16h30 - quinta, 23/04/2020

Epidemia e ilusionismo


António Martins Quaresma
1. "Metade dos portugueses são economistas e a outra metade epidemiologistas". Há quem acrescente que são simultaneamente uma coisa e outra. Trata-se de blague, claro, suscitada pela percepção da infinidade de entendidos que a Covid-19 deitou ao mundo. Mas que há por aí muita gente a falar do que não entende, muitas vezes com clara intenção de atacar o adversário político, isso há.
Estranho é um artigo do "Observador" (que outro havia de ser?), assinado por Pedro Caetano, que se apresenta como "cientista fármaco-epidemiologista formado em Harvard e a trabalhar em Oxford", além de um quase delirante rol de títulos e qualificações. Ora, o nosso homem afirma, estrepitoso, ser Portugal, ao invés do que se tem dito lá fora, "um dos países mais perigosos do mundo na Covid-19". Ele não se socorre da sua, naturalmente grande, competência de "cientista fármaco-epidemiologista formado em Harvard e a trabalhar em Oxford", mas de um exercício sobre o rácio estatístico número de habitantes/mortes, bom critério de apreciação, desde que utilizado com correcta regra. Fá-lo, porém, de maneira pouco ciente e muito capciosa, aliás com abundantes comentários de carácter político, criticando, forte e feio, as autoridades de saúde e o Governo portugueses.
Para melhor apresentação do citado cientista, notamos que já fez tentativas de se lançar na política e na academia portuguesas. Dois exemplos, que podem ajudar a perceber a fúria do homem: ele foi um apoiante e colaborador de António José Seguro, para a área da Saúde, e "feroz opositor" de Costa (24.Sapo.pt, 30 de Outubro de 2019); ele candidatou-se a reitor da Universidade do Algarve, mas o júri eliminou-o por não ter apresentado "prova inequívoca do seu vínculo como professor ou investigador de uma instituição nacional ou estrangeira, de ensino universitário ou investigação, em exercício efetivo de funções" ("Sul Informação", 26 de Outubro de 2017). Um percurso que, denotando a ambição, sempre fracassada, de vir iluminar com a sua ciência este recanto da Europa, faz desconfiar que, se há muitos diletantes cavilosos armados em epidemiologistas, também pode haver soi-disant epidemiologistas a ocupar-se da epidemia como diletantes cavilosos. Se estiver enganado, desde já me penitencio.

2. Semanticamente, a Covid-19 teve forte e belicoso impacto. "É uma guerra", tem-se dito amiudadamente. O léxico militar aplicado à Covid-19 é copioso: "luta", "combate", "batalha", "linha da frente", "heróis"... Não é que que esta tendência seja nova: todos nos lembramos de que, a certa altura, os "bombeiros" passaram a ser "operacionais", vaga conexão militar, que aliás já tinha um alicerce no tipo de organização dos bombeiros. Depois tornou-se moda, como é infeliz hábito.
Em rigor não estamos numa "guerra", mas numa "epidemia", aliás numa "pandemia", o que já não é pouco, mas ele há gente que nunca está satisfeita com o que tem.

3. Uma das consequências desta epidemia é o redobrar (pelo menos na minha impressão) dessoutra epidemia semântica que é o (ab)uso da palavra "colaborador", em lugar de "trabalhador". Evidentemente, sempre pela boca de alguns patrões, do tipo Nuno de Carvalho, não o do Sporting, mas o da Padaria Portuguesa, que, por sua vez, não é uma padaria, é um "conceito". O seu uso, muito pós-moderno, muito pós-verdade, muito tolo, é uma espécie de eufemismo ilusionista, cujo uso ocorre na razão directa da privação da palavra e de direitos e salários dos trabalhadores. Como uma "novilíngua", na definição de Orwel (1984), que busca esfumar realidades pela supressão das palavras que lhe correspondem, e assim entregar, ao poder que a concebe, o controlo do próprio pensamento das gentes.


PS: Na altura em que estas linhas foram escritas, o Alentejo continua a resistir notavelmente ao Covid-19, inclusive sem qualquer fatalidade. No Alentejo Litoral os primeiros casos de infecção suscitaram certo alarme, mas tudo se ficou por aí. Há dias ouvi um médico epidemiologista a tentar explicar a diferença com o Norte, dizendo que os nortenhos eram mais efusivos e, portanto, mais atreitos a contrair a doença. Foi sem má intenção, mas mais um caso em que o epidemiologista se devia ter atido à epidemiologia.

O autor utiliza o novo
Acordo Ortográfico



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