11h11 - quinta, 02/09/2021

Repensar a proteção do planeta


Fernando Almeida
Há coisas em que geralmente não pensamos. Por exemplo, habitualmente ninguém se dá ao trabalho de pensar por que razão foram criados parques naturais nos países ricos do hemisfério norte. Aceita-se a sua existência e, quanto muito, tem-se opinião sobre o seu funcionamento, e é tudo. Mas eu acho que é necessário ir mais fundo, ir à raiz do fenómeno. Venham comigo!
No século XX criaram-se as áreas protegidas porque se percebeu que a degradação do território, da vida selvagem e dos habitats tradicionais estava a ser brutal, e havia a consciência que era impossível travar essa degradação na totalidade do território dos países ou regiões. Então, em desespero de causa, tentou-se proteger os últimos pedacinhos de território que ainda não estavam completamente perdidos para a fúria da economia selvagem que tudo cilindrava no seu caminho dominador, e criaram-se regimes de proteção especial para eles. Nuns casos foi sobretudo a pensar na conservação de espécies animais ou vegetais (que em pouco tempo se extinguiriam se não se fizesse alguma coisa), noutros casos foi para evitar o crescimento da urbanização caótica. Embora nem tudo tenha corrido bem, em boa hora foram criadas essas áreas protegidas, porque assim se evitaram males maiores para os territórios, para os recursos naturais que eles nos oferecem, para a vida selvagem e, evidentemente, para nós mesmos.
No entanto, é claro para quem acompanhe com atenção e conhecimento sério os problemas do ambiente em que vivemos, que as áreas protegidas foram uma solução de recurso, adotada apenas porque ao tempo não se conseguia fazer nada de melhor. Durante muitas dezenas de anos os malefícios da degradação do planeta foram desculpados em nome do crescimento da economia e da criação de riqueza: sabia-se por exemplo que no Tamisa sobreviviam apenas duas espécies de peixe, e que no Reno ancoravam navios para que as suas águas completamente envenenadas matassem as cracas e os outros organismos marinhos que aderiam aos cascos… Por todo o lado, a vida selvagem estava em regressão, com os rios a morrer, o ar cada vez mais envenenado, as florestas a sucumbir a chuvas ácidas… Mas tudo era desculpado por sociedades cada vez mais urbanas e afastadas da natureza, portadoras de uma fé quase mística na ciência, que se imaginava ser capaz de resolver todos os problemas e mesmo de "corrigir" o que a natureza "fizera de errado".
Passou muito tempo depois desse início de proteção de alguns pedaços do planeta, mas os problemas da Terra não só não se resolveram na escala necessária, como em muitos casos se agravaram. Hoje, embora se tenha melhorado o ambiente dos países desenvolvidos em alguns aspetos, estamos confrontados com desafios cada vez mais graves e de resolução cada vez mais difícil e incerta. A degradação da atmosfera, com as consequências conhecidas nas alterações climáticas é potencialmente apocalíptica; os oceanos, com a contaminação química crescente e empobrecimento da sua vida, têm que ser olhados com muita preocupação; a invasão dos plásticos é assustadora e pode ter consequências muito graves ainda mal conhecidas; os solos são erodidos e contaminados em larga escala; as florestas ardem descontroladamente; a perda de biodiversidade global está a atingir a dimensão de uma extinção em massa...
Se é verdade que conseguimos evitar a extinção do lince ibérico ou do tigre indiano, e isso foi bom, estamos a perder por todo o lado polinizadores e escaravelhos coprófagos, e tantos outros seres vivos que, embora menos mediáticos e visíveis, são possivelmente mais importantes para a globalidade do sistema Terra.
A política de proteção do planeta baseada em áreas protegidas mostrou não ser um caminho eficaz para a resolução dos problemas que nos afetam (e que necessitam de soluções muito urgentes) e por isso será necessário repensar a sua função e utilidade. Em relação a esta matéria algumas questões têm que ser colocadas: será que os territórios e as pessoas fora das áreas protegidas são menos importantes e merecem menos cuidado que os que vivem no seu interior? Será que mantendo ou até ampliando as áreas protegidas e as restrições às atividades humanas que nelas se vêm impondo, conseguimos travar os problemas realmente sérios que temos pela frente? Será que num mundo competitivo e em economia aberta se deve colocar em desvantagem económica quem vive, investe e trabalha nas áreas protegidas?
Ao olhar para os problemas realmente sérios que existem no mundo, parece-me evidente que não é nas áreas protegidas que conseguimos encontrar as respostas necessárias. Nem o aquecimento global, nem a contaminação dos oceanos, nem a perda de fertilidade dos solos, nem a degradação da vida selvagem, se resolvem pela existência de áreas protegidas, e mesmo apesar delas, todos estes problemas se têm agravado. Por isso, julgo claro que a busca de um modelo de proteção do planeta que garanta o nosso futuro terá mais cedo ou mais tarde que abandonar a lógica que tem seguido, em que há áreas protegidas e outras não protegidas, e centrar-se em políticas sérias de utilização racional e proteção dos recursos da natureza em todos os territórios dos países e regiões da Terra.
O tempo em que se conservavam pedacinhos do território com o modo de vida tradicional (com paisagens e gentes incluídas) e em que se degradava o resto do território a bem de uma economia predatória e sem futuro tem que dar lugar a um novo tempo, em que se consiga um desenvolvimento integral e sustentável de todos os territórios, para bem da natureza, das gentes que nela vivem e do futuro de todos nós.



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Data: 20/05/2022
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