12h43 - quinta, 02/07/2020

O mito do bom rural


Fernando Almeida
Já tenho dito isto mais vezes, mas havendo que dividir a Humanidade em grupos, tenho as minhas próprias ideias. Há quem a divida entre brancos e pretos; outros entre ricos e pobres; outros entre os do norte e os do sul; outros entre escolarizados e analfabetos; entre novos e os velhos; entre homens e mulheres… A mim, parece-me que se pode dividir a Humanidade entre os que se deitam de madrugada, depois de noitadas de copos, e os que se levantam de madrugada para produzir tudo o que os primeiros necessitam para viver. Entre estes dois grupos há diferenças tão fundamentais que fazem esquecer todas as demais diferenças que se possam encontrar entre eles.
Ora os primeiros, os que vivem na noite são, além dos playboys filhos de gente rica, alguns intelectuais, geralmente simpáticos, estimáveis, e com impacto na formação da opinião coletiva, o que lhes dá importância e responsabilidade acrescida na sociedade em que vivemos. Mas, embora cultos e geralmente detentores de muita informação produzida pelos seus pares, são muitas vezes profundos desconhecedores daquela parte da História que nunca foi escrita, por não se tratar da História das gentes importantes, mas sim das vidas do povo humilde, por vezes escravizada ou miserável, com fome e com frio…
Mas o caso que me deu que pensar e que me leva a escrever desta vez foi a forma que muitos deles têm de ver os problemas de ambiente, ou melhor, de imaginar como se resolvem. Não nos devemos esquecer que, embora andemos todos entretidos com o "Covid", o problema realmente sério que temos pela frente é o da degradação do ambiente. O "Covid" vai passar num ano ou dois depois de uma vacina, medicamento mais eficaz, ou mesmo apenas pela imunização de grupo, mas a degradação do ambiente vai-se agravar cada vez mais, e não se resolve com uma vacina milagrosa. Continuam a bater-se recordes todos os anos no que respeita ao aumento da temperatura, ardem florestas de áreas que antes eram geladas, a perda de biodiversidade agrava-se a cada dia que passa, os oceanos continuam contaminados, os solos perdem-se por erosão e por envenenamento com agroquímicos tóxicos… Por isso, quando passar o "Covid", voltaremos a olhar para a dramática situação ambiental que temos pela frente e perceberemos que esse é um problema realmente difícil de resolver.
Assustados com a alarmante degradação das condições de vida na Terra, e se calhar influenciados por um qualquer mito do "bom selvagem" que quase sempre paira no espírito dos que da selva apenas ouviram falar vagamente, os tais que se deitam pela madrugada, e que conhecem muito pouco do mundo real, imaginaram que o país perfeito era o que existia entre nós lá para os meados do século XX, uma verdadeira "era dourada" dos portugueses e da sua relação com o ambiente: não havia poluição nos rios, não havia químicos na agricultura, não havia automóveis nas estradas, e imaginam assim que era um tempo de gente feliz e de harmonia entre o Homem e a Natureza. Essa imagem, na prática um tanto "salazarenta" a fazer lembrar os "pobrezinhos mas remendadinhos" de outros tempos, tem feito caminho no pensamento e no discurso coletivos, como se fosse possível retroceder no tempo, e como se esses tempos tivessem sido realmente tempos de felicidade coletiva e de harmoniosa relação com o ambiente.
Como era de esperar, o mundo imaginado a partir do conforto do ar-condicionado por gente que não tem nem nunca teve calos nas mãos, esquece que há um outro lado nessa história aparentemente edílica, e que a realidade está muito longe desse quadro de um povo feliz pintado num cenário terra sustentável, e que esse não é senão um mito urbano como qualquer outro.
De facto nesse tempo a fome grassava pelos campos deste país (onde vivia a maioria da população) e o trabalho da gente do campo era muitas vezes pior que o de escravos, porque esses, ao menos, tinham alimentação assegurada. Esquecem-se que geralmente nos melhores dias havia "uma sardinha para três", e que a gente sem relógio, se levantava ao primeiro cantar dos galos, e que por vezes caminhava durante horas até chegar, ainda de noite, ao local onde se ia mondar, cavar milho ou ceifar até ao pôr-do-sol… Esquecem-se que morriam no primeiro ano de vida perto de cem crianças em cada mil das que nasciam, que o analfabetismo atingia metade da população, e que todos os indicadores económicos, demográficos, sociais eram indignos da Europa do século XX. Esquecem também que a baixa produtividade implicou a expansão das terras cultivadas até ao bico das serras, e que erosão avassaladora da época ainda hoje se nota em vastas regiões do país, com implicações graves no ciclo da água, nos incêndios florestais, e na própria agricultura. Esquecem que se desenvolveram campanhas de "extermínio dos nocivos", orquestradas pelo próprio Estado, e que foi nesse tempo que se iniciou precisamente a destruição em massa da vida selvagem.
Ora os nossos adeptos do "bom rural" de outros tempos, confundem proteção do ambiente com subdesenvolvimento, e aparentemente não perceberam que é possível atingir boas condições de vida no respeito pela natureza e uso sustentável dos seus recursos. Também aparentemente não perceberam que ao colocar em alternativa "riqueza com degradação do ambiente", e "miséria com proteção do ambiente e seus recursos", estão não só a criar uma falsa alternativa, como também a prestar um péssimo serviço ao futuro do planeta e da vida que o ocupa (com o ser humano incluído, claro), por darem a ideia que não é possível o desenvolvimento sustentável.

O autor utiliza o novo
Acordo Ortográfico



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