15h54 - quarta, 23/12/2020

Henrique Schreck


Rui Graça
Foi um privilégio conhecer o Henrique, para mim que chegava de Lisboa, para o meu estágio profissional na Câmara Municipal de Odemira, na viragem do milénio. Foi como o contacto com um "druida" que falava de arquitectura numa linguagem nova e fascinante, de ligação à natureza, aos ciclos e, claro, de ligação à terra no seu aspecto físico e cultural. A obra do Henrique transpira um carácter artesanal e orgânico, desde os primeiros esboços, passando pelas quentes perspectivas desenhadas à mão, que transmitem calor e simbolismo ao qual não ficamos indiferentes. Sempre admirei a subtileza como o Henrique integra no seu trabalho os diversos pormenores que constituem o vasto e riquíssimo vocabulário da arquitectura tradicional alentejana, a forma das chaminés, os beirados, os desníveis de adaptação ao terreno, a aplicação das tijoleira sem criativas estereotomias...

RG - As suas obras revelam uma grande atenção ao pormenor, muitas vezes em clara exaltação da arquitectura alentejana. Quais as fontes de inspiração para o desenvolvimento da sua linguagem arquitectónica?
A atenção aos pormenores resideno simples facto de a vida ser feita de pequenos nadas; a preocupação do detalhe deve-se à consciência de que um pequeno detalhe pode desfigurar uma obra. Dois anos antes de acabar o curso de Arquitectura na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa, e estando já a trabalhar num atelier com alguma dimensão, tive acesso a um artigo de Culot que me abalou a minha forma de pensar a profissão. Nesse texto, Maurice Culot falava da importância de construir com materiais recicláveis em detrimento dos restantes. Fiquei a pensar desde então nesta questão com mais profundidade e alguma angústia misturada, dado que na altura todos os projectos eram construídos sem esta preocupação; estávamos em 1978.O contacto com o Arq. Bartolomeu Costa Cabral trouxe-me, para além de boas aprendizagens gerais, a ideia de adaptar a construção às questões energéticas emergentes. Quando comecei a minha actividade como profissional liberal independente encontrava-me no Alentejo dado um acaso do destino, e deparei-me com este fantástico material - a terra - capaz de construir quase tudo. A minha primeira experiência foi através da recuperação de um antigo monte, onde aprendi imenso, e me suscitou de uma forma irresistível a vontade de também vir a construir assim de novo, de raíz; estávamos em 1988, dez anos depois do tal artigo de Culot! Colocava-se-me então a seguinte questão: como fazer de raíz? Eu não sabia, nenhum construtor da zona sabia; como ter um cliente para poder aliciar um construtor? Tinha feito alguns projectos em terra, mas ainda sem a experiência; resolvi então fazer a minha própria casa; tinha recorrido a um velho pedreiro que na altura tinha setenta e tal anos, o qual me deu uma ajuda preciosa com a sua paciência e um certo orgulho em ver que o seu saber ainda servia para alguma coisa; com ele aprendi as coisas básicas, desde a escolha da terra, passando pela sua humidificação, até à sua compressão nos taipais. Fiquei-lhe eternamente grato pela sua generosidade e paciência. A construção da casa que desenhei, construí e onde vivo desde então foi um marco para mim. Durante um ano nela participei, desde as fundações ao telhado, experimentei muitas coisas (se dessem errado o problema era meu!) e senti-me apto a aconselhar esta forma deconstruir, que me parece a mais correcta para esta região, quer em termos de conforto para quem a habita, quer em termos ecológicos, pois a construção, avida e a destruição, acabam por ser um ciclo perfeito, com uma pegada reduzida: a terra que faz a casa volta para a terra de onde veio.

RG - Se a imagem tem uma importância fundamental na obra de um arquitecto, eu reconheço que no seu trabalho há princípios dos quais não abdica e que, a meu ver, dão muita consistência ao seu trabalho. Ou seja, a sua obra, mais do que parece, é! Podia explicar os princípios fundamentais que pautam a sua obra?
Esta compreensão do ciclo natural, leva-me a preferir a simplicidade à egocêntrica atitude de afirmação pessoal. Ao percorrer uma rua e caso aconteça determinada construção nos chamar a atenção, das duas uma: ou é uma peça de excepcional valor, ou é um mamarracho. A discrição baseia-se numa correcta implantação em primeiro lugar; a harmonia com a envolvente é importantíssima, o respeito por aquilo que existe antes de eu chegar: um poço, uma árvore, um muro, ou edifícios envolventes com a tal qualidade. Perguntava alguém numa conferência, como distinguir a qualidade da falta dela. Só me ocorreu responder, perguntando ao meu interlocutor se sabia a distinção entre ruído e música, pois ambos são som. Quantas vezes nos deparamos com formas sem conteúdo? E, no entanto, arquitectonicamente todo o conteúdo tem forma, melhor ainda, na boa Arquitectura, a forma é o resultado do conteúdo. Nunca faço uma habitação para outros como se fosse para mim: trabalho para os outros, tenho de perceber para quem estou a trabalhar de modo a, pegando na sua forma de vida, poder melhorá-la: mais segurança, mais conforto, mas também mais diversão. Espaços monótonos e absolutamente funcionais, não levam à felicidade por muito seguros e confortáveis que sejam. Parto do princípio que o Arquitecto é, em primeiro lugar, um construtor. Quando comecei a construir em terra, tive de aprender como se fazia. Apercebi-me porque é que os montes alentejanas ficam tão bem enquadrados na paisagem: cérceas baixas, vãos pequenos, inclinações suaves das coberturas...e houve quem chamasse a esta atitude, "tradicionalismo". Efectivamente, da tradição sempre apreciei a brasa, não a cinza.

