16h05 - quinta, 28/10/2021

O valor da Educação


Fernando Almeida
Ainda antes de sair, virou-se para trás e disse serenamente: "Obrigado pela sua aula, professor", e passou tranquilamente a porta para o exterior. Eu, sensibilizado pelo reconhecimento, mas apressado pelos cinco minutos disponíveis para mudar de sala e de turma, como se de operário industrial em linha de montagem se tratasse, fui arrumando o computador e periféricos na mochila ao tempo que pensava naquelas palavras.
Não era a primeira vez que desta ou de outra forma alunos me agradeciam o trabalho, mas estranhamente, ou talvez não, tinham sido sempre jovens de origem estrangeira. Umas vezes da Europa de Leste, outras vezes mais para ocidente, também de África, da Ásia… Mas, que me lembre, nunca um português de Portugal teve essa atitude. Porquê? Por que motivo os portugueses não apreciam e valorizam quem lhes dá conhecimento? Desvalorizam o conhecimento? Desvalorizam quem os ajuda a aceder a ele? Ou desvalorizam ambas as coisas?
Tenho ensinado aos meus alunos que as explicações para fenómenos complexos raramente são simples. Costumo mesmo dizer-lhes que quando alguém nos atira com uma explicação simples para um problema complexo, essa explicação não é simples, mas antes simplista. Por isso, eu mesmo tenho tendência a evitar fazer abordagens desse tipo, e fujo daquela expressão muito usada por quem quer manipular os outros: "o problema todo é que…".
Seria tentador e apetecível descarregar a culpa da desvalorização da Educação e dos seus agentes numa causa apenas. Podia dizer-se, por exemplo, que a culpa toda é da classe política e de alguns ministros da Educação, que para pagar menos aos professores os desprestigiaram e desvalorizaram. Não será falso que alguns políticos, muito embora encham a boca com conversa fiada a respeito da importância dos jovens, do futuro, e da Educação (alguns até falam em "verdadeira paixão" pela Educação), depois, na prática contribuem para o desprestígio dos professores e da escola no geral. Sabemos também que o desrespeito pela escola e seus atores pode ser relacionada diretamente com verdadeiras campanhas contra a escola pública, feitas, quem sabe, para poder entregar chorudos rendimentos dos serviços de educação a alguns colégios privados… Soubemos de muitos casos de favorecimento de "empresas privadas de educação" que acabaram na barra dos tribunais.
É fácil perceber que na sequência de campanhas na comunicação social contra a escola, e em especial contra os professores, se multiplicaram as ações violentas contra ambos da responsabilidade de pais com pouca formação e dos seus filhos pouco educados… O Estado, em vez de exaltar tudo o que a escola pública fez pelo país e ajudar a corrigir o que de menos bom acontece, afincou-se a explorar até ao limite o que corria mal e frequentemente deixou passar em claro tudo o que de bom se ia fazendo. Mas não foi só na Educação, porque percebemos bem que o mesmo aconteceu na saúde e em muitos outros serviços públicos… Queria-se privatizar a toda a pressa, e para isso era necessário denegrir os serviços públicos.
Mas, se é verdade que os agentes do poder, em particular alguns ministros e secretários de Estado, tudo fizeram para desvalorizar o trabalho das escolas, e que isso destruiu a antiga respeitabilidade da instituição, não será essa apenas a causa da falta de reconhecimento dos portugueses pela importância da escola.
Para não desenvolver mais o assunto, refiro apenas mais uma causa importante para a desvalorização da escola e dos que nela trabalham: entre nós ainda há uma deficiente relação entre o mérito e a recompensa, e muitas vezes para ter sucesso na vida (sobretudo laboral), vale mais ter "bons conhecimentos" que "muito conhecimento"… Sabemos que a falta de uma cultura do mérito tem sido em boa medida responsável pela ineficácia dos serviços públicos, frequentemente chefiados por "boys" desempregados da política e pelos "afilhados" das famílias poderosas e quem tem poder. E isso, evidentemente desacredita a importância do conhecimento como mecanismo de ascensão social, e consequentemente da escola e da aprendizagem.
E agora, que tanto a escola como os professores foram desvalorizados, começa a haver dificuldade de atrair gente para a profissão de professor. Nos próximos anos dezenas de milhar de professores passarão à reforma. Vamos ver se alguém os vai substituir…
Termino dizendo-vos apenas que um dia vi uma entrevista de uma ministra da Educação da Finlândia. Ela dizia que na Finlândia se dava as melhores condições aos professores, para assim atrair os melhores para a profissão, já que seriam eles a ensinar as novas gerações e assim garantir o futuro do país.
Mais uma vez, sei que há muitos fatores que explicam os nossos insucessos ao nível do desenvolvimento enquanto nação. Mas não dar a importância devida à escola é sem dúvida um deles.



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