15h48 - quinta, 28/01/2021

Thomas e Tabea Wiemer


Rui Graça
Que a Ordem dos Arquitectos não me excomungue imediatamente por apresentar uma crónica sobre uma casa cujo autor não é arquitecto, pelo menos até ler o texto até ao fim.

Genuinamente não sei, nem o dono da obra sabe, se o técnico que submeteu o projeto a licenciamento, em 1992 era arquitecto, engenheiro ou desenhador técnico. O facto é que o autor moral e intelectual é o brilhante escultor Thomas Wiemer, juntamente com a sua mulher, a não menos brilhante artista, Tabea Wiemer.

Se o exemplo arquitectónico desta casa em taipa é muito particular, pelo perfil dos seus donos/autores e pelas condições em que ocorreu a sua construção, a verdade é que ela espelha bem os princípios que estão na base do movimento de reutilização da terra como material de construção que está em curso no Alentejo.

O que o levou a ponderar construir em taipa a sua casa? Foi uma decisão imediata, apaixonada, ou foi uma decisão ponderada?
Thomas Wiemer (TW) - A taipa ou a construção em terra não era novidade para nós. A expressividade da taipa já nos tinha marcado bastante quando visitámos África. Se é evidente o impacto da matéria terra sobre o homem comum, para nós, muito ligados à arte e à escultura, o potencial da terra como elemento construtivo e também escultórico é ilimitado…
Se a beleza, a espessura e a textura das paredes nos apaixonava, o argumento económico deixou imediatamente de lado a possibilidade convencional de construir em betão e tijolo. Na altura tínhamos muito pouco dinheiro e algum tempo, tínhamos disponibilidade para trabalhar (em 1995 não era necessário um alvará de construção para a realização da obra, apenas era necessário o acompanhamento de um engenheiro que se responsabilizasse tecnicamente. Lá arranjámos um engenheiro que se responsabilizou pelo que fazíamos e a obra seguiu...), a terra era gratuita e, quando juntámos o monte que se iria transformar em paredes estruturais imediatamente nos apercebemos da preciosidade deste recurso!


Se ficou claro na vossa resposta ter sido quase inevitável ter sido a taipa o método construtivo eleito para a vossa casa, não deixa de me intrigar a vossa opção estética. Por que razão um casal de escultores, de reconhecida criatividade e irreverência, elege uma linguagem arquitectónica tão tradicional para a vossa casa?
TW - Precisamente pela beleza dessas mesmas construções tradicionais! Ficámos de tal maneira fascinados com a dignidade e pureza das casas antigas da região que um dos projectos que ainda começámos a realizar foi um levantamento fotográfico de todas essas construções, para um livro (infelizmente a falta de disponibilidade pela construção da nossa casa não nos permitiu continuar esse projecto). A arquitectura alentejana foi realmente uma fonte de inspiração para nós, que chega a influenciar também o nosso trabalho como escultores. É absolutamente incrível a dignidade de muitas construções antigas, mesmo em avançado estado de ruína…
Constatámos também que as casas rurais antigas tinham uma tipologia que nos agradava, havia uma grande independência entre divisões, com muitos compartimentos autónomos, com entrada directa para a rua. Permitia-nos a liberdade de utilização que desejávamos.
Finalmente, se estávamos em Portugal, pareceu-nos absolutamente lógico que nos integrássemos na região e na comunidade. A taipa despertou grande interesse entre os nossos vizinhos, maioritariamente velhotes. Aproximaram-se de nós e assistiram à construção como se rejuvenescessem. Não podíamos imaginar a abertura e generosidade com que nos brindaram e a taipa foi certamente relevante no estabelecimento desse contacto.


A primeira obra "moderna" em taipa no Alentejo, do que se conhece, foi o atelier de pintura do arquitecto Alexandre Bastos, concluído em 1993. É curioso quando referem que os vossos projectos datam de 1992 ou 1993 e que se mudaram para a vossa casa em 1995, ou seja, por pouco não foi a vossa casa a primeira casa "moderna" em taipa!
Na altura em que a reutilização da taipa estava a dar os primeiros passos, encontraram algum construtor que os ajudasse? Recorreram a algum arquitecto para vos auxiliar no processo de construção?