RG - Eu sei que o Henrique é muito procurado para apoiar cursos de mestrado que se debruçam sobre a construção em terra. Parece que há um interesse académico cada vez maior pela construção em taipa e que a mesma está cada vez mais a ser considerada uma técnica de vanguarda. O que há de tão inovador na construção em taipa, a casa dos nossos avós?
Eu diria antes, o que há de novo nas nossas casas que podem ter semelhança com a dos nossos avós? A casa dos avós era em terra batida no chão, o tecto era vão ou em cana, a água vinha do poço a balde e chegava. Avida alterou-se, hoje é impensável não ter internet, quanto mais casa de banho! Uma coisa é certa: o material com que hoje faço é o mesmo - a terra - muda-se é o conforto interior e adapta-se às novas exigências. Penso que a procura de alunos que me abordam para acompanhar mestrados ou estágios profissionais, nasce da própria universidade que ganhou uma consciência ambiental e impulsionou o conhecimento de técnicas alternativas ao betão. A simples longevidade do betão ou da terra dá que pensar: falamos de séculos contra milénios, com a agravante de um dia ser difícil saber onde colocar o betão destruído. A taipa, pelo seu lado, ao morrer volta para a terra que lhe deu origem, e pode, inclusivamente ser usada para construir de novo, ou para as plantas nascerem de novo. Nunca vi reutilizar o betão usado para argamassar! Ao introduzir disciplinas de materiais construtivos alternativos, a universidade gerou uma curiosidade e apetência interessante nos alunos: alguns apaixonam-se de tal maneira que chegam ao fim dos seus cursos e projectam em terra, e não só em Portugal, tendo eu o prazer de acompanhar os seus projectos e obras

RG - A construção em taipa foi efectivamente a construção popular do Alentejo até aos anos 40, cerca de 80%das construções de todo o Alentejo eram em taipa até essa data. O interesse da construção em taipa nos nossos dias está longe de se popularizar. Eu diria que ainda é uma elite que se interessa e procura construir em taipa. Na sua experiência de 25 anos a projectar em taipa é possível traçar um perfil do seu cliente?
Reintroduzir a técnica - taipa - cinquenta anos depois de ser abandonada, não foi tarefa fácil. Para se ter uma ideia, se ao princípio, num ano fazia um ou dois projectos, foram precisos muitos anos para, como agora, os outros materiais serem a excepção das opções construtivas. Daí eu achar que, pelo o contrário, a taipa se tem vindo a popularizar, haja em conta as dezenas de milhar de metros quadrados projectados e construídos. O perfil possível do cliente que procura a construção em terra é, neste momento, pessoa informada, desde licenciados a jovens agricultores, artistas, empresários e empregados de serviços; a procura é muita e sobretudo expande-se pela qualidade da sua vivência.

RG - O Henrique nos últimos anos, tanto quanto sei, tem cada vez mais projectos em taipa para executar e num raio de incidência também cada vez mais alargado. Neste momento trabalham consigo dois jovens arquitectos igualmente absolutamente dedicados à causa da construção em taipa. Que evolução prevê para a construção em taipa nos próximos anos?
Prevejo um crescente interesse e procura. Neste momento, como disse, existe uma grande procura e com programas diversificados, bem como o raio de acção, desde Lagos a Santiago do Cacém epara o interior, até Évora. Como consultor, em Portugal desde o Porto a Lisboa, e no Alentejo desde Setúbal, Montijo, Reguengos de Monsaraz, Borba; no estrangeiro, América do Sul, Itália e Alemanha são as maiores solicitações. De há uns anos a esta parte comecei a trabalhar em conjunto com a Raquel Cunha e o Pedro Neves, dois jovens entusiastas da construção em terra, e tem sido de grande utilidade para todos; a sua presença constitui uma lufada de ar fresco, com novas ideias e uma grande energia. Por outro lado, acho que estamos a contrariar uma péssima tendência em Portugal: a falta de comunicação entre gerações. O futuro afigura-se promissor, tendo em conta estas décadas recentes.

As obras do Henrique, mais do que referências do movimento de construção contemporânea em taipa, são autênticos protótipos de contraponto à globalização na arquitectura que tantas vezes resulta na descaracterização da arquitectura regional…









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Data: 09/04/2021
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