17h22 - quinta, 14/07/2022

A estrada no Sudoeste


Carlos Gomes
A ideia do Festival surgiu da vivência diária desta estrada entre a Costa de Santo André e a Serra de São Francisco, onde vivo, na Aldeia de São Francisco, mais concretamente. É uma estrada belíssima, descendo a encosta até ao oceano Atlântico, sempre em pano de fundo, serpenteando pela mistura concentrada de sobreiros, pinheiros, hortas, pequenas elevações e casario disperso ou, no sentido inverso, tendo o verde sempre a ladear a estrada com o céu e a Serra em perspetiva ascendente. Nasceu também da vontade de partilhar essa vivência e os lugares que a intercalam e medeiam, como o lugar do Farrobo (Palco Estrada) um dos lugares mais interessantes e genuínos que conheço, no seu quotidiano já um lugar de encontro e de socialização das pessoas que vivem nesta região. Então, em conversa com a amiga e arqª Ana Jara, do Atelier Artéria, parceiro do festival, a propósito de um outro projeto no qual temos vindo a trabalhar há dois anos, surgiu esta ideia de um festival itinerante ao longo da estrada, como uma espécie de movimento no território equivalente à romaria da ida ao banho anual de mar, que as populações serranas empreendiam no dia de São Romão, 9 de Agosto, descendo a encosta desde a linha de festo da Serra de São Francisco até à praia. A Estrada decalca essa ideia de festa, de celebração de um território único, com 13 km de extensão em suave encosta solarenga, do qual a Estrada Municipal 544 é como a espinha dorsal.

O conceito da programação é um conceito aberto e ao mesmo tempo peculiar porque procura estabelecer relações de carácter diverso entre cada um dos palcos, este ano cinco – Serra, Floresta, Estrada, Lagoa e Praia – e as propostas artísticas programadas. Digamos que cada palco tem um conceito um pouco diferente do outro, em sequência, tal como a estrada também vai mudando lentamente a perspetiva que temos do território.

PALCO SERRA
Começamos pelo Palco Serra, na Aldeia de São Francisco, plena de tradição associada à guitarra portuguesa, de mestres como António Chaínho e António Parreira, mas também ao fado e a excelentes acordeonistas desta região, entre os quais Maria Adélia Botelho. Entre outras, estas três pessoas são verdadeiros embaixadores no mundo das tradições musicais portuguesas e desta região em particular. A António Parreira fazemos este ano uma bela homenagem, juntando-o com os seus dois filhos, Ricardo e Paulo Parreira, num concerto raro dos três, para mais na aldeia onde cresceram para a música. O Palco Serra é, pois, o palco das tradições, das músicas do mundo e dos grandes intérpretes que as representam, como é o caso também do jovem Luís Trigacheiro e do guitarrista de flamenco Miguel Vargas. Mas também de Celina da Piedade e Ana Santos, do maestro espanhol da música medieval Eduardo Paniagua que nos trazem, em companhia do Grupo Coral da Mina de São Domingos, o espetáculo que este ano abriu o Festival Islâmico de Mértola; e dos Puuluup, dóis estónios fantásticos que ressuscitaram as "talharpas", um instrumento de cordas rudimentar e ancestral, com o qual fazem verdadeiros milagres. Mas criamos uma atmosfera contemporânea e inusitada para o saborear das tradições, com a cenografia da peça Mutabilia, do Teatro do Mar, e a Instalação de vídeo de Irit Batsry sobre as imagens icónicas da região, patentes em painéis de azulejos dos anos 30 na estação de comboios de Santiago do Cacém. Tudo isto servido no coração da Aldeia de São Francisco da Serra no terreiro da antiga corticeira. Um lugar conhecido como o triângulo... vão perceber se abrirem a bilheteira online do Palco Serra ou quando cá chegarem.

PALCO FLORESTA
Logo à saída de São Francisco da Serra, damos um mergulho na floresta autóctone. "Damos" é uma força de expressão pois é um retiro de 4 dias pensado para 10 pessoas, ao longo das manhãs do festival, a partir do seu segundo dia, que queiram ter uma experiência mais imersiva com o território, a natureza e consigo mesmas e os outros 9 companheiros de grupo. Se eu pudesse iria porque vai ser incrível e com dois momentos musicais muito especiais – Bankora e a Orquestra do Momento, dirigida por Junior (Terrakota), para além de as pessoas que orientarão o retiro serem dois seres de uma qualidade humana excecional, novos residentes acabados de chegar, como muitos outros que pouco a pouco vão integrando e integrando-se numa comunidade aberta ao mundo.

