15h56 - quinta, 07/06/2018

Reanimação cárdio-pulmonar: Um direito ou um dever?


Cláudia Silva
Na Europa todos os anos milhares de pessoas sofrem uma paragem cardíaca, embora se saiba que em alguns casos a morte poderia ser evitada se fosse iniciada de imediato reanimação cárdio-pulmonar. O Suporte Básico de Vida (SBV), uma das fases desta reanimação cárdio-pulmonar, consiste em duas acções principais: compressões toráccicas (para fazer o sangue circular) e ventilações (para fornecer oxigénio aos pulmões) e pode ser executada por qualquer cidadão. O SBV por si só dificilmente recuperará a pessoa, mas aumenta consideravelmente as possibilidades de recuperação de intervenções posteriores, pois previne lesões dos órgãos, tais como o cérebro e coração. Por outro lado, a cada minuto que passa sem que se inicie SBV as possibilidades de recuperação decrescem 10%.
Quando o coração pára subitamente a causa mais frequente na pessoa adulta é uma alteração no ritmo cardíaco denominado "fibrilação ventricular", sendo que uma desfibrilhação (choque eléctrico) pode reverter este ritmo se administrado rapidamente. Associando um SBV de imediato e uma desfibrilhação precoce (dois a três minutos) é possível aumentar a possibilidade de recuperação da pessoa em paragem cardíaca para 50 a 70%. Por este motivo, surgiram os desfibrilhadores automáticos externos (DAE), que permitem a sua utilização por não-médicos, pois apenas permitem a administração de um choque elétrico se estiver recomendado.
A acessibilidade a um DAE assume uma especial importância na sobrevida, sendo esta ainda irregular pela Europa. Embora nos últimos 10 anos se tenha assistido a uma disponibilização gradual de DAE em Portugal, fica ainda muito aquém da realidade de outros países europeus. Enquanto que na França existem 15 DAE/10.000 habitantes, na Dinamarca 20 e nos EUA 80 pelos mesmos 10.000 habitantes, em Portugal existe um.
No nosso país podemos encontrar DAE manuseados por cidadãos em centros comerciais de grandes dimensões, aeroportos, estádios de futebol, hotéis, em algumas viaturas da Guarda Nacional Republicana e, mais recentemente, em algumas vias públicas, designados por DAE comunitários. São ainda em número insuficiente para dar resposta às necessidades da população, sendo que o caminho para a mudança surgirá não apenas da definição de políticas de saúde, mas principalmente da consciencialização de cada um de nós de que a formação em SBV é uma questão de cidadania e que o acesso aos DAE uma questão de acessibilidade em saúde. Cada um de nós deve procurar obter conhecimentos de SBV, existindo diversas escolas de reanimação acreditadas pelo Conselho Europeu de Ressuscitação (ERC) e/ou Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM) que disponibilizam cursos de SBV-DAE, e as organizações, por outro lado, devem zelar pelo aumento do número de DAE disponíveis.
Todos nós podemos um dia estar no papel de reanimador ou reanimado, pelo que se queremos ter o direito a ser reanimado com qualidade e atempadamente em caso de paragem cardíaca, também devemos assumi-lo como um dever e procurar o conhecimento para reanimar!



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