15h08 - quinta, 03/01/2019

Éramos 4, fomos 7, somos 5!


Hélder Guerreiro
Herman Hesse é, seguramente, um dos escritores que mais me influenciou. Livros como O jogo das contas de vidro, Siddhartha ou O lobo das estepes, para alem dos "contos maravilhosos", fizeram parte de mim intensamente e sempre admiti que li cada um desses livros nos tempos certos, onde a minha maturidade me permitia compreender cada palavra e cada frase como se tudo fizesse sentido, como se iluminasse a minha vida. Depois de cada um desses julguei sempre que seria uma pessoa diferente. Hoje olho para trás e sei que não mudei abruptamente, mas mudei um pouco de cada vez.
Este verão li, confesso que não queria ler, aquele que já tinha nas minhas estantes há muito tempo, anos, a Viagem ao país da manhã! Não o queria ler porque senti que o titulo não fazia sentido para o Herman Hesse ou mesmo porque sentia que não estava no momento para ler sobre uma viagem a um mundo imaginário, bonito certamente, mas que nada me diria. Na verdade, não me sentia preparado para ler um livro de Herman Hesse que não correspondia ao meu suposto estado de maturidade (47 anos). Depois de o ler, tal como das outras vezes, senti que já o deveria ter lido, mas mal sabia eu que o final do verão me traria razões indescritíveis e inesperadas para o sentir ainda mais.
A Viagem ao país da manhã não é mais do que aquela viagem que fazemos todos nós com os nossos amigos de sempre, com quem aprendemos, com quem vivemos os episódios mais intensos do nosso crescimento. Na verdade, é um relato sobre as relações que estabelecemos com quem crescemos livremente durante os anos em que experimentamos coisas novas todos os dias. É a viagem da vida que fazemos com quem aprendemos a amar como amigos, como namoradas e como família.
O pequeno livro do Herman Hesse é um vulcão de coisas vividas, de sonhos e de loucuras feitas em nome dos sentimentos e das relações que construímos e desconstruímos todos os dias. É uma viagem a um país onde nunca chegamos e para o qual estamos permanentemente em viagem.
Recordo, como se fosse hoje, cada uma das experiencias que vivemos juntos desde os nossos 10 anos de idade. Desde o épico "agarrar no pé à espera da dor", passando pelo filme que vimos juntos sobre uns amigos que nada fizeram durante o filme e que acabaram a beber umas cervejas num bar, pelas primeiras bebedeiras, pelos primeiros cigarros e pelas primeiras namoradas (não te esqueças de que arranjar uma namorada é fácil, o difícil é mante-la!). Recordo cada um dos nossos acampamentos no verão de Vila Nova de Milfontes, das viagens em cima de capôs de carros, para salvar gatinhos, nas noites quentes da discoteca "Blue Sky" em Odeceixe, e, recordo cada segundo da nossa épica viagem da "família gingarrinha" a Torremolinos.
Cada memória é mesmo uma parte de nós próprios e todos sabíamos bem os sonhos que partilhamos juntos nos anos fabulosos em que vivemos cada segundo sem nos conseguirmos separar, seguindo, em grupo, a nossa viagem ao país da manhã.
Hoje, olhando para trás, parece impossível que tenhamos juntado outros ao nosso grupo e parece também estranho que cada um de nós tenhamos, em momentos diferentes, encontrado outros grupos com quem seguir caminhos novos ao país da manhã. Separamo-nos e voltamo-nos a juntar vezes sem conta, sempre na mesma viagem.
Ainda hoje, todos os dias, é difícil perceber o desaparecimento do Rui, que se tinha juntado a nós uns anos depois do inicio da nossa viagem, e que deixou o grupo em suspenso sem perceber o que tinha acontecido. Juntamo-nos de novo tristes e desorientados, mas seguimos e o Rui ainda hoje é uma lenda sobre o que poderia ter sido esta viagem com ele.
Mais tarde fui eu quem abandonou o grupo, impelido por grupos diferentes e paixões estranhas. Hoje tento voltar ao meu grupo de companheiros de viagem, mas sinto que ainda me falta aceitar aquilo que eles sentiram com o meu abandono. É bem verdade que é difícil aceitarmos "ler" com abertura as razões dos outros sobre os nossos próprios atos, mas é um caminho duro que temos que fazer e eu estou a faze-lo com tempo.
O pior de tudo é quando alguém, do grupo, desaparece e nos deixa assim, sem explicação, quando já vamos tão longe na viagem, quando já não pode ser lenda porque é parte do caminho, quando já não pode ser possibilidade porque é realidade, quando já não pode ser hipótese porque foi certeza. O caminho já é com ele e não faz sentido agora ser sem ele.
Escrevi este texto como balanço de 2018, como balanço de uma viagem, como balanço de uma vida e como forma de me despedir do João, coisa que só agora consigo fazer.
É duro, eu sei! Eu sinto…
No início eramos quatro, fomos sete e agora já só somos cinco, mas continuaremos, porque não nos é permitido fazer de outra forma, a nossa viagem ao país da manhã…

Autor utiliza o
Novo Acordo Ortográfico



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Data: 18/01/2019
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