TW - Como já referimos, bebemos a integração e a lógica construtiva das antigas casas da região. O estado de ruína de muitas dessas construções acabou por revelar aspectos construtivos importantes.
Para as questões técnicas baseámo-nos essencialmente em livros alemães sobre a matéria. A reutilização da terra para a construção civil teve alguma importância na Alemanha no pós-guerra, foi uma necessidade construir do chão... Houve alguns arquitectos a escreverem e a sistematizarem a construção em terra. Os livros contêm ensaios empíricos e práticas necessárias para o bom resultado e resistência das construções.
Confesso, mesmo como escultor e estando naturalmente muito atento à resistência dos materiais, que estava muito longe de imaginar o que a taipa aguenta. Construímos paredes interiores estruturais, com 4 metros de altura, onde a base (já descofrada, sem taipais) nem mexia quando compactávamos o topo, e a compactação das paredes da nossa casa foi efectuada com meios mecânicos, parecidos a martelos pneumáticos.
Quando estávamos a construir a nossa casa tivemos a visita dos arquitectos Alexandre Bastos e da sua mulher Teresa Beirão. Vim a conhecê-los mais tarde, inclusivamente porque o Alexandre Bastos também é artista e nos cruzámos em iniciativas da nossa associação de artistas de Odemira, a sopa de artistas.
Tomei consciência mais tarde que a técnica da taipa que utilizámos na nossa casa é diferente da técnica desenvolvida pelos arquitectos da região o que essencialmente revela a flexibilidade e tolerância do material a diferentes técnicas.


Ao fim de 23 Anos a viver numa casa em taipa, acham que optaram pela construção certa?
Tabea W - (de olhos bem abertos e com a voz entusiasmada) - Sem dúvida nenhuma!!! Nunca teríamos o ambiente desta casa com uma construção em tijolo! Parte da casa está fechada durante grandes períodos, uma vez que os nossos filhos já não moram connosco e, mesmo assim, não há sinal de bolores ou humidades, o ambiente é fantástico, particularmente agradável no Verão uma vez que a casa se mantêm muitíssimo fresca, sem qualquer ar condicionado. No inverno, como a casa tem um volume muito grande é mais difícil aquecer mas, como temos madeira suficiente no nosso terreno, conseguimos manter a casa quente sem gastarmos dinheiro.

TW - A taipa permite uma construção sempre única e de grande personalidade. A característica orgânica da terra parece dar vida às paredes que são inevitavelmente diferentes, mesmo de casa para casa de taipa. Acabámos por nos ligar afectivamente à construção, de tal maneira que os nossos três filhos nos proíbem liminarmente sequer de considerar a venda da casa. Dizem que deixam de nos falar caso isso aconteça...



Voltando à introdução desta crónica, se por um lado está praticamente estabelecido o consenso que, só arquitectos podem subscrever projectos de arquitectura, o que é absolutamente lógico e desejável, essa conquista tem arrastado outro princípio, esse sim perigoso - obra de arquitecto não se discute, em linguagem arquitectónica - opções estéticas dizem respeito exclusivamente ao autor....
A burocracia (termos de responsabilidade, certificações, habilitações literárias e afins) é tida como necessária e suficiente para garantir a qualidade e correta integração das novas construções....

Poderíamos estar satisfeitos com o sistema alcançado, mas, se tivermos alguma honestidade verificamos que: Cerca de 90% do património arquitectónico protegido no Alentejo são exemplos de arquitectura popular ou tradicional, ou seja, sem autor e é essa arquitectura sem autor que as pessoas mais visitam; em sentido contrário, salvo honrosas excepções, a arquitectura recente tem sido a principal responsável pela perda de identidade de muitas das nossas terras e pela produção da maioria dos mamarrachos que todos identificamos como tal.

Sabemos que a construção civil está sujeita a muitas pressões, políticas, económicas e sociais. Como se não bastasse, muitos projectos ainda têm a pressão do ego dos seus autores... É precisamente neste contexto que a classe dos arquitectos não pode adormecer perante a importante conquista da revogação do famoso Decreto-Lei 73/73, que deixa caminho livre para só arquitectos exercerem arquitectura. Este direito deve trazer consigo a responsabilidade de envolver toda a sociedade, precisamente com informação e cultura, para que seja cada vez mais claro para todos, arquitectos e não arquitectos, os critérios de qualidade desejáveis. A sociedade envolvida, exigente e informada será como um bom cliente e contribuirá invariavelmente para melhores obras.

Em suma, se a formação é decisiva para garantir qualidade nas intervenções arquitectónicas, não me parece que seja suficiente na ausência de cultura, respeito e humildade. É por esta razão que a história da casa do Thomas e da Tabea pode ser tão inspiradora para arquitectos que abordem uma nova região.









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