11h58 - quinta, 07/05/2020

Os colonizadores colonizados


Fernando Almeida
Antigamente o domínio dos povos fazia-se geralmente pela força. Mandava-se o exército em atitude de conquista e, ou os dirigentes nativos colaboravam a bem com o novo poder, e nesse caso continuavam a reinar vagamente sobre a comunidade, ou eram depostos com mais ou menos sangue e substituídos no cargo, que em qualquer dos casos passava a ser decorativo e simbólico.
Depois, na ponta da lança ou da espingarda, o novo poder colonial fazia e desfazia a seu belo prazer, usando ou cedendo os recursos locais conforme lhe fosse mais vantajoso. Nesses recursos estavam os da natureza, como minérios preciosos, madeiras nobres, marfim e diamantes, mas também os da agricultura, como o café, o sisal, o cacau, o chá… Mas entre os recursos usados pelos novos senhores estavam também as gentes, primeiro como escravos, mais tarde como servos, depois como trabalhadores assalariados e, finalmente, como consumidores.
Tudo corria bem para as potências coloniais até que no Século XX, em consequência da nova geopolítica nascida da Segunda Guerra Mundial, os povos dominados começaram a revoltar-se e a criar problemas aos dominadores. Por um lado, era o peso das opiniões públicas dos países ricos que não gostavam da situação, mas, por outro lado, saía cada vez mais caro manter uma administração colonial fortemente militarizada em guerras que nunca se poderiam ganhar.
Foi aí que os velhos senhores coloniais, sempre um passo à frente dos acontecimentos, resolveram o problema entregando o poder das antigas colónias às elites locais mais ligadas psicológica e culturalmente aos antigos colonizadores, de forma a conseguir manter o controlo dos povos, ainda que indiretamente. A receita mostrou ser maravilhosa: sem despesas de administração; sem custos com poder militar e policial permanente; sem conflitos com a opinião pública, mas mantendo o acesso às matérias-primas, mão-de-obra barata, e com amplo domínio dos mercados locais. Receita perfeita.
Todo esse controlo, que passou a ser consentido, pacífico e barato, só aconteceu porque existia um domínio cultural e psicológico sobre o povo colonizado, domínio esse que tendencialmente é mantido e às vezes até ampliado pelas elites locais, que encontram nas semelhanças com o antigo poder fator de diferenciação e prestígio. Pode pensar-se que essa situação é efémera, ou que em poucas gerações se dilui, mas o próprio exemplo de Portugal mostra que assim não é.
Também nós fomos colonizados e dominados militarmente, chacinados e vendidos como escravos. Também nos tiraram as melhores terras, se apropriaram dos minérios e todos os demais recursos naturais, e também a nós cobraram impostos sob ameaça da ponta da lança ou do gládio. Mas muito pior que tudo isso, o que ainda hoje deixa marcas é a sensação de inferioridade criada pelos diversos poderes estrangeiros que nos dominaram, mas mantida e perpetuada em muitos casos pelas nossas elites. Ainda não há muitos anos se notava em muitos portugueses um certo desconforto pela sua origem e uma verdadeira bajulação ao que chegava "de fora".
Essa sensação de inferioridade é uma das principais causas do menor desenvolvimento e dos medíocres resultados da economia, o que reforça o sentimento que a criou. Achamos que os outros são melhores, compramos menos o que é nosso, porque achamos que o que vem de fora é melhor, ouvimos mais música estrangeira porque o inglês até "soa melhor", damos mais crédito às opiniões e teses estrangeiras, importamos modelos para a administração…
Já lá vão muitos anos, numa aula, como regularmente acontecia, perguntei à turma quem tinha o cuidado de, nas mesmas condições de preço e qualidade, dar preferência aos produtos portugueses. Levantou-se apenas um dedo, ao meio da sala, e na carita incrédula de uma menina búlgara que se via sozinha entre os colegas portugueses, começou a ver-se o espanto e a indignação. Como era possível que os colegas não dessem preferência aos produtos dos portugueses? Como era possível que preferissem ajudar os estrangeiros que os seus irmãos, vizinhos ou compatriotas?
Claro está que o resto da aula acabou por naturalmente se gastar a explicar de forma simples que se consumirmos produtos portugueses esse dinheiro fica cá, vai ser distribuído entre os patrões e os seus funcionários, que se comprarem também eles produtos portugueses vão também promover o sucesso de outras empresas, criar postos de trabalho, potenciar melhores salários e bem-estar para toda a comunidade. Também de toda essa criação de riqueza se pagarão impostos que o Estado, que se trabalhar como se deseja, gastará em melhor saúde, melhor educação, melhores transportes…
As crises às vezes são um balde de água fria que vem acordar quem anda docemente adormecido com música de embalar papalvos. E a crise que passamos não há muito tempo mostrou bem que quando as coisas se complicam só podemos contar connosco mesmos, porque muitos dos que se fazem de amigos afinal querem mesmo é ter acesso às mossas matérias-primas, à nossa mão-de-obra barata e a todos nós, como consumidores, que acreditam que o que vem "de fora" é melhor que o que é nosso. Afinal querem continuar a colonizar-nos de forma discreta e moderna.
Por certo, a pandemia vai trazer consigo nova crise. Será que desta vez já aprendemos a dar preferência aos produtos portugueses ou, mantendo a mentalidade de colonizados culturais, vamos continuar a dar vantagem ao que é estrangeiros? É preciso mudar de atitude, porque o país de todos nós é feito por cada um de nós.

O autor utiliza o novo
Acordo Ortográfico



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