17h09 - quinta, 15/03/2018

Acessibilidade em Saúde: O AVC


Cláudia Silva
A questão da saúde e acessibilidade é um assunto que me é muito caro e que de resto está muitas vezes subjacente nos vários textos que escrevo. É sabido que nas zonas rurais, mais distantes dos centros urbanos, existem assimetrias no acesso aos serviços de Saúde mais diferenciados, pelo que a identificação das situações de emergência pela população é fulcral e assume especial importância nestas regiões.
Entre outras, o Acidente Vascular Cerebral (AVC) constitui um preocupante problema de saúde, devido à elevada morbilidade e incapacidade consequente (morbilidade). Considerando que por cada minuto que passa sem que seja reposta a circulação cerebral adequada (após um AVC isquémico) se estima que são afectados cerca de 2.000.000 de neurónios, facilmente se percebe que o factor "tempo" é determinante para o prognóstico da pessoa. Assim, quanto mais rapidamente for reposta a perfusão cerebral, maior a probabilidade de recuperação sem lesões.
De acordo com a Sociedade Portuguesa do AVC, actualmente pode dizer-se que o AVC é prevenível e tratável. Previne-se corrigindo os factores de risco (hipertensão arterial, diabetes, colesterol elevado, obesidade, tabagismo, ingestão de álcool e arritmias), e trata-se reconhecendo os seus sintomas, por forma a que a pessoa chegue em tempo útil a uma unidade hospitalar onde possa receber o tratamento adequado na fase aguda.
Nos últimos anos temos assistido a diversas campanhas de sensibilização (pelos vários meios de comunicação social) onde se divulgam os sinais clássicos de um AVC: "boca ao lado e dificuldade em falar, e falta de força no braço", pois pretende-se que as pessoas os identifiquem e valorizem, por forma a que os meios de emergência sejam activados (ligar 112) e se possa promover a acessibilidade ao tratamento definitivo em tempo útil. Neste momento apenas se pode estabelecer um diagnóstico definitivo (incluindo causas) em meio hospitalar, pois apenas a realização de um TAC (Tomografia Axial Computorizada) determinará qual o tratamento a implementar em cada situação.
Para além da causa, o tempo decorrido desde a ocorrências dos primeiros sintomas/sinais também irá influenciar na escolha e sucesso do tratamento, sendo as primeiras quatro, cinco, seis, 16 e 24 horas marcos importantes a considerar pelos profissionais de saúde. Deste modo, o factor tempo/ distância são barreiras, sendo a identificação precoce dos sinais/sintomas uma medida para as minimizar.
Numa perspectiva mais macro, a menor acessibilidade aos tratamentos actualmente disponíveis conduz a uma elevada morbilidade e, consequentemente, a um elevado impacto humano, social e financeiro para a sociedade. Como em tudo, as avaliações são importantes pois permitem o estabelecimento de medidas correctivas.
A avaliação do impacto financeiro tem vindo a estimular o apoio à investigação científica, sendo que nos últimos anos verificou-se um crescimento exponencial de projectos neste âmbito que tem como objectivo último a melhoria da acessibilidade. O primeiro surgiu em 2011, em Berlim, e actualmente é possível realizar um TAC numa ambulância e desta forma iniciar o tratamento adequado ainda antes de chegar ao hospital.
Os benefícios são claros, pois ao reduzir o tempo entre o início de sintomas e o início do tratamento, as probabilidades de recuperação sem lesões aumentam consideravelmente. Ainda assim, os custos da manutenção deste tipo de resposta são ainda elevados, pelo que projectos paralelos, mais económicos, tem vindo a crescer.
Na Suécia, desde 2014 que se testa um protótipo portátil que recorre à tecnologia de microondas para realizar o diagnóstico de AVC, também ainda na ambulância. Nos EUA, mais recentemente (2017), também decorre um outro estudo com um protótipo portátil, mas recorrendo à radio-frequência. Penso que são boas notícias, e espero que muito em breve a comunidade científica nos possa "presentear" com mais um recurso que encurte o tempo/ distância aos tratamentos actualmente disponíveis. Até lá, estejam atentos aos sinais e sintomas e liguem 112!



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