PALCO ESTRADA
Depois, um pouquinho mais abaixo, no Lugar do Farrobo, a meia encosta acontece o Palco Estrada, o palco dos amigos, por assim dizer, venham eles de onde vierem, que é o que o lugar já é no seu quotidiano, ponto de encontros inesperados. Um daqueles sítios únicos no planeta, seja aqui, seja do outro lado do mundo, onde nos sentimos impelidos a parar quando por ele passamos, tal é o magnetismo do lugar. E assim também é o programa, com filmes, concertos e um "open mic" para quem quiser subir ao palco espontaneamente, a tecer relações de proximidade entre quem está e quem chega de fora. Dois filmes lindíssimos sobre as relações entre os homens e a natureza, de Madalena Ventura, jovem artista local e de Tiago Cação, que gere as carreiras de alguns dos maiores artistas nacionais enquanto anda de bicicleta a apoiar causas por todo o país. Dois concertos que prometem o êxtase e a catarse da festa, com os austro-tuga-holandeses Bonny Bonnie and The Rocky Mountains e os locais de covers mundanos Groovin'Train, que ainda prometem trazer alguns temas de um primeiro trabalho de originais. E depois chega então o Open Mic, estreia deste ano para a revelação de talentos, locais, passageiros, forasteiros, que andem por aí...

PALCO LAGOA
Já mais próximos do mar abrimos palco a valores Emergentes, à música Exploratória, à Música de Dança e à própria dança. Num cenário idílico, como é o da Eira do Monte do Paio, nas margens interiores da Lagoa de Santo André. Um dia que promete ser intenso, com a performance do Teto Coletivo – "Estalagmite" – dança e música em conexão com o lugar, Vitor Rua, incontornável nome da música exploratória de Portugal e do mundo, Xoices, Dj residente na região a dar-nos música ao anoitecer, META, um valor emergente na música nacional mas com uma maturidade artística impressionante antecedendo o seu novo parceiro de voos musicais, o DJ e produtor Xinobi, para fecharmos a noite a dançar.

PALCO PRAIA
E depois o palco de todos os sonhos e de todos os riscos, onde só as vistas e a imprevisibilidade do momento já são por si grandiosas, mas se juntarmos à natureza das circunstâncias, Tempura The Purple Boy, aos comandos do fim da tarde, Dunia Lobo a servir-nos Mornas e Batukos ao princípio da noite, Bandua a guiar-nos pelas tradições beirãs e pagãs com invenção e inovação, Venga Venga a servirem-nos a sua extravagância tropical para dançar no areal e, finalmente, Vitor Belanciano a fechar a noite com toda a sua elegância e conhecimento de mais de 15 anos a dar-nos música, seja a pôr discos para a ouvirmos, seja a escrever no Público, seja a provocar-nos a cristalização das mentes nas redes sociais, que é que podemos dizer? Venham? É pouco... vão à praia e deixem-se ficar para o banho noturno de música sob o céu estrelado e atlântico!

Um conceito dinâmico em que as propostas desafiam os lugares e os lugares as propostas. Palco Serra para a vivência das tradições em contexto desafiante, Palco Floresta para um mergulho mais profundo na natureza e em cada um em si mesmo, Palco Estrada para a celebração de amizades várias e do espírito do lugar, Palco Lagoa a explorar e a abrir horizontes e Palco Praia para o risco e festa total, surpreendente e extravagante.

Mas há ainda uma conversa sobre o tema "Territorializar a Cultura", proposta do festival para o futuro cultural da região; provas de vinho e de azeite musicadas, respetivamente da Herdade do Cebolal e do Lagar do Parral, produções locais de excelência, acompanhadas pelas não menos excelentes, Maria Adélia Botelho, artista de referência do festival e Ana Margarida Leal, fadista lisboeta que estreia a rúbrica "Fado à Estrada"; nos dois últimos dias, duas deliciosas caminhadas na zona da Reserva Natural das Lagoas de Santo André e da Sancha.

O programa completo pode ser percorrido desenvolvidamente em português e inglês no nosso site: www.festivalaestrada.pt, assim como também encontrará o link para a bilheteira https://festivalaestrada.seetickets.com. O Festival A Estrada este ano tem vários palcos e atividades pagas, à exceção das caminhadas e dos concertos nos Palcos Estrada e Farrobo.
A Estrada espera-vos!



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