12h04 - quinta, 21/05/2020

Crónica de "escárnio e maldizer"


António Martins Quaresma
1. Da charla ao charlatão
Em qualquer dicionário, encontramos o significado da palavra "charla", que pode ter, à vez, conotação positiva e negativa.
No primeiro caso significa uma conversa informal, embora de fonte intelectual, como as "Charlas Linguísticas", do Padre Raul Machado, ou "Se bem lembro..." de Vitorino Nemésio, que, nos alvores da televisão, fizeram sucesso entre o público português. O tempo desse tipo de charlas passou, que os "valores culturais" promovidos pela tv agora são outros.
Já o termo "charlatão", relacionado etimologicamente com aquele, apenas tem sentido negativo, designando "uma pessoa que, ostentando méritos ou qualidades que não possui, explora a credibilidade pública". Historicamente, o charlatão era o sujeito prático em curar moléstias, conhecedor de processos e elixires milagrosos.
No mundo complexo e caótico dos nossos dias, o mercado do charlatanismo disparou. Não que os trapaceiros sejam diferentes dos que sempre existiram, mas as novas tecnologias conferem-lhes possibilidades até agora inimagináveis. O charlatão actual não está directamente relacionado com a charla, mas é sempre um parlapatão. Curas infalíveis ou caminhos certos para a salvação eterna continuam a ser os seus temas recorrentes. O principal objectivo é a realização fácil de proventos chorudos. Para ser eficaz ele necessita que o seu alvo seja um incauto, coisa relativamente fácil pois incautos somos quase todos, numa altura ou outra da vida.
Um certo género de charlatanismo, o político, aproveita situações económicas e sociais particulares e faz eleger personagens que seriam risíveis se não fossem inquietantes. Mas há um subtipo subtil de impostura, ilustrado com Narciso – uma figura saída da imaginação do autor desta crónica –, mais maneira, mais doméstica, inicialmente uma versão micro, que, soprada, incha e se eleva nos ares.

2. Narciso, ou o empreendedor local
Narciso era, em linguagem alegórica, um exemplar algo deslavado, mas cheiroso, de flor serrana. Um dia, saiu do agreste torrão natal, que a sua ambição era a cidade, o mundo, as luzes da ribalta. Tinha razão, pois, mais do que a grande maioria dos narcisos que aquela serrania produzira, ele fora, pela natureza, dotado de canoros atributos, sedutores, envolventes.
Aproveitando-se, cedo buscou veneração do povo, mas, por longo tempo, o seu talento não lhe devolveu grandes dividendos. Muitos não entendiam os respeitáveis anseios de uma alma sensível, que apenas queria amor, embora sob a forma de glorificação pública. E, à medida que o tempo passava e apenas obtinha escassas gabações de alguns pacóvios, Narciso ia definhando, em rancorosa melancolia.
Enfim, num último ímpeto, lançou, estratego, uma grande operação de charme: fez poemas, plenos de comoventes panegíricos, com que obsequiou doutores e engenheiros, e assediou, labioso e mavioso, como só ele era capaz, uma diversidade de agentes do show business. Após esforçada e prolongada perseverança, a recompensa chegou finalmente. A bela imagem que, só a ele, o espelho costumava devolver acabou por irromper diante dos olhos maravilhados de (quase) todos. E nasceu uma melífera e badalada narrativa, resistente a qualquer malicioso grito de "o rei vai nu!".
O salto foi soberbo: taberneiro, converteu-se em enólogo, que é guia no domínio dos néctares; apanha-bolas, achou-se em ovacionada estrela futebolística, de fino toque de bola; arrumador de pincéis, viu-se alcandorado a grande figura da pintura universal, de esplêndida paleta. Sobre a sua espessa cabeleira negra vê, hoje, quem olha atentamente, um halo luminoso, como num ícone bizantino. Enfileira, por fim, entre a nobreza da aldeia. Da aldeia? Não, do país, talvez do universo!

O autor utiliza o novo
Acordo Ortográfico



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