14h52 - quinta, 25/03/2021

Nós e os outros animais


Fernando Almeida
Há coisas que atualmente não se devem escrever nas páginas dos jornais, nem se devem dizer em locais públicos, nem junto a certas pessoas, mas eu digo-as de qualquer forma. É claro que não quero magoar ou ferir a sensibilidade de ninguém, e por isso tenho o cuidado de avisar: se confunde as pessoas com os animais, se julga que estamos todos no mesmo patamar de entendimento, cultura e responsabilidade, então, não continue a ler este texto. Respeito os que não pensam como eu, mas evidentemente exijo ser respeitado na minha forma de pensar.
Na verdade vivemos numa sociedade que tradicionalmente tenta criar diferenças artificiais entre animais e humanos (e mesmo entre os diferentes grupos de humanos) como forma de justificar o domínio e a utilização do "outro". Usamos os animais para trabalhar e para nos servir, mas também tivemos durante muito tempo escravos que tratávamos quase do mesmo modo, e bem vistas as coisas ainda há quem continue a olhar para o seu semelhante como um "recurso" que pode ter utilidade para criar riqueza, e pouco mais. Continua a haver quem confunda as pessoas com os outros animais…
Mas hoje não vos vou falar dos que tratam as pessoas como animais, mas antes dos que tratam os animais como pessoas. São, do meu ponto de vista, duas formas distorcidas de ver o mundo, criadas em qualquer dos casos por ideologias extremistas que não me parecem aceitáveis.
Os psicólogos saberão melhor que eu explicar o que se passa com algumas pessoas, mas a mim parece-me que quando se trata os animais domésticos como pessoas, ou mesmo com mais cuidado e carinho que aquele que se consegue dispensar às pessoas, alguma coisa não está bem. Em alguns casos será uma transferência de afetividade e do relacionamento de maternidade/paternidade não consumada, e isso percebe-se. Entre os animais selvagens também acontece e há até casos de leoas que não conseguindo ser mães "raptam" crias de herbívoros que tentam criar como suas (sem sucesso, evidentemente). Parece que enquanto adultos temos alguma necessidade de ser "cuidadores" de seres que necessitem de proteção, e assim, na falta de crianças, sempre se pode cuidar e acarinhar um cachorrinho ou um gatito. Compensa de algum modo o vazio que se sente, também faz "gracinhas", também dá cuidados, cria obrigações… afinal ocupa o espaço da criança que lá não está. Num país em que a natalidade caiu a pique, é natural que este fenómeno cresça.
O estranho não é tratar bem os animais, mas antes esquecer que por muito que lhes possamos chamar de "meninos", "bebés" ou outros nomes de mimo, os animais continuam a ser animais. O cão, mesmo que alimentado com ração "vegan", continua a ser um carnívoro, provavelmente só mais infeliz que os outros, por andar com aquele casaquinho irritante que o mata de calor cada vez que dá uma corrida. E é evidente, por muito que isso custe aos seus donos, que um dos seus maiores prazeres continua a ser rebolar-se na bosta de vaca fresca ou no estrume de porco… Que diabo, é um cão, não é uma pessoa, por que raio haveria de pensar e se comportar como pessoa?
Quanto aos gatos, aposto que os que andam magros e arranhados no campo a caçar ratos e pássaros se riem dos que depois de castrados e gordos vivem vidas mortalmente desinteressantes num apartamento, e em que a coisa mais excitante que têm na vida é a mosca que entrou pela janela ou o boneco de trapos que atira ao ar quando imagina que está a caçar. Mas os donos gostam de pensar que o seu gato gordo e castrado do quinto andar direito, que morre de tédio dias seguidos sozinho em casa, é feliz… coitados (dos donos e, mais ainda, dos gatos).
Atualmente alguns até parece que julgam que os cães e gatos são pessoas com quatro patas (mas ainda assim, pessoas), e por isso os tratam em conformidade. O seu cuidado com os animais corresponde por vezes a um desprezo quase a roçar o ódio pelos humanos, que consideram causa de todos os males do mundo (um bom psicólogo também saberá explicar isso, mas para mim deve tratar-se de um qualquer trauma antigo nascido de uma má relação, de uma traição, de algum sentimento de culpa, ou algo do género). Julgam que o ser humano é uma espécie que merecia a extinção, que está a mais no planeta, e que qualquer animal apresenta mais virtudes humanas que os próprios humanos: acham os bichanos mais generosos, mais leais, mais justos, enfim, mais humanos…
Como costuma acontecer com as novas doutrinas, os seus seguidores são de um radicalismo assustador, e acham-se na posse da nova "iluminação" e na obrigação de a difundir e impor, e é esse radicalismo que me preocupa.
Ninguém de bom senso preconiza que os animais sejam mal tratados, ou que se lhes cause sofrimento desnecessário. Isso está evidentemente fora de questão. Mas também ninguém de bom senso deve esperar que os animais se comportem como humanos, e que em consequência tenham os mesmos deveres e direitos que nós. Quando vejo algumas pessoas e instituições a tentar equiparar os direitos dos animais aos dos humanos, e a tentar impor essa nova doutrina a todos nós, fico realmente preocupado.



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