17h47 - quinta, 21/09/2017

"São todos iguais?"


António Martins Quaresma
Em vésperas de eleições, ocorre-me uma das expressões mais comuns, um pouco por todo o lado, com especial incidência nas redes sociais: "os políticos são todos iguais", significando que são todos "corruptos", "oportunistas", etc.
Evidentemente, esta asserção não resiste a um exercício básico de reflexão. Em que comprovação se sustenta? Mesmo aceitando que existem políticos corruptos, oportunistas, etc., o que autoriza a generalização? É verdade que o "poder", que está associado à política, é susceptível de atrair interesses pouco legítimos. Acredito que os governos deste país têm sido frequentemente capturados por grupos de poder fáctico, não legitimados pelo voto popular, que, assim, têm influído politicamente. Também estou convicto que, ao nível autárquico, se movem, ou podem mover-se, censuráveis motivações, entre as quais a do clientelismo (spoil system) e a do oportunismo.
No entanto, uma posição de princípio "contra os políticos" é uma forma de branquear os que efectivamente são corruptos, oportunistas, etc., isto é, de colocar no "mesmo saco" "mercadorias" muito diferentes. "Chamar os bois pelos nomes" é que se me afigura legítimo e útil. Deve reconhecer-se, porém, que a difusão desta forma de avaliar a política e os políticos, à escala que se verifica, pode revelar razões profundas e, seja como for, mostra um preocupante enfraquecimento da Democracia. Todavia, particularizando alguns motivos pessoais, parece-me que muita gente que isto afirma sofreu alguma desilusão com políticos da sua preferência e, como não admite votar noutras áreas políticas, faz esta espécie de fuga em frente. Aliás, face ao tipo de argumentação frequentemente despendida, eu não confiaria, mesmo nada, em alguns dos autores dessas posições se eles exercessem cargos políticos.
Julgo que o desempenho político, em termos partidários e eleitorais, reflecte, de alguma forma, a sociedade que somos. Com as suas virtudes e os seus defeitos. E se é inegável que os agentes do poder, central ou autárquico, nem sempre o têm exercido de forma digna, não me parece menos claro que isso é tanto mais evitável quanto mais conscientes e consequentes forem os cidadãos. Há que exercer a cidadania, e não papaguear fórmulas vazias de lógica e até de ética, do tipo "são todos iguais".
Como se entendeu, não acho os políticos todos iguais, embora já tenha sido tomado pelo desalento, por exemplo com a fraca qualidade do debate político no Parlamento, cuja "escola" podia ser uma referência pela positiva, mas geralmente não é. Claro que não estamos isolados e há até muito pior: em tempos vi, pela televisão, uma lamentável sessão parlamentar no Brasil (o impeachement de Dilma Rousseff), que deixou estupefactos os espectadores.
Assumo-me na área ideológico-política que é usual chamar-se de "esquerda", mas, além disso, sou sensível à qualidade humana e às capacidades que reconheço nos candidatos. Nas próximas eleições autárquicas é em resultado desse balanço que decido o meu voto. E se este não for o melhor para o benefício geral do meu concelho e da minha freguesia, a responsabilidade é exclusivamente minha.



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