15h41 - quinta, 17/06/2021

O mundo e as notícias que nos dão dele


Fernando Almeida
Como se costuma dizer, notícia é quando o homem morde o cão, não quando o cão morde o homem. O critério compreende-se, mas de tantas vezes que nos contam que o homem mordeu o cão, e porque nunca nos dizem que o cão mordeu o homem, somos por vezes levados a acreditar que os homens andam por aí a morder cães a torto e a direito, e que os cães já nem mordem as pessoas… Mas na verdade, os homens não mordem os cães, ou isso é algo de absolutamente raro e extraordinário, mas o contrário, embora não seja notícia, é na realidade o mais comum.
Baseado neste princípio de noticiar o extraordinário e nunca falar do que é comum, somos bombardeados pela comunicação social com notícias que desvirtuam a realidade da nossa sociedade e criam a imagem distorcida do mundo, e em especial do nosso país. No que se refere a Portugal, fazem-nos pensar que está cheio de problemas, que tudo corre mal, e que é um país sem solução. Não é por acaso que nos regimes políticos autoritários uma das atividades mais cuidadas é o controlo da informação… Quem tenha vivido no tempo da "outra senhora" lembra-se, por certo, que a imagem que o regime dava do país criava nos portugueses, em geral, a ideia de que vivíamos num "cantinho abençoado por Deus", onde reinava a paz e a harmonia, feliz e sem problemas. Até os desastres naturais, como por exemplo as cheias que assolaram a região de Lisboa em 1967, foram branqueadas fazendo-se crer que tinham tido consequências muito menores que realmente tiveram. Se no "Estado Novo" se criava a ilusão de que tudo corria bem e que nada de mau se passava entre nós (e essa imagem perdura na memória de certos saudosistas que ainda acreditam que o país era um paraíso), hoje parece que as notícias só falam daquilo que corre mal e criam uma imagem de nós próprios e do nosso país distorcida para pior. E às vezes até parece coisa organizada e propositada…
Sabemos que quem tem poder gosta de controlar a informação: fora dos regimes democráticos, quem domina o aparelho de Estado tenta criar algum tipo de censura para impedir que se divulgue tudo o que seja desvantajoso para quem governa; mas um tanto por todo o lado quem tem poder económico, compra órgãos de comunicação social, mesmo que disso não tire qualquer lucro direto, para que possa discretamente manipular a informação que se difunde e daí possa tirar vantagens indiretas para si e para os seus. Ao contrário do tempo da "outra senhora", em que se tentava dar a entender que em Portugal (que efetivamente era um dos países mais miseráveis da Europa) se vivia às mil maravilhas, hoje parece que alguém está fortemente interessado em criar em todos nós a ideia que tudo vai de mau a pior, que somos um país que não evolui, sem moral e sem segurança, onde até os bons costumes se perderam, talvez, quem sabe, por culpa da liberdade e da democracia...
Mas na verdade…
Levantei-me do banco de jardim e inadvertidamente a carteira ficou lá, esquecida na companhia do telemóvel e de documentos vários. Entrei no automóvel e conduzi perto de 30 quilómetros até que um telefonema feito para a minha companheira informava que os meus bens estavam na posse da GNR. Tinham sido recolhidos e entregues por alguém que os vendo ali esquecidos se deu ao trabalho de os levar ao posto da Guarda. Foi um homem, nome José António Santos, serralheiro de profissão, natural de Gouveia a trabalhar há muito na cidade de Mangualde. Encontrei-me com ele para lhe agradecer e tentei deixar-lhe uma compensação, mas ele não aceitou, dizendo que fizera apenas o que tinha que ser feito.
É claro que isto não é notícia. Seria notícia se alguém me tivesse assaltado, e se envolvesse violência, então seria notícia ainda mais interessante. O ideal era que metesse sangue, se possível mortes e se fossem muitas, melhor ainda… Mas não. O Sr. José António Santos possivelmente nunca será notícia, porque é "apenas" um homem honesto e por certo pessoa bem formada, como felizmente a maioria dos portugueses. E que interesse tem para um jornalista falar de um homem comum, mesmo que seja um exemplo de bons princípios e cidadão às direitas? É claro que não tem qualquer interesse para o modelo de jornalismo que tem dominado a nossa comunicação social. O tema também não interessa a nenhum chefe de redação e ainda menos aos acionistas dos grandes meios de comunicação, com as televisões à cabeça. Para eles é preciso tratar coisas chocantes, escândalos, intrigas, coisa feia. E se não for feia, então faz-se parecer que o é…
Mas esta imagem que os órgãos de informação dão de nós próprios e do nosso país, em que se ignoram todas as coisas boas que temos e se ampliam (e às vezes até inventam) coisas más, cria na comunidade um sentimento de insatisfação, de alguma tristeza, que inclusivamente leva cada vez mais pessoas a deixar de ler, ouvir ou ver notícias, porque são quase depressivas. Além de fomentar uma sociedade cada vez menos informada (e portanto menos consciente dos verdadeiros problemas que temos, e disponível para os resolver), cria também uma sociedade de gente descontente, capaz de se entregar a um qualquer político oportunista que se aproveite da situação. E assim nascem os populismos demagógicos de todos os quadrantes, e esses, se alguma vez chegarem ao poder, vão certamente controlar a informação para parecer que tudo vai bem, mesmo que tudo corra tremendamente mal. A liberdade que felizmente temos, e que nos permite exprimir as nossas opiniões, também permite criar campanhas que pintam de negro a nossa realidade e que no fundo são o primeiro passo para acabar com a própria liberdade.
Por tudo isto, quando vir uma notícia a mostrar algo de mau em Portugal ou no mundo, lembre-se sempre que no mesmo dia aconteceram dezenas ou centenas de coisas boas que mereciam ser notícia, e que só não são porque o jornalismo que temos tem tendência a procurar e ampliar tudo o que é mau e ignorar e desprezar o que é bom.



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Data: 15/10/2021
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