17h19 - quinta, 26/11/2020

Aves: da predação à observação!


António Martins Quaresma
1. Todos nós, os mais velhos, que vivemos em pequenas vilas e aldeias, recordamos a existência de uma cultura de predação relativamente aos animais silvestres. Uma das classes mais sacrificadas eram as aves. Desde a prática infanto-juvenil de "ir aos ninhos", às armadilhas, às redes, às espingardas, de pressão de ar e de fogo, havia toda uma diversidade de práticas e instrumentos predatórios usados nesta popular tarefa. E não eram só a espécies consideradas cinegéticas (perdizes, tordos, galinholas), mas praticamente todas elas. Havia, porém, excepções: a ninguém lembraria caçar as corujas que viviam em buracos nos muros do castelo, cujo pio muitos consideravam lúgubre, nem as gaivotas, tidas, sem opinião unânime, por intragáveis por se alimentarem de peixe.
Recordo um rapaz, ainda criança, aproximadamente da minha idade, que ganhava algum dinheiro com os pássaros, em particular os abibes que ele conseguia apanhar em significativa quantidade, nas manhãs frias de Inverno. Em muitas casas havia duas ou três armadilhas de mola de arame, que se instalavam nos quintais, destinadas aos pardais, essa espécie malquerida que as antigas posturas municipais procuravam exterminar por a considerarem daninha para as searas. Em minha casa, havia, na pessoa de meu pai, um activo caçador (e pescador), que, em duas ou três viradas da rede, a propósito montada no bebedouro, capturava dezenas de estorninhos, que ele próprio transformava em saboroso petisco.
É verdade que certas aves faziam, frequentemente, parte do ambiente doméstico. Pelo seu apreciado canto, em não raras habitações viam-se gaiolas com aves em cativeiro, desde o canário de compra ao pintassilgo aprisionado localmente. Mas a urgência alimentar ou o prazer de um pitéu ditavam a regra quando se tratava de pássaros.

2. A vida mudou muito nas últimas décadas e a sociedade em que vivemos não é a mesma, nos hábitos quotidianos, nos costumes alimentares, mesmo na atitude humana em relação à natureza. A própria legislação condiciona muitas das práticas antes toleradas. Hoje, a caça foi, em boa parte, substituída pela observação, a arma ou armadilha pela máquina fotográfica, e quando se captura uma ave é para a anilhar, não para a comer ou colocar em cativeiro. O birdwatching, segundo o jargão anglófono em uso, faz parte dessa recente disposição contemplativa.
Vivo numa terra onde dois ornitólogos realizam um labor meritório, concerto de afeição e ciência, de busca e de inventariação de espécies, de registo fotográfico e disponibilização das imagens e de mais informação. Refiro-me ao Eng. José Manuel Góis e ao Prof. Rui Doudinho, cujos trabalhos fotográficos, resultado de incansável dedicação, têm sido disponibilizados na Internet e em livro impresso. Em 2018 foi editado, da autoria do segundo, um pequeno, mas belo e útil, livro intitulado Guia de Campo. Iniciação ao estudo e identificação de aves. Freguesia e zona envolvente de Vila Nova de Milfontes. E sei que José Manuel Góis prepara a edição de um soberbo álbum, merecedor de todo o apoio das entidades públicas locais.
No que me diz respeito, a sua actividade tem-me aproveitado muito e, embora o meu interesse seja anterior, desenvolvi o hábito de ouvir os meus vizinhos melros e calhandras, de procurar lobrigá-los nos telhados e nas árvores, e, quando passeio pelo campo, de buscar a imagem colorida dos abelharucos ou o peculiar perfil da poupa, ou, ainda, de deixar-me surpreender por uma espécie que não sou capaz de identificar.
Além da dimensão estética, dir-se-á, até, poética, deste trabalho, estamos, sob o ponto de vista do conhecimento, perante a elaboração e disponibilização de um valioso corpus, passível de despertar muita gente para o mundo fascinante da avifauna silvestre. Em última análise, contribui para uma, cada vez mais, necessária educação ambiental. Um verdadeiro "serviço público", portanto.



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