11h29 - quinta, 11/02/2016

Trabalhadores satisfeitos são mais produtivos?


Cláudia Silva
Muitas vezes tenho falado acerca da qualidade dos cuidados prestados à pessoa na Grande Idade nas instituições, de como é importante que os cuidadores tenham a noção e o sentimento de que é uma pessoa que tem à sua frente, com a sua identidade, diferente de todas as outras da mesma idade, e com necessidades distintas. A massificação dos cuidados tem se revelado claramente ineficaz e não promotora do respeito, da dignidade e da individualidade que merece qualquer pessoa, na grande ou "pequena" idade! Quando alguém decide trabalhar numa instituição de apoio social, seja em que função for, os juízos de valor, o idadismo, devem ficar à porta! Infelizmente ainda se assiste a uma cultura organizacional que centra o planeamento dos cuidados em função das rotinas dos funcionários e não da pessoa. O baixo ratio cuidador/pessoa conduz a uma sobrecarga de trabalho, o que não favorece as boas práticas e ainda propícia a ocorrência de maus-tratos. Por fim, as direcções têm muitas vezes baixa formação técnica e conhecimento do ser humano, o que os impede de sequer perceber e diagnosticar onde reside o problema.
No entanto, sendo tudo o que referi actual e pertinente, há um aspeto que é extremamente importante, e muitas vezes descurado, já para não dizer ignorado: a satisfação profissional. A satisfação profissional reflecte a reacção do próprio ao trabalho, sendo uma variante do comportamento organizacional mais estudada pelos investigadores. Do ponto de vista marxista, tendo em conta o inevitável conflito trabalhador-gestão, poderia parecer quase impossível pensar que funcionários mais satisfeitos/felizes pudessem ser mais produtivos. Contudo, de uma perspectiva mais psicológica e humana, que se coaduna com a prestação de cuidados à pessoa na Grande Idade, tem sido estabelecida uma relação positiva entre a satisfação profissional e o desempenho. Ou seja, daqui podemos inferir que se queremos melhorar os cuidados prestados nas instituições à pessoa na Grande Idade, talvez devêssemos primeiro olhar para os funcionários que lá trabalham e perguntar-nos: "Será que os funcionários estão motivados? E estão satisfeitos no trabalho? Como é que se pode pedir a uma pessoa que preste cuidados de qualidade e individualizados, quando há uma sobrecarga de trabalho que a impede de sequer ter tempo para conversar? E quando o consegue, quem é que lhe agradece e reconhece? Se calhar ainda é chamada à atenção pelas colegas porque levou mais tempo do que "deveria"! Como é que se pode pedir a uma pessoa que preste cuidados de qualidade e individualizados, quando as suas chefias não a tratam com consideração e respeito, e a cultura do medo e penalização do erro persiste?
Se queremos mesmo prestar melhores cuidados, está na hora de mudar de paradigma! Agora a questão é outra: será que queremos? Erradamente se pensa que o investimento em profissionais qualificados pode ser incomportável para as instituições, pois esse investimento tem retorno em ganhos em saúde, e estes também significam redução no custo (Prevenir para não tratar!). Termino com uma frase de Derek Bok: "Se acreditas que a formação é cara…experimenta a ignorância".



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