12h41 - quinta, 09/11/2023

Os terroristas e os outros


Fernando Almeida
Quando eu era rapaz havia "terroristas" nas nossas "Províncias Ultramarinas" e eles afrontavam os interesses do Governo português (que era, evidentemente, legítimo e bom), mas para isso atacavam muitas vezes colonos portugueses, que eram gente de trabalho que queria apenas viver decentemente e dar um bom futuro aos filhos. Claro que os terroristas eram os "maus" e por isso deviam ser banidos da superfície do planeta. Era deste modo que a comunicação social se referia aos guerrilheiros que lutavam contra o regime de Salazar/Caetano em África e nós, geralmente, acreditávamos nisso. Mais tarde percebi que as "Províncias Ultramarinas" eram afinal colónias como as que os franceses, ingleses ou belgas tinham tido em África e que os "terroristas" eram os guerrilheiros daquilo que outros chamavam "movimentos de libertação nacional".
Alguns outros "terroristas" famosos deram que fazer aos europeus, como a Frente de Libertação Nacional da Argélia (FLN), que combateu as tropas francesas até 1962. Quando a Argélia se tornou independente, os "terroristas" passaram a "heróis nacionais" e referência para os povos africanos dominados. Outro tanto aconteceu no Vietname, primeiro com a dominação francesa, mais tarde com o domínio americano, os terroristas de ontem passaram a heróis de hoje. Mais recentemente foi em Timor Leste, em que os guerrilheiros (terroristas para uns e libertadores para outros) acabaram por ser Governo e andar nas bocas do mundo por um deles receber um prémio Nobel da Paz! Parece-me por isso que há uma grande subjetividade na classificação destas coisas de "bons e maus", "terroristas" e "forças de defesa" nas guerras. Para os dirigentes que mandam fazer as guerras, os "maus" são sempre os adversários e eles são sempre os "bons". Já para os povos que são obrigados a fazer as guerras e que sofrem com elas, má é a própria guerra que os dirigentes mandam fazer e bom seria viver em paz e usar a riqueza dos países para melhorar a sua vida. Por outro lado, às vezes também me parece que chamam de "terroristas" aos que usam armas precárias e antiquadas, como catanas, pedras e foguetes de baixa tecnologia, e chamam "forças de defesa" aos que têm blindados, aviões, bombas incendiárias ou mísseis que destroem um quarteirão de cada vez.
Isto vem a propósito da guerra na Palestina entre o Hamas e o estado de Israel que, como todas as outras guerras do mundo, por muitos motivos que os dirigentes de ambos os lados tentem encontrar para a justificar, é mais um absurdo injustificável que só causa problemas e que não resolve os diferendos que existem entre os povos. Mas este conflito tem algo de diferente de outros que temos conhecido.
A necessidade de os judeus espalhados pelo mundo terem um território a que chamassem "pátria" começou a ganhar corpo com o movimento sionista do final do século XIX, que advogava o regresso dos judeus espalhados pelo mundo ao território de onde tinham saído muitos séculos antes. Os judeus eram frequentemente alvo de perseguições, a começar pela nossa Inquisição portuguesa e ibérica, mas com muitos episódios de "pogrom" antijudaico um tanto por toda a Europa. O último e talvez mais dramático ataque a comunidades judaicas aconteceu pela mão da Alemanha Nazi, por altura da Segunda Guerra Mundial, e é bem conhecido de todos. Mas a terra dos antepassados a que os sionistas queriam regressar estava desde há muitos séculos quase sem judeus e era ocupada pelos palestinianos e isso era (e é) um problema…
Mudemos de assunto. Há quem garanta que o termo "Ibéria" provém de uma palavra do hebraico antigo, que significa precisamente "ser hebreu" ou "declarar-se hebreu", e eu sei que as línguas que se falam na Península Ibérica (exceção feita para o basco) têm evidentes semelhanças com as línguas antigas do Mediterrâneo oriental, como o ugarítico e o hebraico antigo (que são no essencial a mesma língua). Poderiam, portanto, os judeus do século passado, apoiados pelo Barão Rothschild ou por outro ricalhaço qualquer, ter decidido voltar para a Ibéria, como terra dos seus avós, reclamar o direito de cá viver, em vez de regressar à Palestina.
Mudemos de assunto de novo. Conheço alguns imigrantes israelitas que estão entre nós, gente tranquila e afável, pais de crianças doces e adoráveis, que qualquer de nós não hesitaria em proteger. Parece-me gente que, como todos os pais do mundo, querem viver em paz e criar os filhos em segurança e tranquilidade. Estão por cá alguns, mas que venham mais se assim o entenderem, porque, como costumamos dizer, "que seja bem-vindo quem vier por bem". Façam amigos e sejam amigos do seu amigo, leais e justos, como nós gostamos, e gosta toda a gente de bem do mundo. Se vierem, partilhem connosco tudo o que esta terra pode dar de bom, ajudem ao seu desenvolvimento e à proteção e harmonia da natureza, e estou certo que contarão com a amizade e a abertura das nossas comunidades.
Mas imaginamos facilmente que se nos viessem expulsar das nossas próprias terras e casas, confinar a uma faixa de terra minúscula, prender arbitrariamente, bombardear indiscriminadamente as nossas cidades matando milhares de pessoas, claro que, se isso acontecesse, não teriam em nós amigos sempre dispostos a ajudar, mas antes gente revoltada com fome de vingança. Se calhar haveria entre nós guerrilheiros cruéis a quem, com propriedade chamariam de "terroristas"…
Felizmente que entre nós, portugueses, já não reinam o fanatismo religioso e o obscurantismo que abriram as portas à Inquisição e à perseguição de judeus, e também que os israelitas que nos deram o gosto da sua companhia são boa gente com quem dá gosto conviver. Se eu conheço alguma coisa da cultura e dos desejos do povo português, a vocação do nosso povo é a de ajudar os outros e promover a concórdia e a paz, e não apelar a guerras que apenas interessam aos vendedores de armas e aos que querem dividir para reinar.
E os nossos governos, se tiverem a sabedoria e o bom senso do povo, deverão em todos os casos de guerra no estrangeiro ajudar os que necessitem de apoio e apelar à concórdia e à paz, e não, como já temos visto, atiçar os ânimos e incitar à confrontação e à guerra.



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