16h07 - quinta, 07/06/2018

Bullying


António Martins Quaresma
Vi há pouco tempo um vídeo, na Internet, em que um alarve provocava insistentemente um pobre homem, empurrando-o e insultando-o, aparentemente só "porque sim". No fim, surge, em cena, um terceiro sujeito que aplicou um valente sopapo no palerma, pondo-o KO. Teve o seu karma, como agora se diz, isto é, uma espécie de justiça natural.
Não pude deixar de ter um sentimento de satisfação com o final da história, mesmo no contexto anónimo. A violência sobre os mais fracos é, em geral, uma cobardia, exactamente porque resulta da convicção de impunidade do agressor, e, por isso, mais repugnante.
Enquadra-se no já conhecido bullying, palavra inglesa que define essa acção de oprimir, atemorizar e agredir. Tudo começa muito cedo, na idade escolar e até pré-escolar. Vá-se a uma dessas escolas, como já me aconteceu, e é possível encontrar-se um rufiazeco de palmo e meio exercendo o seu terrorismozinho sobre os mais fracos ou tímidos. Muitas vezes parece ser o reflexo de um ambiente familiar que estimula esse comportamento; nestes casos, basta conhecer os pais para se perceber o procedimento impróprio da criança.
O tema do bullying, especialmente em ambiente escolar, praticado por adolescentes, tem sido objecto de preocupação entre os responsáveis pela educação e dado origem a estudos especializados e a legislação específica. Hoje em dia, o bullying reveste diversas formas, inclusive com a utilização dos novos meios de comunicação, em que as vítimas podem ser sujeitas ao cyberbullying, com campanhas de grande e nefasto impacto psicológico.
As grandes escolas, com elevado número de estudantes, parecem ser mais propícias a este tipo de situações, até porque estas são mais difíceis de identificar pelos professores e funcionários auxiliares. Numa altura em que, em nome da eficiência dos recursos materiais e humanos, o "gigantismo" da estrutura escolar substituiu, ou tende a substituir, a antiga pulverização, mormente nos sectores etários mais baixos, este é um dos riscos.
No próprio ensino superior o problema não desaparece. Chega mesmo a criar roupagens institucionais, através da chamada "praxe", espécie de "tradição", inventada na grande maioria das escolas superiores (a praxe era uma coisa de Coimbra), as quais não possuem, de facto, qualquer tradição, por umas designadas comissões de praxe, com o apoio das associações de estudantes. Na realidade, com muita frequência, a praxe é um conjunto de confrangedoras manifestações de indigência cultural e até mental, ainda mais chocante por se realizarem na universidade, que deveria ser um espaço de elevação cultural e científica e não de realizações, tão estúpidas quanto eivadas de relações sociais hierarquizadas e desiguais.
E o maior problema é que, não obstante as críticas e algumas tentativas de lhes limitar as consequências mais gravosas, não parece propender a extinguir-se, sequer a diminuir, pois o caloiro de hoje assume o papel de praxista de amanhã, aliás frequentemente com muito orgulho. Dizem que é um processo de integração, como se esta tivesse de revestir formas idiotas e de violência física ou simbólica. Só se for inserção na tolice, mas isso não é necessário porque quem gosta dessas praxes já é, pelo menos, tolo.
Sabe-se que o problema do bullying, nas suas diferentes formas, não é passível de extinção, pois têm na sua base o desejo de domínio e de controlo e a reprodução de modelos de autoridade vigentes na sociedade, quando não é resultado de sociopatias. Mas fechar os olhos ao problema, ou não lhe prestar a devida atenção, seja pelas famílias, seja pelo sistema escolar, seja pelo judicial, seja, afinal, por toda a gente com boa formação humana, afigura-se um erro que ajuda a perpetuar o que de pior existe na sociedade.



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