16h16 - quinta, 06/06/2019

Turismo: das breves notas da SPP à FEITUR


António Martins Quaresma
1. Começado o século XX, o "nacionalismo cultural", com raízes no século anterior, gerou um organismo privado que assumia o propósito da promoção turística, a Sociedade Propaganda de Portugal (SPP). Poucos anos depois, entre 12 e 20 de Maio de 1911, instalado recentemente o regime republicano, realizava-se em Lisboa o IV Congresso Internacional de Turismo. E, antes de terminados os trabalhos, o Governo Provisório da República decretava a criação de uma Repartição de Turismo, no Ministério do Fomento, dando amplitude institucional ao turismo em Portugal. Acrescente-se que, em 1918, um roteiro da SPP referenciava, pela primeira vez, as praias alentejanas.
O princípio do século XX marca, assim, o arranque do processo de assunção, pela sociedade civil e pelo Estado, da importância, designadamente económica, do turismo. Porém, quando se fala em "turismo", desse tempo já longínquo, a palavra, que remete para a ideia de "viagem" (do francês tour), é, por vezes, enganadora. É verdade que, desde o século XVIII, viajantes como o poeta inglês Robert Southey, como o militar também inglês George Landmann, ou como o aristocrata, ainda inglês, Henry John George Herbert, terceiro conde de Carnarvon, entre outros, transitaram pelo litoral odemirense e deixaram algumas interessantes páginas sobre a sua passagem; mas eram as elites concelhias que, desde a primeira metade de Oitocentos, acorriam às praias, mormente a Milfontes, para os banhos de mar, cujas virtudes profiláticas e terapêuticas a nova talassoterapia propugnava.
Contudo, não se exclui a procedência de "banhistas" de outros lugares. Por exemplo, a família de Brito Camacho, o ministro do Fomento do I Governo Provisório da República, natural de Aljustrel, vinha a banhos para Vila Nova de Milfontes, quando os trabalhos agrícolas não se atrasavam excessivamente. E também de viajantes que, por um motivo ou por outro, chegavam a Odemira, como é o caso do conhecido botânico Gonçalo Sampaio, que escreveu algumas belas palavras sobre o rio Mira e Milfontes.
Na década de 1920, sob orientação inicial de Raul Proença, escritor e pensador republicano, foi editado o Guia de Portugal, em cinco volumes, que teve a colaboração de diversos autores de nomeada, entre escritores e especialistas de diversas matérias. O Guia, influenciado pelos Baedecker alemães e pelos Guides-Bleus franceses, mas mais desenvolvido, dedicou um dos volumes ao Sul (1927), com breves menções a Zambujeira e Almograve, e uma larga descrição de Vila Nova de Milfontes, saída da pena de José Manuel Sarmento de Beires, que, em 7 de Abril de 1924, partira, aos comandos de um avião, na direcção de Macau. Cita ainda Odemira, São Luís, São Martinho e Sabóia, as duas últimas a propósito da linha-férrea.
Beires faz o elenco de alguns dotes locais, escrevendo que se podia passar o tempo "pescando, caçando, remando, explorando as Furnas, barquejando no rio, estendendo os passeios sobre a areia até ao Canal, pequeno ancoradouro 2 Km ao N da vila, e a Ponta do Ladoiro, trepando, para admirar um dos mais belos panoramas da região, à serra de S. Domingos, ou gozando da frescura da vegetação do chamado Bosque."
Esta enumeração enfoca já, podemos dizer, a "natureza" e o "desporto". Porém, os tempos agora são outros. Esta citação do Guia de Portugal oferece, principalmente, um certo sabor a recanto quase primitivo, de antanho.

2. Ao longo do século XX, duramente perturbado, embora, pelas duas guerras mundiais, o turismo desenvolveu-se como um dos mais extraordinários fenómenos sociais e económicos do nosso tempo. No concelho de Odemira, a dimensão balnear continua a ser a grande "mais-valia", mas os valores naturais, paisagísticos, geológicos e biológicos, assumem, cada vez mais, um papel de relevo, que a criação da Área de Paisagem Protegida (1988) veio sublinhar. A linha de costa e o rio são os principais atractivos, mas o interior concelhio começa a ficar também representado.
Mais recentemente, o Mira evidenciou-se como destino de turismo desportivo, em especial pelo facto de ser escolhido como lugar de preparação de clubes e selecções de canoagem, provenientes de países com invernos mais duros e impeditivos da actividade.
"Turismo desportivo e de natureza" é o tema da FEITUR, que se realiza anualmente em Milfontes. Ele patenteia uma estratégia que passa por dar realce a recursos locais de excelência e de os impor como "produtos turísticos", superando assim a antiga realidade de fórmula "turismo de sol e praia" (que, naturalmente, continua dominante).
Como se vê, os "produtos", embora assentem em valores naturais, exigem estratégias, trabalho, não são espontâneos. Se se quiser alargar o conteúdo do novo paradigma a um "turismo cultural", por exemplo – não como uma espécie de tentativa de "compor o ramalhete", mas para alargar e diversificar a oferta e, mais uma vez, aproveitar os recursos – impõe-se a mesma atitude voluntariosa. Estabelecendo as estratégias adequadas e fazendo os investimentos públicos certos. Não temos, claro, uma Notre Dâme ou um Louvre para oferecer ao usufruto de visitantes, mas possuímos, garante-se, património bastante.

O autor utiliza o
Novo Acordo Ortográfico



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