12h08 - quinta, 30/07/2020

A política e o ambiente


Fernando Almeida
A política deveria ser um exercício nobre de abnegado altruísmo e entrega, assente no rigor, na verdade e na procura constante do bem comum. No entanto, muitas vezes parece ser exatamente o contrário: uma atividade de busca de benefícios individuais, de pequenos grupos ou dos amigos, mais preocupada com o triunfo pessoal dos envolvidos e com uma cega perseguição à popularidade e às conquistas eleitorais. A lógica populista, infelizmente, inundou mentalidades e estruturas partidárias, e o mais importante deixou de ser "servir o povo" e passou a ser conquistar o povo para o sucesso do indivíduo, do grupo ou do partido. Alguns dos que em público mais se insurgem contra os populismos, acabam por perder a dignidade e, pelo menos aos meus olhos, toda a credibilidade, por usarem métodos semelhantes.
Não é de estranhar que as maiores preocupações da atualidade passem pelos problemas do ambiente, e também não é de estranhar que o debate político tenha intervenientes que se envolvem por vezes encarniçadamente na defesa dos seus valores ou interesses. Até aí tudo bem. Não só é legítimo, como é mesmo desejável que os gravíssimos problemas do ambiente sejam alvo de debate, até porque o pior que nos pode acontecer é que esses problemas sejam ignorados como se não existissem ou não tivessem a gravidade extrema que realmente têm. Mas essa urgência e essa justa preocupação com o ambiente, seja no que toca às alterações climáticas, seja na perda de biodiversidade, seja na contaminação e gestão da água, seja na qualidade do ar que respiramos, ou em tantos outros problemas graves que temos entre mãos, não pode justificar a falta de rigor, as meias verdades ou as mentiras totais e evidentes. Nesta situação estão algumas afirmações que se têm feito sobre a nossa agricultura.
Os problemas ambientais que podem resultar do desenvolvimento da agricultura moderna da costa sudoeste preocupam qualquer pessoa de boa formação e atenta ao mundo. Se onde antes estavam pastagens naturais hoje há campos agrícolas com culturas não tradicionais praticadas debaixo de plástico, é natural que haja justificado receio sobre as eventuais consequências negativas que essas atividades podem ter para todos nós. No entanto, não convém, para não perder a razão que se possa ter na luta pela proteção do planeta, argumentar com falsidades ou problemas inexistentes. Esse é o caso do alegado "enorme consumo de água que existe nas estufas", que só quem tenha falta de conhecimento ou falta de boa-fé, possivelmente mais preocupada com resultados eleitorais dos seus grupos que com o nosso bem-estar coletivo, alega existir.
Na verdade, a agricultura praticada nas estufas faz um uso muito mais comedido e racional da água que os campos de milho, de relva ou de muitas outras culturas agrícolas tradicionais de ar livre, ou mesmo que as pastagens regadas. É, portanto, completamente falso que a agricultura praticada nas estufas seja responsável por uma redução significativa da disponibilidade de água do sudoeste. Pelo contrário, algumas culturas "verdinhas", com as quais ninguém parece estar preocupado, são um efetivo problema, não só pelo brutal consumo de água, mas também por vezes pelo uso e abuso de fertilizantes e herbicidas que inevitavelmente escoam para a rede hidrográfica ou penetram na toalha freática. Outro enorme consumidor de água são os milhares de hectares de eucaliptos, que secam ribeiros e nascentes, e com eles também parece que ninguém se preocupa.
Mas a falta de rigor, próxima da demagogia populista, acena com as estufas e não com as culturas agrícolas que realmente consomem mais água, porque não dá votos criticar os campos bem "verdinhos" de prados regados para pastagens ou os milharais, porque criam paisagens bonitas, amigas do turismo e agradáveis para os padrões estéticos dos intelectuais que dirigem algumas campanhas políticas…
Em muitos casos, a agricultura "intensiva" praticada nessas estufas tão criticadas, também é menos preocupante que os bem tolerados relvados, onde a biodiversidade é quase zero, onde a água se usa em quantidades imensas e onde os agroquímicos são abundantes. Mas esses campos passam sem crítica no crivo destas campanhas. E porquê? Certamente porque não é popular e não dá votos. Isto é, na minha opinião, falta de rigor, falta de seriedade e, na prática, lógica populista em ação.
Entre outros aspetos deste populismo disfarçado de pensamento progressista e preocupado com o ambiente, está a forma demagógica como se referem aos emigrantes que vêm trabalhar na agricultura, e mesmo a forma como tentam aproveitar a natural desconfiança da população local face a gentes com outro falar, outras roupas, outra cultura, eventualmente outras religiões. Sem querer parecer racistas, sempre vão dizendo que estão cá a mais, como se gente que quer apenas governar a vida fazendo o trabalho que nós mesmos não queremos fazer, pagando impostos e fazendo descontos que ajudam a pagar as nossas reformas, estivesse cá a mais por usar os serviços públicos. No entanto, não os vejo protestar pela utilização de serviços públicos que é feita por outros emigrantes, mas estes europeus, muitos dos quais não estão entre nós por necessidade, mas apenas por gosto, e que evidentemente, também os usam. Que aconteceu à defesa dos trabalhadores, dos pobres, dos desvalidos? Imigrante, se for loirinho, europeu e rico, não é problema, mas se for asiático e usar turbante, e precisar de ganhar a vida, já estorva!
Por isso, peço sinceramente aos que mais encarniçadamente desenvolvem campanhas contra a agricultura moderna do sudoeste, para não usarem argumentos demagógicos e de aspeto populista. Parem! O ambiente é assunto muito sério, e não deve ser usado para joguinhos políticos centrados no "eleitoralismo barato".
No que respeita ao ambiente só a verdade serve, só a verdade interessa e deve ser usada. Tudo o que sejam meias verdades destinadas a enganar os mais distraídos devem ser excluídas do debate sobre o futuro do planeta e dos nossos filhos. O engano, a demagogia, as meias verdades, até podem dar alguns votos a curto prazo, mas não nos servem para a proteção do ambiente e, em boa verdade, também não servem para uma política honesta e de gente que se preocupe a sério com o futuro de todos nós.
Quanto aos imigrantes, venham eles de onde vierem, que "seja bem-vindo quem vier por bem!"

O autor utiliza o novo
Acordo Ortográfico



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