começarmos a mudar a nossa forma de viver para evitar o pior da crise ambiental que se avizinha? Menos deslocações, mais economia de proximidade, agricultura que respeite os recursos naturais, mais trocas e menos vendas, mais apreço pelos bons valores, e menos endeusamento do dinheiro…
Pode ser que desta crise nascida de um vírus se consiga aprender o suficiente para evitar uma crise geral da civilização. Será que aprendemos o suficiente para fazer mudanças, ou passado o susto vai voltar tudo ao que era antes?

O autor utiliza o novo
Acordo Ortográfico



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Data: 31/07/2020
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