11h40 - quinta, 26/11/2015

O mercado


António Martins Quaresma
Hoje em dia, a palavra "mercado", influenciada pelo "economês" dos media, carregada de polissemia, aparece na fala de todos os dias com múltiplos sentidos, e, por vezes, é necessário algum cuidado para não haver confusões. O tempo das "feiras e mercados", dos horizontes século-vintistas de muitos de nós, que os municípios cuidadosamente regulamentavam, deu, em parte, lugar aos "mercados financeiros" (e outros), essas entidades longínquas e mais ou menos misteriosas, que hoje temos na boca como antes tínhamos o credo. É que dos "mercados" e da sua aguda e oscilante sensibilidade depende muito da nossa vida. Já não é tanto a tradicional lei "da oferta e da procura", mas qualquer coisa mais imaterial e volúvel, capaz de pulsar tanto com crises da dívida como com estados de alma.
Do que me proponho falar é de um mercado particular, "à antiga", onde se vendem/compram bens necessários à vida diária de cada um: dos produtos alimentares, ao vestuário; dos utensílios mais diversos a alguma maquinaria; das árvores para plantar às aves de capoeira, tudo ali há. Tudo não: ele não concorre com o mercado diário, pertencente à Junta de Freguesia, onde a maior parte das coisas transacionadas é diferente.
Refiro-me ao conhecido Mercado das Brunheiras, nome que tomou o "Mercado de Milfontes" quando, na falta de espaço no interior da vila, foi transferido para o lugar das Brunheiras, a poucos quilómetros de distância. Não é um mercado de grande anciania; começou já na fase mais turística de Milfontes, na década de 1980. Instalava-se, antes, nas ruas, perto do campo de futebol, então ainda com características de periferia da vila, e recordo-me de alguma revolta dos feirantes, muito verbalizada, quando souberam que tinham de ir para as Brunheiras. Achavam que lhes prejudicava o negócio. Afinal, a saída do espaço acanhado onde estava permitiu a sua expansão e que se convertesse num dos principais mercados do concelho de Odemira.
Ele fez praticamente esquecer a tradicional feira anual de Milfontes, que se realizava a 8 e 9 de Agosto (agora no primeiro de Maio); aliás, essa feira, de grandes recordações para os sexagenários e septuagenários de Milfontes, como o autor destas linhas, já fez o seu tempo e hoje pouco se justificaria.
O Mercado das Brunheiras, quinzenal, aos sábados (no 2.º e no 4.º, de cada mês), tem afluência garantida, de vendedores e de compradores – e até de consumidores de febras e frangos assados. Funciona também como ponto de encontro, onde regularmente há gente que aproveita para se ver e pôr a conversa em dia. Afinal, em grande medida, o papel das feiras e mercados de antanho.
De há uns tempos para cá, buscando a proximidade dos clientes, o mercado transbordou para fora da vedação e invadiu o espaço de estacionamento automóvel, enquanto no interior se abrem clareiras sem qualquer ocupação. Decerto, falta ali a mão reguladora da entidade autárquica responsável. Mas gosto de pensar que o mercado das Brunheiras se comporta afinal, em parte, como os mercados financeiros. Sem regulação, ou ineficaz regulação, os seus agentes procedem exclusivamente conforme a sua conveniência, mesmo que isso acabe por conduzir a uma crise do sistema, ou, pelo menos, como é o caso mais benigno do Mercado das Brunheiras, a alguma anarquia e perda de lugares de estacionamento. De qualquer modo, o Mercado das Brunheiras mostra uma notável capacidade de "auto-regulação", razão por que coexistem a situação descrita e uma certa racionalidade e eficácia.



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