16h28 - quinta, 25/04/2019

Longa vida à natureza


Fernando Almeida
Uma charneca é um terreno arenoso, que nada dava além de matos ralos e pobres. Muitas das nossas charnecas são terras que se localizam na bacia sedimentar do Tejo e Sado, mas não correspondem a várzeas frescas como as lezírias que as cheias anuais fertilizavam. A sua constituição arenosa e cascalhenta só no final do século XX encontrou utilização agrícola, depois de nascerem sistemas de irrigação e de as adubações químicas suprirem a falta de sustento que a terra naturalmente pobre não consegue fornecer às culturas.
O termo "charneca" vem da língua popular de origem fenícia, e significa à letra "terra livre", e assim deve ter sido até à apropriação privada das terras coletivas. Os pastos livres para os gados, que as "canadas" milenares ligavam entre verão e inverno, foram registados em nome de senhores locais, normalmente com a conivência das autoridades de registo. Aos poucos, as antigas terras coletivas das comunidades foram passando para as mãos dos mais poderosos, e o país e o seu povo ficaram mais pobres. É antiga esta tradição de as famílias poderosas se instalarem no aparelho de Estado para colher vantagens. Bom para alguns, mau para todos os restantes… Mas evidentemente nem todas foram apropriadas de forma ilegítima.
Conheço de perto um pedaço de charneca, terra pobre, mais areenta aqui, mais cascalhenta acolá, mas quase toda ela pouco dotada para usos de agricultor, e por isso foi dada aos sobreiros, cultura que quando assente em unidades de terreno grandes tinha, e ainda tem, um bom rendimento. Lembro-me de ver (apesar das minhas recomendações em contrário) destruir aquele sobreiral com lavouras de grade de discos e encabeçamento exagerado de ovelhas. Sem perceber, estava-se a destruir o solo que a natureza tinha levado gerações a criar, e para mais com as lavouras desnecessárias e inconvenientes. O gado a mais impossibilitava a regeneração natural do montado. Os sobreiros cada vez mais fracos, com ramos e árvores inteiras a secar, numa terra a branquear, desprotegida do sol e lavada da chuva. A terra, que junto com a água é o fundamento da vida, foi mal tratada, e os efeitos não se fizeram esperar. A galinha dos ovos de ouro estava mesmo a morrer.
Pormenores à parte, um dia a gestão daquela terra mudou. A grade de discos está enferrujada agora, inútil, e as pastagens foram regradas. Não foi preciso que passassem muitos anos para se ver uma folhada ainda incipiente dar lugar a uma camadinha de solo negro e fértil. São uns milímetros aqui, alguns centímetros mais adiante, mas a terra regenera, fruto da vida que busca sempre a fertilidade. E se a vida melhora a terra, a terra também cria nova vida, e aos poucos, lentamente, aquilo que se degradou em pouco tempo pela nossa cegueira, usura e ignorância, vai-se recompondo. Ressurgem as aves e as pequenas lagartixas que perseguem os insetos que voltaram…
Tenho verificado essa mesma capacidade de regeneração da natureza com espécies animais, como aconteceu com as cegonhas que no final dos anos 80 do século passado desapareciam de ano para ano, parecendo caminhar para a extinção. Morriam cegonhas com os venenos para os ratos dos arrozais, com pesticidas agrícolas, com a seca em África, com a caça ilegal em Marrocos… Resolvidos os problemas, a população recompôs-se e hoje há pelo menos tantas cegonhas como antes.
Também os rios, que sujeitos a poluição que mata milhões de peixes, regeneram, e acabada a poluição voltam à vida. E é assim sempre que corrigimos a tempo os nossos erros e desmandos sobre o planeta. Agredida, violentada brutalmente e quantas vezes sem sentido, a Natureza regenera assim que a pressão se reduz. Pode não voltar ao estado anterior à agressão, mas reencontra sempre um outro caminho na busca incessante da vida.
Atravessamos ainda uma fase de ganância cega que nos leva a desrespeitar a vida do planeta, tal como como o solo e a água, o ar e o mar, bens essenciais a todos os sistemas vivos. Essa cegueira vai criar enormes dificuldades e problemas aos nossos filhos e netos, que não poderão contar senão com o que de bem fizerem para corrigir o mal que lhes estamos a fazer agora.
Mas, creio eu, poderão contar sempre com a capacidade de resistência da Natureza, e com a sua generosidade incondicional nessa luta para recuperar aquilo que andamos a destruir. Apesar de todo o mal que lhe fazemos, a Natureza, ainda assim, é nossa aliada.
Longa vida e sucesso aos que se preocupam com os que estão ainda para nascer e que, em seu nome, respeitam e protegem já hoje a terra que um dia será a deles.

O autor utiliza o
novo Acordo Ortográfico



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