17h17 - quinta, 29/07/2021

O tempora, o mores


António Martins Quaresma
1. No mês de Julho, uma turba de "betos" organizados desceu ao litoral alentejano, concretamente a Milfontes, e dedicou-se afanosamente a cometer inúmeras tropelias, em que se incluíram arruaças e vandalismos nocturnos. Como se já não bastassem os incómodos sentidos pelos residentes, em razão da afluência dos turistas "normais", durante a época alta!...
Seja qual for a origem social e geográfica dos "betos" – em geral tidos por "meninos bem", originários da linha de Cascais –, esta espécie de ritual iniciático, ou de momento libertador, juvenil não é aqui novidade. São recordados antecedentes, desde as temíveis "passagens de ano" da década de 1990 aos sucessivos períodos de férias estivais, de variado grau de desassossego, mas este ano voltou a assumir proporções que causaram alarme público. Milfontes parece ainda oferecer, para estes grupos juvenis, como já terá oferecido para os seus pais, uma imagem de terra por descobrir, onde não existe propriamente população, mas apenas servidores turísticos, e onde todos os devaneios de infracção se podem impunemente materializar. Convenhamos: os destinos turísticos possuem, tendencialmente, essa atracção de lugar iniciático e/ou libertador para este tipo de clientela.
Face à inicial impotência das autoridades policiais para controlar a situação, surgiram respostas espontâneas. Assim, foi criada uma página de Facebook, com o nome "Stop Vandalismo em Milfontes", onde se publicava sobre o tema, e um grupo constituiu-se em brigada vigilante para alegadamente conter as etilizadas incursões nocturnas da "betinagem", cujas práticas foram, a breve trecho, criticadas. Entretanto, a GNR acabou por reforçar a sua presença, inclusive com patrulhas a cavalo, e as coisas compuseram-se, não sem antes os media, televisões incluídas, despertados pelo alarido e por uma notícia inicial do "Público", agarrarem o assunto e o divulgarem.
Sendo certo que o tema tem contornos sociológicos e, até, ideológicos que se afiguram interessantes e merecedores de um estudo, o impacto concreto na vida dos moradores e a componente fortemente emotiva que revestiu sobrelevam qualquer outra consideração.

2. Apetece-me, em qualquer caso, olhar para a já longa história turística de Milfontes, não para fazer comparações valorativas dos sucessivos tempos da fácies turística local, que seria um exercício gratuito, mas para colocar o problema em perspectiva.
Parte das minhas lembranças pessoais desse tempo informou, de algum modo, o texto que elaborei, em 2002, sobre o turismo local com o título "O Turismo no Litoral Alentejano. Do início aos anos 60 do século XX. O exemplo de Milfontes", edição online, que pode ser encontrada numa rápida busca no Google. Apresenta um repositório, em visão diacrónica, do fenómeno turístico local. Relendo-o, quase 20 anos depois, noto-lhe, aqui e ali, algumas fragilidades, mas no geral acho que pode ser interessante para quem apreciar o assunto.
Evidentemente, essas antigas fases do turismo local reflectiam particularidades e práticas de uma sociedade que já não existe, material e culturalmente. Basilarmente, é suficiente dizer que a corrente eléctrica só foi instalada em Milfontes em 1965 e apenas por essa altura esta vila dispôs de uma estrada alcatroada, a única, espelhando a situação de atraso do país.
Hoje, a sociedade portuguesa é muito diferente. De forte predominância rural passou a uma sociedade com características urbanas e terciárias, implantaram-se melhorias como os sistemas de ensino e saúde universais, organizou-se politicamente através de um sistema estatal democrático, que, apesar dos pontos criticáveis, é incomparavelmente superior ao regime salazarista que o antecedeu, enfim a sociedade portuguesa modernizou-se. Em termos de mobilidade, verificou-se exponencial desenvolvimento dos transportes, que permite essa extraordinária movimentação sazonal de grande número de pessoas, designada por turismo. Porém, os últimos tempos, com a difusão do paradigma neo-liberal, uma crise económica e social tem minado a sociedade e exacerbado a polarização político-ideológica, favorecendo crispações.
Na minha infância e juventude, lá nos anos de 1950 e 1960, as coisas eram bem menos agitadas. Claro que a juventude sempre foi irreverente, mas a escala das travessuras não se pode comparar, até pelo pequeno número de banhistas, ademais grande parte deles habitués bem conhecidos, nesses tempos de antanho. Nada, portanto, que se pareça com a impessoalidade das actuais relações entre naturais e forasteiros.



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