16h11 - quinta, 20/09/2018

A minha terra tem uma torre


Hélder Guerreiro
As minhas primeiras memórias, enquanto morador na "rua da pouca farinha" são de uma equipa de homens a conversarem e rirem alarvemente enquanto trabalhavam "empoleirados" nas paredes imensas do edifício de apoio à Torre.
A Torre, construída a partir do gargalo de um poço, impunha-se céu acima e como que retardava o nascer do dia na minha janela. Já lá estava quando, ainda uma criança, para lá fui morar. A Torre tinha uma coruja branca, enorme, que piava noites inteiras e que do ponto mais alto da Torre se lançava em voos que se ouviam da minha janela. Tinha densidade o voo da coruja da Torre, tinha mistério, tinha imaginário de vampiros, de bruxas e de histórias sem fim de crianças perdias na subida à Torre, picadas pelo bico enorme da coruja branca que era a guardiã da Torre.
Hoje recordo com carinho as noites em que me dedicava a ter medo do que poderia vir em voo do cimo daquela Torre.
Na verdade, hoje tal como então, a Torre é uma construção inacabada que ali está plantada no meio da vila onde eu nasci, envolvida por inúmeros edifícios enormes, também eles inacabados. É uma espécie de monumento aos sonhos inacabados, no meio de uma vila que ela própria é um desafio imenso por acabar.
A Torre foi o sonho de um homem à frente do seu tempo que resolveu ir morar para ali e ali construir uma fábrica de sofás. O sr. Ferreira, como sempre me habituei a chama-lo, era um homem diferente, difícil de perceber, mas prosperou a encher de sofás os prédios todos, que nasciam como cogumelos, no Algarve.
Essa fábrica deu emprego a muitos jovens de então, que hoje são os pais e avós dos filhos de São Teotónio. Foi onde muitos aprenderam o oficio de estofadores e de carpinteiros e foi essa fábrica que definiu aquela vila do sudoeste alentejano como um centro de referência no fabrico e comercio de móveis. Esses jovens cresceram, revoltaram-se com o sr. Ferreira e criaram a sua própria cooperativa onde, felizes, continuaram a encher de sofás o Algarve.
O fim da cooperativa é outra história que não cabe aqui, mas, na verdade, gosto de pensar que hoje São Teotónio tem tantas carpintarias e pequenas unidades de estofadores de enorme qualidade porque o sr. Ferreira, um dia, chegou no seu carro "boca de sapo" e decidiu fazer, ali, uma fabrica de sofás.
Fez também a Torre e os edifícios em volta. Diz que a Torre era para conseguir ver o mar dali, mas ele contou-me a história de que o que queria fazer era um hotel de luxo, lindo de morrer, a que daria o nome de "branca de neve e os sete anões" e onde a Torre seria a "branca de neve" (eu juro que isto é verdade).
Eu nunca fui de admirar "homens" providenciais, mas que existem pessoas que são capazes de definir oportunidades nos seus territórios e de mudar os destinos desses territórios isso existem. Quando penso no sr. Ferreira penso sempre no que seria hoje São Teotónio se ele tivesse "acabado" o sonho dele como outros o fizeram. Penso em Campo Maior e penso em muitos outros locais que de "interior" se fizeram "litoral".
O sr. Ferreira morreu, sozinho, na cama de um hospital. A Torre ali continua inacabada, servindo de suporte à estrela de natal na minha terra. As ruinas em volta da Torre são como uma ferida aberta no meio da vila. Mas, por incrível que possa tudo isto parecer, aquela Torre significa que o sonho persiste e que é possível, cada um de nós, fazer a diferença no futuro de todos nós. Não basta sonhar, mas isso já é um começo!

Autor escreve com o
Novo Acordo Ortogrráfico



Outros artigos de Hélder Guerreiro

COMENTÁRIOS

* O endereço de email não será publicado
07h00 - terça, 18/12/2018
Turismo cresce
no concelho de
Santiago do Cacém
O concelho de Santiago do Cacém registou um crescimento na procura turística no ano de 2017, com um aumento no número de dormidas e dos benefícios económicos que as empresas de alojamento obtiveram.
07h00 - terça, 18/12/2018
Taça da Liga de
futsal em Sines já
tem calendário
Já está definido o calendário de jogos da quarta edição da Taça de Liga de futsal, que será disputada no Pavilhão Multiusos de Sines entre os dias 10 e 13 de Janeiro com os oito primeiros classificados da primeira volta da Liga Sport Zone.
07h00 - terça, 18/12/2018
Quatro propostas vencem
"Orçamento Participativo"
Foram quatro as propostas vencedoras do "Orçamento Participativo" (OP) da Câmara de Odemira em 2018, que serão implementadas a partir de 2019 e representam um investimento municipal total de 500 mil euros.
07h00 - segunda, 17/12/2018
Odemira revela vencedores do
"Orçamento Participativo 2018"
A Câmara de Odemira promove nesta segunda-feira, 17 de Dezembro, a sessão de apresentação dos resultados do "Orçamento Participativo 2018" (OP), onde serão revelados os projectos vencedores deste ano.
07h00 - segunda, 17/12/2018
CM Alcácer entrega
habitações sociais
A Câmara de Alcácer do Sal promove nesta segunda-feira, 17 de Dezembro, a cerimónia de entrega das chaves de sete habitações sociais a outras tantas famílias necessitadas do concelho.

Data: 14/12/2018
Edição n.º:
Contactos - Publicidade - Estatuto Editorial